Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Você acha que escolheu ler este artigo — ou ele te escolheu antes mesmo de você saber que tinha escolha?
Você acordou hoje e escolheu ler este artigo? Ou ele foi escolhido por você — pelo algoritmo, pelo inconsciente, pela fome, pelo tédio, ou por alguma força cósmica obscura chamada “segunda-feira”?
Imagine a cena: você entra no mercado com a firme intenção de comprar alface. Sai de lá com uma cerveja, picanha do L e um sentimento inexplicável de fracasso moral. A pergunta que fica não é “cadê o alface?”, mas sim:
Você escolheu isso? Ou foi escolhido por algo em você que nem você conhece?
Pois é. Bem-vindo ao debate mais velho que Adão e mais atual que o ChatGPT: livre-arbítrio existe ou é só marketing existencial?
🔍 Primeiro: o que é isso mesmo?
Livre-arbítrio é a ideia de que você pode escolher. Pode optar entre comer alface ou picanha. Entre casar ou fugir. Entre votar ou reclamar depois. Em teoria, você é o autor da sua história.
Mas… será mesmo?
🧠 O cérebro te trolla (e você nem sabe)
Foi mais forte do que eu” – disse o seu cérebro antes de te avisar
A neurociência vem esfregar na nossa cara uma verdade desconcertante: a maior parte das decisões que você toma já foi tomada antes de você saber que havia uma decisão.
Sim, seu cérebro é um traíra com má comunicação.
Segundo o neurocientista David Eagleman, autor do livro Incógnito: As Vidas Secretas do Cérebro, seu cérebro toma decisões antes mesmo de você saber que tem uma decisão a tomar. Somos como aquele estagiário que acha que está no comando do escritório, mas na verdade só passa o café e recebe ordens por e-mail interno do inconsciente.
Você acha que está no controle, mas está mais para passageiro da Uber do que para motorista. E o cérebro nem te pergunta: só vai. Depois te conta uma historinha bonita, tipo:
“Você escolheu isso porque é racional, maduro, consciente.”
Só que não.
Você não decide: você justifica.
🧬 A ciência responde: você está determinado (e não é elogio)
Determinados… e condenados a agir como se não fôssemos
Robert Sapolsky, no livro Determinados, basicamente destrói qualquer esperança de que você seja dono da sua vida. Tudo o que você faz — desde amar alguém até escolher um sabor de sorvete — pode ser explicado por genes, ambiente, traumas, infância, fome, cortisol, TPM, café vêncido ou Mercúrio retrógrado. Tudo isso já decidiu por você.
Ou seja, você pode ser vegano, praticar yoga e fazer jejum intermitente… mas se sua avó te alimentava com leite condensado e culpa, é ela quem ainda escolhe por você até hoje.
A conclusão é dura como a realidade:
“Você não tem culpa de nada… mas também não tem mérito.”
Obrigada, ciência. Agora a gente não sabe se chora ou processa.
“Dizer que livre-arbitrio existe é invocar magia” (Sapolsky)
Quando Robert M. Sapolsky diz que “afirmar que o livre-arbítrio existe é invocar magia”, ele quer dizer que, ao aceitarmos o livre-arbítrio como algo real e independente, estamos presumindo a existência de um fenômeno que rompe todas as cadeias causais conhecidas pela biologia e pela física — algo que simplesmente “surge do nada”. Para ele, cada decisão humana é resultado de uma imensa sequência de causas: genética, química cerebral, hormônios, traumas, cultura, experiências passadas e contexto presente. Não há, portanto, um ponto onde o “eu” possa agir livre de tudo isso. Assim, quando alguém afirma que, apesar dessas causas, o indivíduo ainda escolhe “livremente”, Sapolsky diz que está, na prática, apelando a uma explicação mágica — como se houvesse um feitiço invisível que faz a consciência escapar das leis da natureza.
🎭 Filosofia: o palco do livre-arbítrio
Filosofia: o lugar onde a dúvida é certeza
Aí vem a Filosofia e mete três escolas no debate:
Determinismo: tudo está escrito. Você é uma árvore: parada, previsível, e só cresce onde foi plantada. Não existe livre-arbítrio, só causas e consequências. Bem-vindo ao Google Maps da existência: você só segue rotas traçadas.
Você é um personagem numa novela cósmica ruim.
Libertarianismo: você é livre e consciente. (Só não sabe o que fazer com isso).
