Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Fui ao cinema assistir A Odisseia (2026) e saí de lá com uma sensação estranha: talvez eu conheça Ulisses há muito mais tempo do que imaginava.
Não porque tenha enfrentado monstros, navegado mares ou guerreado contra Troia. Minha guerra foi outra.
Mas reconheci a jornada.
Talvez todos nós nasçamos um pouco como Ulisses: inteiros, antes de aprendermos a vestir personagens.
Então a vida começa a nos ensinar quem devemos ser.
A família.
A escola.
A sociedade.
Os amigos.
As expectativas.
Os medos.
Os boletos.
Pouco a pouco, vamos construindo uma persona e, sobre ela, uma armadura. Algumas partes são necessárias para viver no mundo. Outras são colocadas sobre nós sem que sequer percebamos.
Até que um dia saímos para conquistar o mundo.
Queremos ser alguém.
Queremos amor, dinheiro, reconhecimento, conhecimento, poder, sucesso. Queremos vencer. Queremos construir uma história que prove que nossa existência valeu a pena.
Ulisses também parte.
Vai para a guerra como rei, guerreiro, estrategista, herói. Luta e vence.
Mas sua verdadeira Odisseia começa justamente depois da vitória.
No caminho de volta para casa, encontra monstros, deuses, tentações, perdas e mundos desconhecidos.
E talvez a vida seja assim.
Passamos anos lutando para conquistar alguma coisa e, quando finalmente conseguimos, descobrimos que a vitória não resolveu aquilo que doía por dentro.
O mundo pode nos oferecer quase tudo e ainda assim não preencher o vazio.
A vida pode estar cheia por fora e continuar silenciosa por dentro.
Então alguma coisa começa a desmoronar.
Os planos.
As certezas.
Os relacionamentos.
A imagem que tínhamos de nós mesmos.
Às vezes, o próprio personagem.
E talvez a queda não seja apenas uma queda.
Talvez seja o começo do retorno.
Porque chega um momento em que já não queremos conquistar o mundo.
Queremos voltar para casa.
Só que, depois de tudo, descobrimos que casa não é exatamente um lugar.
É dentro.
E então começa a segunda viagem: a viagem para nós mesmos.
Ulisses retorna diferente. E há uma imagem que me impressionou particularmente: ele volta disfarçado de mendigo.
O rei retorna sem a coroa.
Depois de tanta guerra, talvez já não precise provar quem é.
Ele observa.
Espera.
Silencia.
Humilha-se.
E, pouco a pouco, abandona a necessidade de controlar tudo.
Talvez exista aí uma profunda lição espiritual.
Passamos boa parte da vida construindo o personagem.
Depois precisamos descobrir quem existe por baixo dele.
Tirar a armadura.
Soltar o controle.
Aceitar as próprias ruínas.
Perdoar aquilo que fomos.
Recolher os pedaços.
E caminhar.
Não mais para conquistar o mundo.
Mas para voltar a nós mesmos.
Talvez seja isso que chamamos de redenção.
Não apagar o passado. Não fingir que não erramos. Não transformar sofrimento em uma história bonita.
Redenção talvez seja conseguir olhar para tudo o que fomos, inclusive para aquilo de que não nos orgulhamos, e ainda assim escolher continuar.
Sem negar a jornada.
Sem permanecer prisioneiro dela.
Ainda não sei se cheguei à minha Ítaca.
Talvez eu ainda esteja vestido de mendigo, perdido em algum trecho da viagem.
Mas existe uma diferença entre estar perdido e estar voltando.
Hoje começo a compreender que minha própria jornada talvez tenha sido primeiro para fora e, agora, seja para dentro.
Passei muito tempo procurando respostas no mundo.
Hoje procuro silêncio.
Fui atrás de conquistas.
Hoje procuro presença.
Quis controlar o caminho.
Hoje estou aprendendo a caminhar.
E talvez a luz não esteja esperando no destino.
Talvez ela vá aparecendo justamente enquanto voltamos para casa.
Porque talvez a grande Odisseia humana seja esta:
nascemos em casa, saímos para conquistar o mundo, nos perdemos tentando encontrá-lo e, depois de tudo, descobrimos que a jornada inteira era um caminho de volta.
Talvez Ítaca estivesse dentro de nós desde o começo.
Nós é que precisávamos viajar para longe para finalmente descobrir o caminho de volta.
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⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor entre mundos.




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