Por Adriano Nicolau da Silva

Há uma pergunta que me acompanha há algum tempo: como um ser humano chega ao ponto de desejar a própria morte? Essa questão sempre me inquietou porque, em princípio, tudo em nós parece organizado para a preservação da vida. Evitamos ameaças, sentimos dor, procuramos proteção, alimento e companhia. Nosso organismo reage antes mesmo que a consciência elabore uma explicação. Ainda assim, existem momentos em que a existência passa a ser percebida como fonte de um sofrimento tão intenso que a morte começa a aparecer como possibilidade de interrupção dessa dor.
Foi dessa contradição que nasceu meu interesse pelo tema. O que encontrei na filosofia e na ciência não foi uma resposta pronta, mas uma longa história de tentativas de compreender a relação entre vida, dor, liberdade, pertencimento e sentido. A ciência contemporânea mostra que o suicídio é um fenômeno complexo e multifatorial. A Organização Mundial da Saúde estimou aproximadamente 727 mil mortes por suicídio no mundo em 2021 e destaca que diferentes fatores sociais, culturais, biológicos, psicológicos e ambientais participam desse processo, além de reconhecer estratégias preventivas baseadas em evidências (World Health Organization [WHO], 2025a, 2025b).
No Brasil, o Ministério da Saúde trata o tema como questão de saúde pública, orientando a busca por Unidades Básicas de Saúde, CAPS, serviços de urgência e emergência, e o Centro de Valorização da Vida pelo 188 (Ministério da Saúde, 2026). Esses dados mostram a dimensão do problema, mas não revelam sozinhos como é viver em uma consciência na qual o futuro deixou de parecer possível.
Foi nesse ponto que a filosofia ocupou um lugar central. Em O mito de Sísifo (1942), Albert Camus coloca o suicídio no centro da investigação sobre o absurdo, obrigando-nos a enfrentar uma pergunta radical: o que fazemos quando a existência deixa de apresentar um sentido evidente? (Camus, 1942). Para Camus, quando alguém deixa de encontrar razões para continuar, toda a estrutura de sua existência é questionada. A vida não traz uma garantia universal de sentido, exigindo que construamos significados particulares.
Essa percepção remonta à Antiguidade. Em Ética a Nicômaco, Aristóteles pensa a existência humana ligada à vida coletiva e à busca de uma vida boa, mostrando que nossa existência nunca é inteiramente isolada (Aristóteles, 1992). Grande parte do que somos nasce das relações, vínculos e perdas que carregamos. Séculos depois, em Of Suicide (1777), David Hume examinou a relação entre ação humana, ordem natural e o alcance da autonomia diante do sofrimento (Hume, 1777). Hoje, reconhecer a autonomia não significa ignorar a vulnerabilidade: em crise, a percepção de si e do futuro pode estar profundamente alterada, exigindo compreensão e cuidado, e não respostas simplistas.
Em O mundo como vontade e como representação, Schopenhauer descreve a existência atravessada pelo desejo e pela dor (Schopenhauer, 1818/2005). Sua reflexão permite distinguir o desejo de morrer do desejo de deixar de sofrer. Essa distinção mudou minha compreensão da frase “eu quero morrer”: por trás dela há uma pergunta implícita sobre o que se tornou insuportável — uma perda, solidão, fracasso ou dor persistente —, permitindo compreender o sofrimento antes de reduzi-lo ao desfecho.
Émile Durkheim, em O suicídio (1897/2000), demonstrou que o fenômeno está ligado aos níveis de integração e regulação social, classificando-o nas formas egoísta, altruísta, anômica e fatalista (Durkheim, 1897/2000). A pesquisa contemporânea reforça a importância das relações: uma revisão sistemática de Darvishi et al. (2024) encontrou associação inversa entre suporte social e ideação, planos e tentativas de suicídio, embora recomende cautela ao transformar associação em causalidade.
Isso ressignifica o Setembro Amarelo. Falar em prevenção não é apenas repetir que a vida é importante, mas praticar a escuta, o acolhimento e garantir acesso ao cuidado. Professores, educadores e profissionais de saúde integram uma rede capaz de perceber sinais precocemente. A prevenção não depende de um único indivíduo, mas de uma rede que não trata o sofrimento como fraqueza moral.
