Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Assisti ao novo filme de Spielberg, Dia D (2026), e saí do cinema com uma dúvida existencial.
Não sobre extraterrestres.
Sobre nós.
A humanidade parece viver uma curiosa crise de relacionamento consigo mesma.
Já tentamos quase tudo.
Religiões.
Ideologias.
Políticas.
Revoluções.
Tecnologias.
Redes sociais.
Coachs.
Aplicativos de meditação.
Inteligência artificial.
Dietas milagrosas.
E, aparentemente, agora estamos esperando uma ligação interplanetária.
Talvez seja por isso que os extraterrestres nunca saem de moda.
Mudam as roupas, mudam os governos, mudam as tecnologias, mas continuamos olhando para o céu como uma criança que espera alguém chegar para explicar o que está acontecendo nesse pandemônio.
Há quem espere uma invasão.
Há quem espere uma salvação.
Há quem espere uma revelação.
Há quem espere apenas uma boa foto que não tenha sido gravada por uma câmera com a resolução de uma torradeira.
O curioso é que essa história não começou com os discos voadores.
Muito antes dos ETs, olhávamos para o céu e víamos anjos.
Antes dos anjos, víamos deuses.
Antes dos deuses, víamos espíritos.
O céu sempre foi a tela onde projetamos nossos maiores mistérios.
O psiquiatra Carl Jung percebeu isso há décadas. Em seu livro Um Mito Moderno sobre Coisas Vistas no Céu, sugeriu algo provocador: talvez os discos voadores fossem menos importantes do que a necessidade que tínhamos deles.
Em outras palavras, talvez o fenômeno não estivesse apenas lá fora.
Talvez estivesse também aqui dentro.
E confesso que essa ideia me fascina.
Porque, de tempos em tempos, a humanidade parece cansar de suas próprias respostas.
As velhas narrativas perdem força.
Os velhos símbolos envelhecem.
As certezas começam a ranger.
Então surge algo novo no horizonte.
Um novo mito.
Uma nova esperança.
Uma nova linguagem para expressar antigas perguntas.
Talvez os extraterrestres sejam exatamente isso.
Não necessariamente visitantes de outro planeta.
Mas símbolos de uma mudança que ainda não sabemos nomear.
Uma espécie de anúncio cósmico de que a consciência humana está tentando atualizar seu sistema operacional.
Isso explicaria muita coisa.
Explicaria por que tantas pessoas falam sobre contato, despertar, novas dimensões e transformações globais.
Explicaria por que tantos parecem esperar que algo venha de fora para resolver aquilo que não conseguimos resolver por dentro.
Embora eu suspeite que os extraterrestres, caso existam, ficariam profundamente decepcionados ao descobrir que continuamos discutindo política e futebol na internet enquanto o planeta pega fogo.
Aliás, imagino a cena.
Depois de atravessar bilhões de quilômetros de espaço interestelar, uma civilização avançadíssima finalmente chega à Terra.
Eles observam nossa cultura.
Estudam nossa história.
Analisam nossas transmissões.
E concluem:
“Talvez seja melhor voltar daqui a uns duzentos anos.”
No fundo, porém, a questão permanece.
Talvez as pessoas estejam procurando respostas fora porque esqueceram que a jornada mais longa continua sendo para dentro.
E talvez seja justamente por isso que os extraterrestres nos fascinam tanto.
Porque representam a possibilidade de algo novo.
Algo maior.
Algo diferente.
Uma saída.
Uma revelação.
Uma atualização.
Mas quem sabe a próxima evolução da consciência humana não venha de uma nave espacial.
Quem sabe ela venha do momento em que finalmente nos lembrarmos de quem somos.
Se isso acontecer, os extraterrestres poderão descansar.
Afinal, a mensagem terá chegado ao destino.
📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor entre mundos.






Deixe um comentário