Assisti novamente a Guardiões da Galáxia Vol. 2 e, em determinado momento, o Ego, pai do Peter Quill e sujeito que modestamente resolveu chamar a si mesmo de Ego, conta que não sabe de onde veio. Ele simplesmente se lembra de existir. E, a partir desse simples “eu existo”, começa a criar: manipula a matéria, constrói seu próprio planeta, dá origem a formas de vida e cria uma forma humana para experimentar o universo.

Não houve uma infância cósmica, uma mãe dizendo “vamos, filho, está na hora de levantar”, nem uma certidão de nascimento celestial. Ele simplesmente estava lá. Existia. E começou a olhar para o universo tentando descobrir o que fazer com aquilo.

Confesso que a cena me pegou de um jeito estranho. Afinal, não é exatamente assim que acontece conosco? Ninguém se lembra de ter pedido para nascer. Em algum momento, simplesmente acordamos para a existência e, quando percebemos, já estamos pagando contas, criando teorias sobre a vida e tentando descobrir por que o joelho dói quando fazemos agachamento no CrossFit. Ego, pelo menos, descobriu que era um Celestial. Nós recebemos um nome, um CPF e a recomendação para “aproveitar a vida”.

Mas foi aí que me veio o Demiurgo à cabeça.

A palavra é antiga e, antes de ganhar toda aquela aura mística, significava algo próximo de artesão, aquele que produz ou constrói. Platão usou o termo para falar do grande artesão do cosmos, aquele que organiza a matéria e dá forma ao universo. Depois, os gnósticos fizeram uma pequena reforma no personagem e transformaram o Demiurgo em uma criatura limitada (e imperfeita), que constrói o mundo e, pior, acredita ser o próprio Deus. Um sujeito com um problema de autoestima cósmica.

E talvez exista um pequeno Demiurgo dentro de cada um de nós.

Não criamos estrelas, planetas ou galáxias, evidentemente. Alguns de nós mal conseguem montar um móvel comprado pela internet. Mas passamos a vida criando mundos. Pegamos experiências, memórias, medos, desejos e acontecimentos aleatórios e organizamos tudo numa história que chamamos de “eu”. Dizemos “eu sou assim”, “eu sempre fui desse jeito”, “isso aconteceu comigo”, “eu acredito nisso”. Aos poucos, construímos uma identidade e passamos a morar dentro dela.

O curioso é que o Ego parece fazer justamente isso: transformar o caos da experiência em uma narrativa coerente. Ele precisa saber quem somos, onde terminamos e onde começa o resto do universo. Precisa organizar as coisas para que possamos atravessar o mundo sem enlouquecer a cada cinco minutos. O problema começa quando esquecemos que esse “eu” também é uma construção e passamos a tratá-lo como uma verdade eterna.

É aí que o pequeno Demiurgo começa a ficar perigoso. Ele deixa de dizer “esta é a minha visão” e começa a dizer “esta é a realidade”. Deixa de perceber que construiu um mapa e passa a acreditar que o mapa é o próprio território. Talvez seja por isso que discutir política, religião ou futebol às vezes pareça uma guerra entre deuses antigos. Cada pessoa está defendendo o seu pequeno universo particular como se o destino do cosmos dependesse daquela discussão no grupo da família.

Talvez o autoconhecimento comece justamente quando percebemos isso. Não quando finalmente descobrimos quem somos, mas quando começamos a perceber quantas coisas chamamos de “eu” sem nunca ter examinado direito de onde elas vieram. Nossas certezas, nossos medos, nossas histórias, nossas convicções e até a imagem que fazemos de nós mesmos estão em constante construção.

E então surge uma pergunta ainda mais estranha: se consigo observar meu próprio Ego, quem é que está observando? Se percebo meus pensamentos, sou apenas os meus pensamentos? Se consigo perceber minha personalidade mudando ao longo dos anos, onde está aquele “eu” permanente que imagino existir por trás de tudo?

Talvez não exista um pequeno homenzinho dentro da cabeça comandando a máquina. Talvez o “eu” seja um processo. Uma construção contínua. Uma espécie de narrativa que a consciência produz para conseguir navegar pelo absurdo de estar viva.

Ego queria descobrir de onde veio e qual era o sentido de sua existência. Nós fazemos exatamente a mesma coisa, embora com ferramentas um pouco menos impressionantes. Ele construiu um planeta. Nós construímos uma personalidade. Ele queria transformar o universo em extensão de si mesmo. Nós fazemos isso em escala doméstica, tentando convencer familiares, amigos e desconhecidos na internet de que o nosso jeito de enxergar as coisas é o jeito correto.

No fim, talvez sejamos todos pequenos Demiurgos tentando organizar um pouco de caos enquanto fingimos saber exatamente o que estamos fazendo.

A diferença é que Ego tinha um planeta.

Nós temos apenas um quarto bagunçado e um boleto para pagar.

Talvez seja melhor começar por aí.

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Neemias Moretti Prudente é escritor entre mundos.

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