E não vale culpar ninguém quando der errado, tá?
Compatibilismo: Você é livre, desde que siga o script do universo. Uma liberdade com manual de instruções e senha no Wi-Fi.
É tipo ser livre na prisão, mas com refeitório vegano.
🧘🏽 Espiritualidade: respira e transcende
Uma luz no fim do carrossel
Se a ciência te faz sentir um robô com sentimentos, a espiritualidade sussura:
Calma, meu querido. Você é consciência infinita – pura, eterna, presente no agora – vivendo uma experiência humana… maluca, sim, mas cheia de propósito
Nessa visão, o ego acha que escolhe, mas a verdadeira liberdade vem quando você desperta e percebe que não é o “eu” que decide — é algo maior, observador, silencioso.
Ou seja: você não escolheu a pizza. A Consciência quis experimentar calabresa através de você.
Aqui, o livre-arbítrio não está no que você faz, mas em como você responde à vida.
Você não controla a chuva, mas pode escolher dançar ou reclamar.
Spoiler: se reclamar chover mais, não diga que não avisei.
🎬 Matrix, Netflix e a vida como roteiro barato
- Matrix já avisou: a escolha é uma ilusão criada para manter você sob controle. (Mas e se a ilusão for o próprio controle?)
- Corpos (Netflix): mostra loops temporais onde tudo já aconteceu. (Se tudo já aconteceu e vai acontecer de novo, pra quê livre-arbítrio?)
E a vida real? Às vezes parece um roteiro mal escrito com final cancelado na terceira temporada.
❓ E aí, você tem livre-arbítrio?
Calma. Respira. A resposta honesta é:
“Depende de quem está perguntando.”
Se for o ego, ele vai gritar “CLARO QUE SIM!”.
Se for o cérebro, ele já decidiu antes de você ler esta linha.
Se for a alma… ela vai sorrir em silêncio.
Ou então:
“Você tem o suficiente pra escolher como vai reagir ao fato de não ter.”
(Ou seja: liberdade emocional parcelada em 12 vezes.)
🌀 Conclusão: e agora, Txai?
Você não escolheu nascer. Talvez nem escolha morrer. Mas entre uma coisa e outra, você pode escolher como interpretar essa experiência.
Talvez o livre-arbítrio não seja absoluto — mas talvez seja o suficiente para mudar sua vida… ou ao menos escolher entre rir ou surtar com isso tudo.
E se nada disso fizer sentido, relaxa: talvez você nem tenha escolhido ler até aqui. Porque até se você não tiver escolha, ao menos a gente escolhe te fazer pensar (e rir).
Implicações práticas:
- Se não há livre-arbítrio, pare de se culpar tanto.
- Se há livre-arbítrio, pare de terceirizar responsabilidade.
- Se você não sabe, continue lendo a Factótum Cultural: aqui você encontra sentido até no caos.
A liberdade é igual Wi-Fi público – existe, mas é instável.
Talvez o livre-arbítrio seja só um mito moderno, tipo “emprego dos sonhos” ou “relacionamento saudável no Instagram”.
Ou talvez seja real, mas você só consiga acessar depois do terceiro chá de ayahuasca.
De qualquer forma, você pode escolher acreditar que está escolhendo.
E às vezes, isso já é liberdade o suficiente.
Se, depois de tudo isso, você ainda acredita que pode escolher alguma coisa — como, por exemplo, se tornar quem você realmente é — recomendamos o artigo “Torne-se Quem Você É (Antes Que Seja Tarde)”, que propõe uma viagem interna com ou sem livre-arbítrio. E, se o que você escolheu (ou foi escolhido a sentir) foi tristeza, raiva, culpa ou aquele mix existencial que dá aos domingos um gosto de segunda, leia “A Casa de Hóspedes – Rumi e a delicadeza de sentir”. Porque, no fim das contas, talvez você não tenha controle sobre tudo… mas pode, pelo menos, oferecer um chá às emoções que batem à sua porta.
Factótum Cultural – onde você livremente entra e, determinadamente, sai com mais dúvidas do que entrou. E é isso que nos move.
E não se esqueça: Todo sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, filósofo, professor e editor-chefe do Factótum Cultural. Se perdeu entre os livros, os filmes, os boletos e os rituais de Ayahuasca. Escreve para não enlouquecer — e às vezes enlouquece para escrever melhor.





