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5 maneiras de ser mais feliz no trabalho (e por que Schopenhauer tinha razão)

A busca pela felicidade é uma questão abordada por filósofos com frequência. As três escolas de filosofia da Grécia clássica deram respostas ao tema.

O estoicismo defendia o desapego das coisas materiais e a busca pelo equilíbrio dentro de nós: o domínio da razão sobre as necessidades físicas.

Já o epicurismo se propunha a explorar todos os tipos de prazeres para se alcançar o êxtase por meio da experiência sensorial e intelectual.

Por fim, o cinismo questionou o significado da pergunta sobre a busca da felicidade, já que seria impossível encontrar respostas precisas para esse tipo de pergunta. Assim, seria preferível viver como se quisesse e justificar as coisas como se preferisse.

Eu acho que nenhuma dessas três alternativas satisfaz plenamente as aspirações da maioria das pessoas, que não são céticas, nem querem viver como eremitas ou em excesso permanente.

Arthur Schopenhauer, o filósofo alemão frequentemente rotulado de “pessimista”, ainda assim fez uma tentativa no que chamou de “eudemonologia”, ou teoria da felicidade. A partir dela, ele formulou uma série de recomendações, especialmente úteis no trabalho, mas também na vida.

Já que passamos pelo menos metade do nosso tempo dedicados a tarefas profissionais, é importante identificar quais caminhos ou recomendações podem nos ajudar a aprender a aproveitar esse processo. Aqui vão cinco.

1. Entender a felicidade como um caminho

A primeira recomendação é entender a felicidade como um caminho, não como um destino. Ou como o resultado de um exercício permanente e não como uma meta a ser alcançada.

Essa afirmação evoca o sentido da vida como uma viagem, presente na literatura desde a Odisseia, de Homero. Pessoas que identificamos como felizes não o são porque chegaram a uma situação e se conformaram com ela.

Na verdade, para permanecer em determinada situação, manter um relacionamento pessoal ou persistir em um estado de espírito equilibrado, é necessário continuar trabalhando muito.

Colegas de trabalho sentados em uma mesa e batendo palmas, sorrindo e bem dispostos
Legenda da foto,É melhor enxergar a felicidade como um caminho, não um destino ou um fim

Acontece como nas estratégias de negócios: a opção marginal de “continuar igual” implica em investir na manutenção da presença no mercado, continuar melhorando o relacionamento com os clientes, melhorando a imagem da marca, e não simplesmente não fazer nada.

Isso se aplica à vida pessoal, como aprendemos sobre a importância da resiliência durante a pandemia. O princípio também se aplica ao trabalho.

Para ser feliz na profissão é preciso continuar melhorando permanentemente, treinando para estarmos atualizados e traçando novos objetivos.

Existem pessoas que pensam que você pode viver da boa reputação e das conquistas do passado, o que é um erro. Devemos continuar a demonstrar competência e valor com o desempenho pessoal, principalmente porque isso vai melhorar nossa autoestima e nossa felicidade.

2. Ser não é ter

Não confunda melhorar e progredir com acumular mais coisas. Ser não é ter, como muitos filósofos explicaram.

Schopenhauer explica a sensação de vazio que advém da realização de um bem material no qual estão colocadas todas as expectativas.

NiÑo dibuja una cara feliz

“A riqueza é como a água do mar: quanto mais você bebe, mais sede terá. O mesmo vale para a fama”, explica.

E pode-se acrescentar que isso também se aplica a poderes e cargos na empresa, se não forem entendidos com vocação para o serviço.

3. Evitar os sentimentos extremos

Evite sentimentos extremos, especialmente inveja, ódio e raiva.

Embora às vezes encontremos imagens caricatas de CEOs em biografias, filmes e até em materiais educacionais, retratando chefes insuportáveis ​​e furiosos, ou enfurecidos com episódios irrelevantes, os verdadeiros líderes são aqueles que ensinam e se tornam referências comportamentais.

Chefes irascíveis só fazem com que as pessoas ao seu redor acabem saindo da empresa.

A inveja é um vício particularmente prejudicial, porque gera amargura. É sobre tristeza pelo bem dos outros, algo mesquinho e que muitas vezes as pessoas rejeitam.

Como Sêneca, um filósofo da Roma clássica, afirmou: “você nunca será feliz se o atormentar que outra pessoa seja mais feliz do que você”.

Infelizmente, parece que seu aluno, o imperador Nero, não aprendeu a lição.

Homem com expressão de ódio
Legenda da foto,Evitar sentimentos extremos, especialmente inveja, ódio e raiva, é outra maneira de ser mais feliz no trabalho.

Pelo contrário, minha experiência é de que a generosidade é a estratégia de vitória a longo prazo, e as pessoas que a cultivam recebem um reconhecimento recíproco.

Uma parte essencial da gestão consiste justamente na capacidade de ensinar, e que uma boa maneira de caracterizar um um CEO é como professor ou um coach. Isso dá uma dimensão mais transcendente à gestão e também aumenta a felicidade pessoal.

4. A felicidade está intrinsecamente relacionada à saúde

Como explica Schopenhauer, “nove décimos de nossa felicidade se baseiam exclusivamente na saúde”.

Curiosamente, o filósofo alemão antecipava os avanços da neurociência e toda a corrente de bem-estar (“wellbeing”) que se deslocou para o ambiente empresarial.

Dado que a saúde física é de natureza relativamente efêmera, são essenciais a resiliência e a busca por equilíbrio, entendidas como um estado de consciência que permite enfrentar a dor.

Mas de toda forma, como diz o ditado em latim “mens sana in corpore sana”, se você cuidar de sua saúde corporal, estará construindo uma saúde mental melhor.

5. Exercitar a alegria

O último conselho neste texto é a importância de se exercitar sistematicamente a alegria.

A alegria é um estado de espírito que pode ser cultivado, e quanto mais você pratica, mais você consegue.

Como explicou Sigmund Freud, o humor desnuda a repressão, gera proximidade e contribui para um ambiente melhor.

Por isso, é aconselhável usar o humor nas reuniões de trabalho, talvez não no início, para não banalizar a troca de ideias, mas em alguns momentos, para quebrar o gelo ou relaxar uma discussão.

Mulher sorri durante reunião
Legenda da foto,O humor é bem-vindo nas reuniões de trabalho.

Novamente, se passamos tanto tempo no trabalho, parece desejável podermos nos divertir de vez em quando.

Uma das atuações mais memoráveis ​​de Rita Hayworth no cinema é quando canta a música Zip no filme Pal Joey (chamado de O Querido Joey no Brasil), em que ela interpreta uma honrada filantropa pressionada a interpretar, em um leilão beneficente, um de seus números famosos da época em que era uma vedete.

Uma das frases da divertida canção diz:

“Zip; eu estava lendo Schopenhauer ontem à noiteZip; e acho que Schopenhauer estava certo.”

Eu concordo com ela.

* Santiago Iñiguez de Onzoño é presidente da IE University. Esta nota apareceu originalmente noThe Conversation e é publicada aqui sob uma licença Creative Commons..

Leia o artigo original aqui.

BBC Brasil. 25.7.2021.

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