Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Cheguei a uma conclusão madura, refletida, ponderada e absolutamente irresponsável:
advocacia e docência não são suficientes.
Acho que vou abrir um cabaré.
Calma. Não é impulso. É método.
Depois de anos lidando com versões mal ensaiadas da verdade, performances emocionais em audiências e alunos fingindo atenção com a mesma convicção de um cliente jurando inocência, percebi: já estou no ramo do entretenimento há tempos — só não cobro ingresso.
Na advocacia, o sujeito jura que é santo, a prova grita o contrário e o juiz finge surpresa.
Na docência, eu explico Cirino, o aluno anota o nome errado e pergunta se “isso cai na prova”.
Isso não é profissão. É espetáculo.
O cabaré, ao menos, tem honestidade estética.
Ninguém finge pureza.
Ninguém chama mentira de tese.
E o drama, quando existe, vem com música e iluminação adequada.
Além disso, sejamos francos: no cabaré, quem entra sabe o que quer.
Na advocacia, o cliente quer justiça, mas aceita um acordo.
Na docência, o aluno quer diploma, mas não quer o caminho.
No cabaré, o desejo não usa terno nem bibliografia.
Pensei até no nome:
“Ordem dos Boêmios do Brasil”.
Ou talvez “Cabaré da Verdade Nua” — sem recurso, sem embargos e sem ementa.
Claro, não abrirei cabaré nenhum.
Sou covarde demais pra viver do que realmente penso.
Então sigo aqui: advogando causas, dando aulas, escrevendo crônicas e fingindo que isso basta.
Mas confesso:
em alguns dias, entre um processo mal pago e uma aula ignorada,
a ideia do cabaré me parece…
perigosamente lúcida.

⚡️ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.






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