Depois de On the Road, Jack Kerouac poderia simplesmente ter continuado escrevendo sobre estrada, sexo, jazz, álcool e a liberdade vertiginosa da Geração Beat.

Mas Os Vagabundos do Dharma, publicado em 1958, faz uma curva inesperada.

A estrada continua.

A bebida continua.

As festas continuam.

A poesia continua.

Mas agora aparece uma pergunta que muda tudo:

e se a liberdade não estiver em ir para qualquer lugar, mas em aprender a não precisar chegar a lugar nenhum?

É nesse ponto que Kerouac encontra o budismo, o Zen, a montanha, a meditação e, sobretudo, uma nova maneira de olhar para a própria existência.

O romance é semiautobiográfico. Ray Smith é o alter ego de Kerouac, enquanto Japhy Ryder é claramente inspirado no poeta Gary Snyder, figura fundamental para a aproximação de Kerouac com o budismo.

E é justamente essa amizade que coloca o livro em movimento.


Ray Smith: o vagabundo que procura alguma coisa

Ray Smith já aparece como alguém deslocado do mundo convencional.

Ele não quer a vida organizada.

Não quer necessariamente uma carreira.

Não quer seguir o roteiro social.

Viaja de trem, pega carona, dorme onde pode, atravessa cidades e passa por situações que misturam pobreza, aventura e liberdade. Logo no começo, ele aparece viajando clandestinamente em um trem e compartilhando comida com outro andarilho.

Mas existe uma diferença fundamental entre Ray e um simples aventureiro:

ele está procurando alguma coisa.

Só ainda não sabe exatamente o quê.

O “vagabundo” de Kerouac não é apenas aquele que não possui endereço.

É aquele que recusou transformar o endereço em destino existencial.


Então aparece Japhy Ryder

Japhy é o grande personagem do livro.

E também é a grande provocação de Kerouac.

Inspirado em Gary Snyder, Japhy representa uma possibilidade diferente de existência: alguém que consegue unir poesia, montanhismo, natureza, disciplina e budismo. Snyder foi realmente uma das principais influências na aproximação de Kerouac com o budismo durante os anos 1950.

Ray admira Japhy porque percebe nele algo que ainda não possui.

Enquanto Ray procura a iluminação através da experiência, Japhy parece encontrá-la na simplicidade.

Ele vive modestamente.

Caminha.

Escala montanhas.

Lê poesia oriental.

Medita.

Estuda Zen.

E conhece profundamente a natureza.

Japhy é quase o guru que Ray não sabe que estava procurando.


Mas eles não são monges

E aqui está uma das graças do livro.

Os “vagabundos do Dharma” não são exatamente santos.

Eles bebem.

Fazem sexo.

Fumam.

Fazem festas.

Recitam poesia.

Discutem filosofia.

Vão para a montanha.

Voltam para a cidade.

Bebem novamente.

A espiritualidade de Kerouac é absolutamente atravessada pela contradição.

E isso torna o romance interessante.

Porque ele não apresenta um personagem que já encontrou a iluminação.

Apresenta um homem tentando descobrir se é possível ser espiritual sem deixar de ser humano.


O que significa “Dharma”?

Aqui está uma chave para entender o título.

Dharma não significa simplesmente “religião”.

O conceito possui uma amplitude muito maior nas tradições indianas. Pode envolver ordem, lei, ensinamento, dever, realidade e o caminho que conduz à compreensão da existência, dependendo do contexto.

Kerouac transforma o termo em uma espécie de bandeira existencial.

Os vagabundos do Dharma são aqueles que procuram viver de acordo com uma verdade interior em vez de simplesmente obedecer às convenções sociais.

Por isso o livro é uma espécie de manifesto espiritual da contracultura.

Não é “abandone tudo e vá viajar”.

É mais profundo:

questione o modo de vida que lhe disseram ser obrigatório.


A montanha é o verdadeiro templo

Uma das grandes diferenças entre Os Vagabundos do Dharma e On the Road está no espaço.

