Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Vivemos uma época curiosa.
Nunca tivemos tantas formas de nos conectar e, ao mesmo tempo, tantas formas de nos esconder.
Todos os dias vestimos personagens. O profissional competente. O pai responsável. A mãe guerreira. O professor. O empresário. O estudante. O espiritualizado. O atleta. O intelectual. O forte. O bem-sucedido.
Nenhum desses papéis é necessariamente ruim.
O problema começa quando esquecemos que eles são apenas papéis.
A sociedade moderna nos convenceu de que precisamos ser muitas coisas ao mesmo tempo. Precisamos produzir mais, ganhar mais, aprender mais, mostrar mais, resolver mais e controlar mais.
Resultado?
Estamos cansados.
Não apenas fisicamente.
Cansados da obrigação constante de sustentar uma imagem.
Cansados de provar valor.
Cansados de atender expectativas.
Cansados de carregar personagens que, muitas vezes, já não representam quem somos.
É como um ator que permanece tanto tempo no palco que acaba esquecendo seu próprio nome.
O adoecimento das máscaras
Talvez uma parte importante da epidemia contemporânea de ansiedade, burnout, depressão e vazio existencial esteja relacionada a isso.
Muitos de nós fomos ensinados a desempenhar funções, mas não a compreender a nós mesmos.
Aprendemos a trabalhar.
Aprendemos a competir.
Aprendemos a sobreviver.
Mas poucos aprendem a sentar em silêncio e perguntar:
“Quem sou eu quando ninguém está olhando?”
A pergunta parece simples.
Mas ela assusta.
Porque exige que retiremos, ainda que por alguns instantes, todas as identificações que acumulamos ao longo da vida.
Sem cargo.
Sem profissão.
Sem títulos.
Sem curtidas.
Sem aplausos.
Sem máscaras.
O rio não tenta controlar o mar
Existe uma sabedoria antiga escondida na natureza.
Um rio não luta para ser rio.
Não cria metas para impressionar outros rios.
Não entra em competição para descobrir qual deles chegará primeiro ao oceano.
Ele apenas segue seu curso.
Contorna pedras.
Atravessa tempestades.
Recebe afluentes.
Perde água.
Ganha água.
E continua fluindo.
Nós, por outro lado, frequentemente tentamos controlar cada detalhe da existência.
Queremos prever o futuro.
Resolver todos os problemas.
Ajudar todo mundo.
Evitar qualquer erro.
Garantir que nada saia do planejado.
E é justamente nessa tentativa permanente de controle que muitas vezes nos afastamos da própria vida.
A vida acontece no fluxo.
A ansiedade vive na tentativa de dominá-lo.
O mundo como espelho
Talvez por isso tantas pessoas estejam sentindo um profundo chamado ao recolhimento.
Não ao isolamento.
Mas ao reencontro.
Desligar um pouco os ruídos.
Ficar sozinho.
Observar os próprios pensamentos.
Olhar para as dores que foram empurradas para debaixo do tapete durante anos.
Enfrentar os próprios fantasmas.
Não para alimentar sofrimento.
Mas para curá-lo.
Aquilo que evitamos costuma nos perseguir.
Aquilo que observamos começa a perder poder.
O mundo externo frequentemente revela aquilo que ainda não resolvemos internamente.
As guerras.
Os conflitos.
As máscaras.
As projeções.
As cobranças.
Tudo isso também habita, em maior ou menor grau, dentro de nós.
Menos personagem, mais presença
Autoconhecimento não é construir uma versão perfeita de si mesmo.
Talvez seja exatamente o contrário.
É abandonar gradualmente aquilo que nunca fomos.
É perceber que existe uma diferença entre desempenhar um papel e se tornar prisioneiro dele.
Você pode ser advogado sem ser apenas advogado.
Pode ser professor sem ser apenas professor.
Pode ser pai sem deixar de ser pessoa.
Pode ser espiritual sem precisar parecer espiritual.
Pode ser forte sem precisar carregar o mundo inteiro sozinho.
A consciência não precisa controlar tudo.
Ela pode apenas observar.
E, às vezes, isso já é suficiente.
Um recado para o Junho da Saúde Mental Masculina
Junho é um mês dedicado à conscientização sobre a saúde mental masculina.
Embora essa reflexão sirva para qualquer ser humano, existe algo que merece ser dito especialmente aos homens.
Durante gerações, muitos foram ensinados a esconder emoções, suportar dores em silêncio e carregar responsabilidades sem demonstrar fragilidade.
O resultado é que inúmeros homens estão exaustos, ansiosos, deprimidos ou perdidos, enquanto continuam fingindo que está tudo bem.
Nem sempre é preciso ser forte.
Nem sempre é preciso resolver tudo.
Nem sempre é preciso sustentar a máscara.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza.
Cuidar da própria mente não é egoísmo.
Reconhecer os próprios limites não é derrota.
Às vezes, o ato mais corajoso não é enfrentar o mundo.
É sentar em silêncio diante de si mesmo e finalmente retirar a armadura.
Porque por trás de todas as máscaras existe alguém que merece cuidado também.
E esse alguém é você.
📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor.





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