Por Livros & Grimórios

Existem livros que tentam explicar por que sofremos.

E existem livros que fazem uma pergunta ainda mais radical:

E se o maior sofrimento não fosse a dor, mas o fato de não sabermos quem realmente somos?

Foi isso que Søren Kierkegaard escreveu em 1849, numa das obras mais profundas e inquietantes da filosofia existencial. O Desespero Humano não é um livro sobre tristeza, depressão ou pessimismo. É uma investigação sobre a doença mais silenciosa de todas: a perda de si mesmo.

Segundo Kierkegaard, o verdadeiro desespero não começa quando tudo dá errado.

Começa quando deixamos de viver a nossa própria existência.


O que é o desespero?

Logo nas primeiras páginas, Kierkegaard surpreende o leitor.

Para ele, desespero não é apenas sofrimento emocional.

É uma condição espiritual.

Alguém pode parecer feliz, produtivo e admirado por todos…

e, ainda assim, viver em profundo desespero.

Por quê?

Porque perdeu contato com o próprio ser.

A verdadeira doença não é a tristeza.

É viver distante daquilo que somos chamados a ser.


O ser humano como relação

Uma das ideias mais famosas do livro é a definição do ser humano.

Kierkegaard escreve que o homem é uma relação que se relaciona consigo mesma.

Parece complicado.

Mas a ideia é belíssima.

Somos feitos de tensões:

  • finito e infinito;
  • corpo e espírito;
  • liberdade e necessidade;
  • tempo e eternidade.

Viver é aprender a equilibrar essas dimensões.

Quando essa relação se rompe, nasce o desespero.


Os três rostos do desespero

Kierkegaard identifica diferentes formas de desespero.

1. O desespero de não saber que está desesperado

É o mais comum.

A pessoa vive automaticamente.

Trabalha.

Consome.

Cumpre expectativas.

Mas nunca se pergunta:

Quem sou eu?

É um desespero inconsciente.

Silencioso.

Talvez o mais perigoso.


2. O desespero de não querer ser quem se é

Aqui o indivíduo já percebe seu conflito.

Mas rejeita sua própria identidade.

Gostaria de ser outra pessoa.

Outra vida.

Outro destino.

Passa a existir em comparação permanente.

É uma forma de fuga.


3. O desespero de querer ser apenas por si mesmo

Este é o orgulho absoluto.

A pessoa tenta construir sua identidade sem reconhecer qualquer transcendência.

Quer bastar-se completamente.

Recusa qualquer dependência.

Segundo Kierkegaard, esse caminho também conduz ao desespero.

Porque o eu não consegue sustentar-se sozinho.


A doença para a morte

O subtítulo original da obra é profundamente simbólico.

Kierkegaard fala de uma doença.

Mas não da morte física.

É a morte do espírito.

Um ser humano pode permanecer biologicamente vivo…

e existir interiormente morto.

Sem autenticidade.

Sem verdade.

Sem relação consigo mesmo.

Essa morte invisível é muito mais grave que a biológica.


A saída: tornar-se si mesmo

Se o problema é perder o próprio eu…

qual é a cura?

Para Kierkegaard, não está no sucesso.

Nem na fama.

Nem na filosofia.

Nem mesmo na moralidade.

A saída consiste em aceitar integralmente quem se é diante de Deus.

Aqui aparece a dimensão cristã da obra.

O verdadeiro eu nasce quando reconhece sua dependência do Absoluto.

Não se trata de submissão servil.

Mas de reconciliação.

O ser humano encontra paz quando deixa de lutar contra sua própria existência.


Uma filosofia que antecipou a psicologia moderna

Embora escrito no século XIX, o livro impressiona pela atualidade.

Muito antes de Freud, Jung ou Rogers, Kierkegaard já descrevia:

  • alienação de si;
  • crise de identidade;
  • ansiedade existencial;
  • máscaras sociais;
  • autenticidade.

Seu vocabulário é religioso.

Mas suas perguntas continuam profundamente humanas.


Nossa leitura

Na Coluna Livros & Grimórios, O Desespero Humano ocupa um lugar especial.

É um livro que atravessa fronteiras.

Ele conversa diretamente com:

  • Carl Rogers (Tornar-se Pessoa);
  • Jung (História das Origens da Consciência);
  • Viktor Frankl (Em Busca de Sentido);
  • Brené Brown (A Coragem de Ser Imperfeito);
  • Byung-Chul Han (Sociedade do Cansaço).

Todos, cada um à sua maneira, fazem a mesma pergunta:

Como viver sem perder a própria alma?

Kierkegaard responde de forma radical:

tornando-se verdadeiramente quem você é.


Crítica honesta

Este não é um livro fácil.

Kierkegaard escreve em espirais.

Retorna constantemente às mesmas ideias, aprofundando-as pouco a pouco.

Para leitores acostumados a textos diretos, a leitura pode parecer lenta.

Mas existe uma razão para isso.

O autor não quer apenas informar.

Quer provocar uma transformação interior.

É um livro para ser lido devagar.

Talvez mais de uma vez.


Conclusão

O Desespero Humano permanece uma das obras mais importantes da filosofia existencial porque revela algo que raramente admitimos:

podemos conquistar o mundo inteiro…

e ainda assim perder a nós mesmos.

Kierkegaard nos lembra que a maior tragédia da existência não é morrer.

É viver uma vida inteira sem jamais encontrar o próprio eu.

Num tempo em que somos incentivados a construir imagens, personagens e versões idealizadas de nós mesmos, sua voz ecoa com força impressionante:

A maior coragem não é tornar-se famoso.
É tornar-se verdadeiro.

Talvez o oposto do desespero não seja a felicidade.

Talvez seja a autenticidade.

E essa continua sendo uma das jornadas mais difíceis que um ser humano pode empreender.

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📚 Cada livro é um feitiço. Se abriu este, talvez queira decifrar também:

✍️ Editores do Factótum Cultural

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