Tenho uma teoria que talvez explique a minha vida. Não resolve os boletos, mas explica.

Imagino que a existência seja um filme. O roteiro já foi escrito. O problema é que esqueceram de entregar uma cópia ao protagonista.

Acordo de manhã e descubro a programação da segunda em tempo real.

Cena 1: café sem açúcar porque o colesterol resolveu participar do elenco.

Cena 2: clientes e alunos pedem um close dramático.

Cena 3: o banco envia uma notificação com aquele entusiasmo de quem acha que boleto é declaração de amor.

Cena 4: o trabalho.

Cena 5: mais trabalho.

Cena 6: alguém pergunta se já pensei em investir.

Investir? Meu amigo, eu invisto diariamente na esperança.

Cena 7: meu filho, recém-habilitado, quer dirigir como se já tivesse quilômetros de estrada nas costas.

Passei boa parte da vida tentando dirigir o filme. Queria trocar atores, cortar cenas, mudar diálogos, eliminar personagens inconvenientes e, principalmente, reescrever alguns capítulos. Descobri que o universo tem um senso de humor peculiar: quanto mais eu tentava controlar tudo, mais a vida improvisava.

Foi então que pensei: e se o problema não for o roteiro, mas a minha mania de discutir com ele?

Talvez a sabedoria seja parar de brigar com cada curva da estrada. Não significa desistir. Significa dirigir sabendo que nem todo buraco foi colocado ali para me ofender pessoalmente.

Aliás, desconfio que Zeus, ou o Universo, ou seja lá quem administra essa produção cinematográfica, tenha uma equipe de roteiristas especializada em ironia.

“Vamos colocar clientes e alunos justamente no sujeito que já vive de explicar tudo.”

“Aprovado.”

“E na mesma semana mandamos o boleto do seguro.”

“Excelente.”

“Depois fazemos o filho querer pegar o carro achando que já é piloto profissional.”

“Cinema!”

Apesar das piadas, existe uma verdade séria escondida nisso tudo. A vida realmente foge do nosso controle muito mais do que gostaríamos de admitir. Pessoas adoecem. Outras partem cedo demais. Há injustiças que nenhuma filosofia consegue explicar. Há dores diante das quais qualquer resposta parece pequena.

Talvez o sentido não esteja em controlar o roteiro, mas em escolher como interpretamos o personagem que nos foi confiado.

Há quem faça do sofrimento uma prisão.

Há quem faça dele uma ponte.

Não escolhemos todas as cenas. Mas ainda podemos decidir se atravessaremos o filme amargos ou curiosos, fechados ou generosos, reclamando de cada frame ou procurando beleza até nos créditos finais.

Enquanto isso, sigo vivendo meu papel.

Com café.

Com boletos.

Com colesterol sob observação.

Com clientes e alunos que claramente estão disputando o Oscar de Melhor Participação Especial.

E com a estranha sensação de que, se este filme realmente tiver continuação, eu gostaria apenas de fazer um pedido ao roteirista:

“Na próxima temporada, menos reviravoltas e mais férias.”

Se não for pedir muito.

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor entre mundos.

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