Em On the Road, a estrada é movimento.

Aqui, a montanha se torna silêncio.

Ray e Japhy encontram na natureza algo que a cidade não consegue oferecer:

uma experiência de existência sem a necessidade permanente de explicação.

A floresta não pede currículo.

A montanha não pergunta quanto você ganha.

O céu não está interessado na sua reputação.

E é nesse contato com a natureza que o livro começa a adquirir uma dimensão quase religiosa.


O Zen de Kerouac

Mas existe uma questão importante.

Kerouac não apresenta o Zen de maneira acadêmica ou rigorosamente tradicional.

Ele o filtra através de sua própria sensibilidade ocidental, beat e profundamente inquieta.

Isso produz algo fascinante e problemático ao mesmo tempo.

Ele compreende intuitivamente algumas ideias fundamentais:

  • impermanência;
  • desapego;
  • presença;
  • vazio;
  • dissolução do ego;
  • simplicidade;
  • contemplação.

Mas também transforma o budismo em parte de sua própria busca existencial.

O resultado não é um manual de Zen.

É Kerouac tentando descobrir o que o Zen pode significar para um homem ocidental perdido em plena América dos anos 1950.


O famoso “Caminho dos Dez Touros”

Uma das passagens mais importantes do romance é a conversa de Japhy sobre as imagens tradicionais do boi, ou búfalo, utilizadas no Zen para representar a jornada espiritual.

O simbolismo é extraordinário.

O praticante procura o boi.

Encontra-o.

Aprende a conduzi-lo.

Depois percebe que precisa abandonar até mesmo a ideia de possuí-lo.

No final, retorna ao mundo.

Essa estrutura contém uma ideia essencial:

a iluminação não termina necessariamente na fuga do mundo.

Você sobe a montanha…

mas depois desce.

E volta para a cidade.

Volta para as pessoas.

Volta para a vida.

Isso é decisivo para compreender Kerouac.

O objetivo não é desaparecer do mundo.

É enxergá-lo de outra maneira.


A cidade e a montanha

O romance inteiro é atravessado por uma oposição.

De um lado:

San Francisco.

Jazz.

Álcool.

Sexo.

Poesia.

Amigos.

Festas.

Caos.

Do outro:

a montanha.

Silêncio.

Solidão.

Frio.

Trabalho.

Meditação.

Natureza.

Mas Kerouac não consegue escolher definitivamente nenhum dos dois.

E talvez seja justamente essa a questão.

Ele quer a montanha, mas também quer a cidade.

Quer o silêncio, mas também quer a festa.

Quer a disciplina espiritual, mas também quer o vinho.

Quer Deus, mas não consegue abandonar completamente seus demônios.

É por isso que o livro é muito mais interessante quando lido como um retrato da contradição espiritual de Kerouac do que como um manual de budismo. Essa tensão também aparece na recepção crítica do romance e nas próprias observações de Gary Snyder sobre a interpretação que Kerouac fazia do budismo.


O ponto mais bonito: a solidão

Existe uma parte do livro em que essa busca chega ao extremo.

Ray trabalha como vigia de incêndio em Desolation Peak, nas montanhas do estado de Washington.

Agora não existem festas.

Não existem amigos.

Não existe multidão.

Não existe ninguém para impressionar.

Só existe o homem e a montanha.

E aqui Kerouac finalmente encontra aquilo que vinha procurando desde o começo:

silêncio suficiente para ouvir a própria mente.

O romance termina justamente nessa transformação da experiência exterior em experiência interior. A passagem por Desolation Peak também se conecta ao livro posterior Desolation Angels.


Mas Kerouac não encontrou a iluminação

E essa talvez seja a parte mais importante.

Não devemos ler Os Vagabundos do Dharma como se Kerouac tivesse descoberto o Zen e se tornado um mestre espiritual.

Não aconteceu.

O próprio livro é cheio de contradições.

