Por Verbo Factótum (Série ‘Expansão da Consciência’)

Entre anestesia, dissociação e novas terapias para a depressão, a cetamina se tornou uma das substâncias mais intrigantes da psiquiatria contemporânea
Durante décadas, a cetamina foi conhecida principalmente como um anestésico.
Hoje, porém, ela ocupa um território muito mais curioso: está simultaneamente na anestesiologia, na medicina de emergência, na pesquisa sobre depressão e no universo das substâncias dissociativas.
É uma molécula que pode fazer alguém perder temporariamente a percepção normal do corpo e do ambiente e, em determinadas condições clínicas, produzir efeitos antidepressivos relativamente rápidos.
Como isso é possível?
A resposta passa por uma das principais características da cetamina: ela interfere no sistema glutamatérgico, principalmente por meio do bloqueio dos receptores NMDA.
Uma substância diferente dos psicodélicos clássicos
A cetamina costuma aparecer nas conversas sobre psicodélicos, mas existe uma diferença importante.
LSD, psilocibina e DMT atuam predominantemente sobre mecanismos serotoninérgicos, especialmente o receptor 5-HT2A.
A cetamina segue outro caminho.
Ela é classificada principalmente como uma substância dissociativa.
Em determinadas doses, pode produzir sensação de distanciamento do próprio corpo, alteração da percepção do espaço e do tempo, mudanças sensoriais e uma experiência de separação entre consciência e ambiente.
É como se o cérebro alterasse temporariamente a maneira pela qual integra aquilo que chamamos de “eu” e aquilo que chamamos de “mundo”.
A experiência dissociativa
A dissociação pode ser bastante estranha.
Algumas pessoas descrevem sensação de flutuar, observar o próprio corpo de fora, estar em outro lugar ou perceber o ambiente de maneira radicalmente diferente.
Também podem ocorrer alterações da percepção, sedação, tontura, náusea e aumento transitório da pressão arterial.
Em estudos clínicos, a dissociação é justamente um dos efeitos mais característicos da cetamina e da escetamina.
E aqui aparece uma questão fascinante para a filosofia da mente:
quanto da sensação de “eu” depende da maneira como o cérebro integra as informações do corpo?
A cetamina oferece uma espécie de experimento farmacológico sobre essa pergunta.
Quando a anestesia virou investigação psiquiátrica
O interesse contemporâneo pela cetamina mudou radicalmente quando pesquisadores perceberam que ela poderia produzir efeitos antidepressivos muito mais rápidos do que os antidepressivos convencionais.
Revisões recentes continuam encontrando redução rápida dos sintomas depressivos, particularmente em pessoas com depressão resistente ao tratamento. Entretanto, os efeitos podem ser transitórios e as questões sobre segurança e manutenção do benefício ainda estão sendo estudadas.
Isso criou uma mudança importante na psiquiatria.
Durante décadas, o modelo dominante para antidepressivos esteve fortemente associado à serotonina, noradrenalina e dopamina.
A cetamina mostrou que o glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do cérebro, também poderia desempenhar um papel importante na depressão.
Cetamina não é a mesma coisa que escetamina
Aqui existe uma confusão frequente.
A cetamina farmacêutica convencional é uma mistura de dois enantiômeros: R-cetamina e S-cetamina.
A S-cetamina é chamada de escetamina.
Ela possui propriedades farmacológicas próprias e deu origem a medicamentos desenvolvidos especificamente para tratamento da depressão resistente.
No Brasil, a Anvisa registrou o Spravato (cloridrato de escetamina) para determinadas situações de transtorno depressivo maior, incluindo depressão resistente ao tratamento e redução rápida de sintomas em adultos com ideação ou comportamento suicida agudo, sempre dentro das indicações estabelecidas. A própria Anvisa ressalta que o medicamento não demonstrou eficácia na prevenção do suicídio.
Por que não simplesmente tomar cetamina em casa?
Porque estamos falando de uma substância farmacologicamente potente.
A cetamina pode provocar sedação, dissociação, alterações cardiovasculares e prejuízo temporário da atenção e do julgamento. Também possui potencial de uso indevido.
Por isso, a escetamina utilizada para depressão é administrada em ambiente de saúde com monitoramento após a aplicação. No Brasil, cetamina e escetamina estão submetidas a controle especial, e a Anvisa determina que medicamentos contendo essas substâncias sejam dispensados e utilizados em estabelecimentos de saúde.
E o uso recreativo?
É aqui que a história muda.
Uma substância que pode ser uma ferramenta médica cuidadosamente controlada também pode produzir experiências dissociativas quando utilizada fora de contexto clínico.
O uso repetido e inadequado pode trazer problemas, incluindo risco de dependência e outros efeitos adversos.
Pesquisas recentes continuam investigando justamente a diferença entre o uso terapêutico supervisionado e os riscos associados ao uso problemático.
Portanto, a existência de pesquisas promissoras não transforma a cetamina em uma espécie de “antidepressivo recreativo”.
Medicina não é simplesmente molécula + boa intenção.
É molécula + dose + indicação + contexto + monitoramento.
Uma janela para estudar a consciência
Talvez uma das coisas mais interessantes sobre a cetamina seja que ela aproxima duas áreas que durante muito tempo foram tratadas separadamente:
psiquiatria e filosofia da consciência.
Se uma substância consegue modificar profundamente a percepção corporal, o senso de identidade e a relação com o ambiente, ela também pode ajudar os pesquisadores a investigar como essas experiências são construídas pelo cérebro.
A pergunta deixa de ser apenas:
“O que a cetamina faz?”
E passa a ser:
“O que a experiência com cetamina revela sobre aquilo que normalmente chamamos de eu?”
Entre o remédio e o mistério
A cetamina não é uma substância mágica.
Também não é simplesmente uma “droga de festa”.
É um anestésico dissociativo com uma farmacologia complexa, que se tornou uma importante ferramenta de investigação científica e, em formas e indicações específicas, uma opção terapêutica para determinados quadros depressivos.
Sua história mostra algo particularmente interessante sobre a ciência:
às vezes, uma substância criada para desligar parcialmente a consciência durante uma cirurgia acaba ajudando a compreender justamente como a consciência funciona.
E talvez essa seja a maior ironia da cetamina.
Para descobrir um pouco mais sobre a mente, a ciência precisou aprender como fazê-la se afastar temporariamente de si mesma.
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✍️ Editores do Factótum Cultural





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