A Filosofia pode oferecer um espaço singular de investigação existencial, mas nunca deve substituir os cuidados especializados em saúde mental diante de risco suicida, devendo atuar em diálogo com as redes de saúde. A ciência também destaca como o sofrimento altera nossa relação com o tempo: a desesperança restringe a percepção de possibilidades e a ação orientada a objetivos (Marchetti et al., 2023). Contudo, o fluxo da vida muda; o que se sente hoje não precisa constituir uma sentença definitiva. Quando o futuro parece fechado, a tarefa do cuidado é reabri-lo por meio de tempo, presença e escuta.
Filosofia e ciência se encontram ao unir a busca por sentido à investigação de fatores de proteção. No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial e o CVV (188) articulam esse suporte (Ministério da Saúde, 2026). Retornando a Camus, a ausência de um sentido pronto significa que ele pode ser construído na experiência concreta e nas relações.
Não se trata de romantizar a vida, apresentando-a como bela o tempo todo, mas de defendê-la sem mentir sobre suas dores. O objetivo do Setembro Amarelo deve ser criar condições para que ninguém precise atravessar o sofrimento sozinho. A minha pergunta inicial transformou-se: o que podemos fazer para que a morte não seja percebida como a única possibilidade restante?
Aristóteles nos lembrou da coletividade; Hume, da autonomia; Schopenhauer, do paradoxo da dor; Durkheim, da integração social; e Camus, da construção do sentido. Quando unimos essas lentes filosóficas às evidências da ciência contemporânea, compreendemos que o sofrimento suicida é multifatorial e exige, antes de tudo, a preservação intransigente da possibilidade de mudança.
Devemos, por isso, nos envolver mais e melhor com as profundezas da psique humana. Caminhamos hoje amparados por todo o rigor do nosso potencial científico, mas sem nunca perder a capacidade de acolher quem padece na sombra da desesperança. Como nos convidava Spinoza, há uma sabedoria em vislumbrar a beleza da vida na própria tessitura da natureza, tentando encontrar na harmonia do mundo e na força imanente do existir o sopro de um sentido maior.
O sentido não precisa ser grandioso; a vida é uma experiência que apenas precisa continuar sendo vivida. E se você atravessa, neste exato momento, dores ambíguas ou cenários ainda não estruturados na mente, procure ajuda. Existem almas e redes prontas para querer você bem e feliz.
Referências
Aristóteles. (1992). Ética a Nicômaco (M. da Gama Kury, Trad.; 3ª ed.). Editora Universidade de Brasília.
Camus, A. (1942). Le mythe de Sisyphe: Essai sur l’absurde. Gallimard.
Darvishi, N., Farhadi, M., & Poorolajal, J. (2024). The role of social support in preventing suicidal ideations and behaviors: A systematic review and meta-analysis. Journal of Research in Health Sciences, 24(2), e00609. https://doi.org/10.34172/jrhs.2024.144
Durkheim, É. (2000). O suicídio: Estudo de sociologia (M. Stahel, Trad.). Martins Fontes. (Obra original publicada em 1897).
Hume, D. (1777). Of suicide. In Two essays. London.
Marchetti, I., Alloy, L. B., & Koster, E. H. W. (2023). Breaking the vise of hopelessness: Targeting its components, antecedents, and context. International Journal of Cognitive Therapy, 16(3), 285–319. https://doi.org/10.1007/s41811-023-00165-1
Ministério da Saúde. (2022, 7 de julho). Suicídio (prevenção). https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/s/suicidio-prevencao
Schopenhauer, A. (2005). O mundo como vontade e como representação (J. Barboza, Trad.). Editora UNESP. (Obra original publicada em 1818).
World Health Organization. (2025a). Suicide. https://www.who.int/health-topics/suicide/suicide
World Health Organization. (2025b). Suicide worldwide in 2021: Global health estimates. https://doi.org/10.2471/9789240110069

Adriano Nicolau da Silva, Professor, Psicoterapeuta, Neuropsicopedagogo e Neuroeducador. Graduado em Psicologia e Filosofia. Especialista nas áreas de educação e clínica. Pós-Graduando em Física. Uberaba, MG. Colunista do Factótum Cultural. E-mail: adrins@terra.com.br
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