Kerouac estava procurando.

Japhy parecia saber mais.

Ray admirava Japhy.

Mas o próprio Kerouac continuaria enfrentando enormes conflitos pessoais.

E é justamente isso que dá força ao romance.

Ele não é a história de alguém que encontrou a resposta.

É a história de alguém que teve coragem de procurar.


A Geração Beat encontra o Oriente

Historicamente, o livro também é importantíssimo.

Kerouac ajudou a popularizar no imaginário americano uma associação que se tornaria fundamental para a contracultura dos anos 1960:

Beat + Zen + natureza + liberdade + crítica ao consumismo.

O romance teve influência significativa sobre a contracultura hippie posterior.

E aqui está uma ironia deliciosa:

Kerouac queria escapar da sociedade de consumo.

Décadas depois, a própria indústria cultural transformaria o “estilo de vida Beat” em produto.

A rebeldia virou camiseta.

A estrada virou pacote turístico.

O vagabundo virou estética.

E o Zen virou aplicativo de celular.

Talvez Kerouac tivesse dado uma gargalhada amarga diante disso.


O livro também envelheceu

É importante não transformar Kerouac em santo literário.

Há problemas reais na obra.

Sua visão do budismo é parcial e, em alguns momentos, bastante romantizada. Além disso, existem elementos de sexismo e outras limitações culturais que precisam ser reconhecidos quando lemos um autor situado nos anos 1950.

Isso não destrói o livro.

Mas impede uma leitura ingênua.

Kerouac não era um mestre zen.

Era um escritor brilhante, contraditório, inquieto e muitas vezes autodestrutivo tentando compreender o sentido da existência.

E talvez seja justamente por isso que ainda conseguimos acompanhá-lo.


Nossa leitura

Na Coluna Livros & Grimórios, Os Vagabundos do Dharma ocupa um lugar especial porque é praticamente um ponto de encontro entre vários mundos:

Kerouac encontra Buda.

A estrada encontra a montanha.

A literatura beat encontra o Zen.

A rebeldia encontra a contemplação.

E o livro conversa diretamente com obras que já passaram pela nossa coluna:

  • Paz a Cada Passo, de Thich Nhat Hanh;
  • O Segredo da Flor de Ouro;
  • O Desespero Humano, de Kierkegaard;
  • Tornar-se Pessoa, de Carl Rogers;
  • História das Origens da Consciência, de Erich Neumann.

Há uma pergunta comum atravessando todos eles:

Como deixar de viver no automático e começar realmente a existir?

Kerouac responde do seu jeito.

Pegue a estrada.

Suba a montanha.

Fique sozinho.

Leia.

Observe.

Ame.

Erre.

Beba.

Medite.

E, sobretudo, continue procurando.


Conclusão: o verdadeiro vagabundo

Talvez o título possa ser entendido de uma maneira ainda mais profunda.

O vagabundo do Dharma não é simplesmente aquele que não possui casa.

É aquele que percebe que nenhuma identidade fixa consegue ser sua casa definitiva.

Ele está sempre atravessando.

De um estado de consciência para outro.

Da cidade para a montanha.

Do bar para o silêncio.

Do ego para o vazio.

Do vazio novamente para o mundo.

E talvez a grande revelação do livro esteja naquela velha sabedoria zen:

depois de subir a montanha em busca da iluminação, você precisa voltar para casa e lavar a louça.

Porque a iluminação não está necessariamente no topo.

Está no modo como você pisa no chão quando desce.

Os Vagabundos do Dharma é, no fundo, um livro sobre isso:

a tentativa de transformar a própria vida em caminho espiritual.

Kerouac não encontrou uma resposta definitiva.

Mas encontrou uma pergunta melhor.

E talvez seja isso que faça de sua jornada uma das mais bonitas da literatura Beat.

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📚 Cada livro é um feitiço. Se abriu este, talvez queira decifrar também:

✍️ Editores do Factótum Cultural

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