Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Para quem ainda acredita que um curso de R$997 vai abrir o chakra do Nubank.
Vivemos numa distopia de incenso. Uma distopia onde gente em colágeno hidrolisado com Wi-Fi no cérebro vende a promessa de que você pode “cocriar” a realidade que quiser. Quer um carro? Um amor? Um milhão na conta? É fácil: é só repetir uma afirmação positiva diante do espelho e depositar 12 parcelas de fé no boleto sagrado da autoajuda.
Mas aqui vai a verdade com gosto de ferrugem: não existe atalho quântico pra vida real. O “Hertz da abundância” não paga conta de luz. A “reprogramação mental” que eles oferecem é, na melhor das hipóteses, uma masturbação intelectual com cheiro de sálvia.
O coach quântico é o novo pastor pop: vende salvação por pix. Ele se apresenta como um canal entre você e a energia criadora, mas no fim do dia ele é só um camelô da alma, vendendo placebo em frasco de ouro.
Eles não querem te curar. Querem te viciar.
Eles vendem o ciclo da culpa: se você fracassa, a culpa é sua vibração. Se você sofre, é porque não “emitiu” o pensamento certo. Eles nunca erram. Você sempre precisa de mais um curso, mais um treinamento, mais um ritual com cristais enfiados onde o sol nem se atreve a entrar.
São especialistas em converter dor em dígitos. Eles caçam gente desesperada como tubarões sentindo sangue na água. Transformam pobreza em lead. Transformam depressão em ticket médio. Chamam sofrimento de “bloqueio vibracional”. E cobram caro pra tirar um bloqueio que eles mesmos inventaram.
Vamos nomear os demônios.
Você já ouviu falar da sacerdotisa do Holo Cocriação? Do Jedi da neurociência New Age? De coaches com nomes tipo “Mestre da Frequência X” ou “CEO do Cérebro”? Pois é. Estão todos no mesmo baile, dançando em cima de gente que está no fundo do poço. A diferença é que eles têm palco, luz de LED e trilha sonora.
Eles te dizem que você é Deus. Mas cobram pra te lembrar disso toda semana. A autossuficiência virou assinatura mensal.
A farsa é bonita porque brilha.
Tem slides com fonte dourada. Depoimentos de “ex fracassados” que agora têm Porsche Cayenne. Gráficos coloridos que parecem ciência. Mas é performance. É teatro. É marketing embebido em incenso.
E não se engane: não é porque você se sentiu motivado por cinco minutos que aquilo funciona. Cocaína também dá uma sensação de poder. O problema é depois.
E o depois é onde mora o caos.
Quando você percebe que não cocriou nada. Que continua pobre, ansioso, com boletos vencendo e um PDF de R$497 salvando poeira no Google Drive. Aí vem a vergonha, a culpa, o isolamento. E em casos extremos, o fim. O suicídio vibracional de uma alma que acreditou demais num PowerPoint.
Mas eles não te veem como humano. Você é uma métrica. Um conversão. Um print de antes e depois.
Conclusão: Queimem os incensos. Apaguem os slides.
A verdadeira elevação é aprender a dizer: “isso aqui é golpe”.
Não existe código secreto do universo. Existe capitalismo emocional, fome espiritual e uma indústria de charlatanismo com trilha binaural.
Não medite. Reaja.
Ou pelo menos pare de pagar pra sofrer.
Com sarcasmo e fúria,
Um ser vibracionalmente puto da vida.
Não deixe de ler: Advocacia Quântica: Entre o Habeas Corpus e o Reiki

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.





