No meio do caminho, encontram-se os dois — e o universo ri, chamando-os de Txais.

Pedro e Bino (Carga Pesada, 1979-2007, Globo) já fizeram confusões nas estradas brasileiras, mas não atravessaram portais dimensionais; com os Txais o ronco da Scania vira mantra; o diesel se mistura com ayahuasca; e os postos de beira de estrada são templos improvisados para compartilhar doses gratuitas de filosofia, criminologia, autoconhecimento, religião, espiritualidade, humor e loucura.

Do Paraná ao Tocantins, do Machu Picchu a Índia, da Palestina a Arábia Saúdita, da Africa ao Jardim Cósmico: dois Txais que sonham em transformar um caminhão em disco voador sobre rodas, com adesivo escrito na boleia: “Se não nos tornarmos loucos, nunca seremos livres”. Torne-se Quem Você É!

Dois Malucos e uma Piada Cósmica

Um foi marinheiro, hoje é professor-escritor em Tupirama/TO. O outro é advogadoescritor em Maringá/PR, náufrago profissional da vida e mais perdido que GPS sem sinal. Ambos colecionam dores, derrotas, vazios e boletos — mas o universo, numa de suas piadas cósmicas, decidiu que se tornariam Txais, companheiros de uma missão improvável, caminhando lado a lado numa estrada invisível.

Enquanto a maioria sonha em comprar casa, carro ou criptomoeda, os dois firmamos um pacto simples: comprar uma Scania. Não para enriquecer, mas para viajar pelo mundo levando livros, filmes, iguarias, ayahuasca e ensinamentos meio tortos, temperados com humor e embalados por gaitas que nunca afinam.

– “Enquanto não vem o disco voador, vamos de Scania”, rimos, selando o pacto. E desde então já não sabemos se sonhamos ou planejamos, mas o destino sorriu.

Nesse interim, de vilarejo em vilarejo, vamos pregando a palavra dos malucos iluminados:
– “Não somos gurus, somos apenas caminhoneiros cósmicos com tempo livre e carteira de habilitação tirada do caos.”

E a cada viagem, seguimos desenhando no mapa da estrada o contorno de uma constelação.

Carga Sagrada

Nossa carreta não transporta soja, minério ou boi. Nosso caminhão leva outras cargas perigosas:

Cada parada em um posto cósmico é uma roda de conversa, onde distribuímos ensinamentos improvisados aos viajantes: um pouco de Nietzsche, outro de Osho, e uma pitada de risada nervosa porque, afinal, ninguém entendeu nada — nem a gente. Pelo menos, malucos se juntam pra ouvir, rir e talvez aprender alguma coisa (ou desaprender – nihil in inanis).

O GPS Espiritual

Nosso itinerário não cabe no Google Maps. O itinerário é mistico. O mapa está marcado para lugares improváveis:

  • Machu Picchu, para perguntar aos Incas se eram os zeuses astronautas;
  • Índia, para tentar tomar café com Shiva (ou pelo menos comprar umas pulseiras baratas em Varanasi);
  • Palestina — para ver se a paz, enfim, deixou endereço fixo;
  • Arábia Saudita — para perguntar em Meca se Alá também gosta de gaitas desafinadas;
  • África — para dançar com os ancestrais e ouvir os tambores que já ecoavam antes de qualquer estrada existir;
  • e, por fim, depois de muitos quilômetros e alguns pneuzinhos carecas, planejamos estacionar a Scania num terreno na Amazônia, onde afundaremos o Jardim dos Txais Cósmicos.

O Jardim dos Txais Cósmicos

Ali, cada um terá sua horta de alface e sua biblioteca interna; o culto será regado a café forte e gargalhadas; e a aposentadoria será um longo pôr do sol, com a sensação de que fomos livres na estrada e nas ideias.

Será o último pit stop de tanga, antes da tão sonhada e aguardada abdução alienígena.

Diferentes, mas Iguais

Um prefere Shiva, o outro ainda conversa com Jesus. Um navegou mares, o outro se afogou em bares. Um abraçava árvores, o outro abraçava caixas de Zolpidem. Um tem sotaque do Norte, o outro do Sul. Um foi criado na roça, o outro na cidade. Um luta com os boletos, o outro com os fantasmas do sonho.

Mas no fundo, estão no mesmo barco: e é nesse encontro que nasce a irmandade: dois malucos, espelhos rachados de uma mesma alma, preenchendo os buracos existenciais com livros, filmes, ayahuasca e gargalhadas cósmicas – mas em busca e cada vez mais alinhados com inominável mistério da vida.

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Homenagem Final aos Amigos Caminhoneiros

Antes de desligar o motor da imaginação, precisamos honrar os caminhoneiros reais. Enquanto sonhamos com Scania estelar, jardins cósmicos e discos voadores, eles vivem a realidade bruta, cruzam o Brasil dia e noite, enfrentam buracos, pedágios, solidão, sono pesado – mas sempre com esperança.

Nossa estrada é metafísica; a deles, de ferro, café, graxa e resistência.

Aqui deixo minha homenagem especial ao meu saudoso avô Rubens Morreti e aos meus tios Clóvis Morreti e Afonso Sanches — caminhoneiros desde sempre, irmãos da estrada, homens que carregaram não apenas cargas, mas também histórias, sonhos e o peso de manter o Brasil em movimento.

Se o Jardim dos Txais Cósmicos um dia florescer, haverá um altar especial para eles e para todos os guerreiros da boleia.


A Jornada

Essa estrada que inventamos já vinha sendo traçada em outros textos. Quem leu Se for pra surtar, que seja com um bebê reborn no colo vai reconhecer meu Txai Jocy como o mesmo guardião da sanidade contra bonecas apocalípticas. E em Escolhi minha profissão ou ela me escolheu? A psicanálise responde, ele reaparece como provocador de ideias e acendedor de brasas. No fundo, cada artigo é só mais um posto de estrada nessa viagem maior — onde amizade, humor e filosofia espiritual viram combustível da Scania cósmica que seguimos dirigindo juntos.

É são eles quem estão escrevendo — como quem conversa com zeuses pandemônicos enquanto fuçam internamente os registros akáshicos – um manuscrito sobre Religiões com Humor, a ser lançado em 2027.

🚛✨ Porque toda viagem espiritual começa com uma boa estrada.


E não se esqueça: toda segunda, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” traz humor para os dias difíceis. Sábado a gente fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio.

Haux!

Txai Neemias e Txai Jocimar, professores, escritores e eremitas da alma. Entre livros, filmes, boletos e rituais de Ayahuasca, criaram uma fraternidade cósmica. Escrevem para não enlouquecer — e aceitam a loucura como mestra da palavra.

Foto: Um já procurando a Scania, outro já buscando o Jardim.

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