Por Adriano Nicolau da Silva

Resenha Crítica Narrativa
RESUMO: Esta resenha propõe uma reflexão sobre o impacto das mídias digitais no comportamento humano contemporâneo. A partir de relatos experienciais e observação fenomenológica, o texto utiliza a Análise do Comportamento e teorias da comunicação para discutir a “surdez digital” e o descompasso entre a conexão virtual e a presença real.
Recentemente, vivi uma sequência de eventos que desenham o diagnóstico preciso da nossa era. Tudo começou ao pegar minha bicicleta para visitar o meu pai; no trajeto, deparei-me com uma cena que é o emblema da contemporaneidade: dezenas de pessoas absolutamente distraídas, absortas nos seus smartphones enquanto a vida pulsava ao redor. Parei por um instante para observar o quanto aquele distanciamento era profundo. Ironicamente, enquanto eu observava a distração alheia, um carro invadiu o passeio e colidiu violentamente contra um poste, bem próximo à casa do meu pai. O estrondo foi enorme, mas o silêncio que se seguiu foi pior: ninguém ali, entre os pedestres conectados, foi capaz de narrar ao policial o que aconteceu. Estávamos todos lá, mas ninguém estava “presente” (MARTINO, 2014).
Essa incapacidade de narrar o real remeteu-me ao desabafo que ouvi do meu pai logo ao chegar. Ele estava no portão, conversando com um colega da sua idade — alguém que, como ele, não cultiva o hábito dos smartphones. Com uma lucidez que faltava à multidão lá fora, ele balbuciou:
“Meu filho, hoje não dá para conversar nada. Perguntei ao vizinho sobre o parente internado e ele, sem tirar o olho do telefone, só respondeu ‘Hã?’. Parece que está todo mundo perdido, cabisbaixo, rindo sozinho para esse trem de aparelho”.
O “Hã?” Mencionado pelo meu pai não é apenas um vício de linguagem; é um sintoma comportamental de um organismo que, condicionado por reforços intermitentes e prazeres imediatos das telas, desenvolve uma esquiva da realidade imediata (MOREIRA; MEDEIROS, 2007; SKINNER, 1953).
Vivemos numa espécie de “Caixa de Skinner” global, onde vídeos curtos nos roubam a atenção e ceifam a nossa liberdade física e mental (CARDOSO et al., 2023). O impacto desse isolamento é uma epidemia invisível de depressão e ansiedade, fruto de uma busca por uma perfeição virtual que atropela a vida familiar e social (NUNES; MORAES; SOUZA, 2020; FRANCO, 2019). O “barulho” do poste assustou-nos por ser súbito, mas o esvaziamento do sentido da vida acontece no silêncio de cada conexão humana perdida (PRESSER et al., 2021).
A maior surpresa, porém, veio no desfecho da nossa conversa. Enquanto os jovens e adultos na rua permaneciam mudos diante da autoridade, o meu pai e o seu colega, que observavam a vida pela janela da realidade e não pela tela, souberam relatar-me com precisão cirúrgica tudo o que havia ocorrido. Eles testemunharam o fato que os “conectados” ignoraram. Quando o meu pai me revelou a causa técnica do incidente, o círculo fechou-se de forma irônica: o condutor que causou a colisão também estava ao celular. Diante desta revelação, a única resposta que consegui articular, num misto de choque e vergonha alheia, foi o mesmo som do vazio que agora domina a nossa sociedade: — HÃ???????? (TOURINHO, 2003).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, A. S. et al. O impacto da Inteligência Artificial no ensino superior: uma revisão sistemática. Revista de Educação Digital, v. 4, n. 1, 2023.
FRANCO, C. A ilusão da perfeição nas redes sociais e seus impactos psicológicos. Psicologia.pt, 2019.
MARTINO, L. M. S. Teoria das Mídias Sociais: redes, influência e compartilhamento. Petrópolis: Vozes, 2014.
MOREIRA, M. B.; MEDEIROS, C. A. Princípios Básicos de Análise do Comportamento. Porto Alegre: Artmed, 2007.
NUNES, S. G. C.; MORAES, N. R.; SOUZA, F. C. As mídias digitais e a nova sociedade: um olhar sobre as interações humanas e as relações organizacionais. Palmas: EDUFT, 2020.
PRESSER, N. H. et al. Prejuízos emocionais da tecnologia na contemporaneidade. Revista Brasileira de Tecnologia e Sociedade, v. 8, n. 3, 2021.
SKINNER, B. F. Ciência e Comportamento Humano. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003. (Original publicado em 1953).
TOURINHO, E. Z. A produção de conhecimento em psicologia: a análise do comportamento. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8, n. 2, p. 33-41, 2003.
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Adriano Nicolau da Silva, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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