Neemias, o ET

Descobri numa segunda-feira. Sempre é numa segunda-feira. Domingo ainda tem esperança (até o fantástico), sexta tem anestesia social. Segunda é o dia em que a realidade te olha nos olhos e diz: “zamigo, senta que lá vem a verdade”.

A descoberta não veio com nave, raio verde ou abdução — veio com boleto, café frio e uma sensação antiga: eu não sou daqui. Não deste mundo, não deste sistema, não deste grupo de WhatsApp da família.

Foi aí que caiu a ficha: sou um ET.

Calma. Nada de antenas (ainda). É um ET existencial. Daqueles que observam os humanos como quem assiste a um documentário do Discovery às três da manhã: fascinado, confuso e levemente preocupado.

Sinais claros de extraterrestridade

Vamos aos indícios científicos (publicáveis no Jornal Intergaláctico da Esquisitice):

  • Você acha normal ficar pensando no sentido da vida enquanto lava a louça.
  • Você não entende como alguém consegue brigar por política com um desconhecido que tem foto de anime.
  • Você se sente deslocado em ambientes onde todo mundo parece saber exatamente o que está fazendo — quando claramente ninguém sabe.
  • Você tenta conversar sobre consciência, alma ou cansaço existencial e a resposta é: “mas e o Bitcoin?”

Se identificou? Pois é. ET confirmado.

A nave-mãe chamada sociedade

Ser ET não é sobre vir de outro planeta. É sobre não caber neste.

A sociedade funciona como uma grande nave-mãe meio quebrada, onde todo mundo finge que está tudo bem enquanto o painel pisca em vermelho: ANSIEDADE, DEPRESSÃO, CINISMO, PIX ATRASADO.

Os humanos seguem o protocolo:

  • Trabalhe.
  • Produza.
  • Consuma.
  • Sorria.
  • Poste.

E o ET interno pergunta, educadamente:

“Desculpa interromper, mas… isso é tudo?”

Silêncio constrangedor.

Espiritualidade, terapia ou abdução?

Em algum momento, todo ET passa pela dúvida clássica:

“Isso é despertar espiritual, crise existencial ou só falta de férias?”

A resposta correta é: sim.

A mente humana, quando cansada de superficialidade, começa a falar em símbolos. Uns falam em deuses, outros em arquétipos, outros em alienígenas. No fundo, é só a consciência dizendo:

“Ei, presta atenção. A vida precisa ser mais do que isso.”

Nada de pânico. Não é loucura. É excesso de lucidez sem manual de instruções.

Manual básico de sobrevivência para ETs infiltrados

Algumas dicas práticas para quem descobriu sua natureza extraterrestre:

  1. Finja normalidade. É uma habilidade social importante. Sorria em reuniões.
  2. Aterre. Corpo ajuda a mente. Caminhe, respire, durma. ET cansado vira conspiração.
  3. Use humor. Nada assusta mais o absurdo do que uma boa piada.
  4. Escreva. Ou pinte. Ou fale sozinho. Expressar evita implosão cósmica.
  5. Não tente convencer humanos. Eles ainda estão atualizando o sistema operacional.

O detalhe que não dá pra ignorar 👁️‍🗨️

Agora… sejamos honestos.

E se a piada for só a superfície?

Porque, olhando bem de perto — ou bem de longe — a coisa fica curiosa.

Se somos seres espirituais vivendo uma experiência material, como dizem místicos, filósofos e tradições antigas, então… tecnicamente… não somos deste mundo. Estamos neste mundo. O que é diferente.

E se formos ainda mais ousados:

  • Há mitos antigos falando de deuses que desceram do céu e ensinaram os humanos a plantar, construir e contar o tempo.
  • Há teorias sobre os Anunnaki, seres vindos das estrelas que teriam mexido no nosso DNA como quem edita um texto mal escrito.
  • Há a hipótese (científica, inclusive) da panspermia: a vida pode ter vindo de fora da Terra, viajando pelo espaço como poeira cósmica.

Ou seja: talvez a ideia de ser um ET não seja tão absurda assim.

Talvez só seja… mal contada.

ET, espírito ou turista cósmico?

Talvez sejamos consciências antigas usando corpos temporários.
Talvez sejamos viajantes esquecidos.
Talvez sejamos apenas malucos muito bons em fazer perguntas estranhas.

Ou talvez — e essa é a hipótese mais perigosa —

a verdade esteja espalhada entre mito, ciência, símbolo e imaginação, e ninguém tenha o mapa completo.

Religião chama de alma.
A filosofia chama de consciência.
A ficção científica chama de alienígena.

Muda o nome. O mistério continua.

Conclusão (antes que a nave talvez volte)

No fim, eu continuo pagando boletos, esquecendo senhas e sentindo cansaço existencial às 22h.
Isso é bem humano.

Mas também continuo olhando para o céu com a sensação incômoda de que não viemos só para trabalhar, consumir e morrer.
Isso já não é tão humano assim.

Então fica o acordo silencioso:

Eu rio da ideia de ser um ET.
Mas não descarto completamente.

Porque, se a existência é um mistério,
levar tudo ao pé da letra é ingenuidade —
mas achar que sabemos tudo é ainda pior.

Se um dia a nave chegar, eu pergunto educadamente:

“Era isso mesmo ou era metáfora?”

Até lá, sigo aqui —
meio humano,
meio mistério,
100% consciente de que existir é muito mais estranho do que parece.

👽✨

📖 Não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor, advogado, professor, filósofo míscômico e editor-chefe do Factótum Cultural.

Deixe um comentário

Tendência