Os Contos que te Conto

Leitura Literária de Eclesiastes

Uma prosa por semana para quem ainda gosta de uma boa história

Há histórias que acontecem na vida. Outras acontecem numa mesa de bar. Algumas, não sabemos bem onde começam.

É desse lugar – entre a memória, a imaginação, a literatura e os pequenos absurdos da vida cotidiana – que nasce Os contos que te conto.

Não espere grandes lições. Talvez elas apareçam sem serem convidadas.

A proposta é simples: contar uma história e deixar que você descubra o que fazer com ela.

Afinal, como toda boa conversa de boteco, um conto também pode começar falando de outra coisa e, quando percebemos, já estamos falando da vida.

Seja bem-vindo. Puxe uma cadeira.

Conto III

A PALAVRA QUE FICOU

Não foi uma noite fácil.

Depois de deixar o boteco de Deosdete, com alguns goles de cerveja e ainda atormentado pelas vozes de Qohelet, pus-me a pensar em suas memórias. Ele não havia negado nada do que seus olhos haviam tocado.

Quão grandes haviam sido as experiências do mestre de Eclesiastes!

Talvez eu também pudesse experimentar um pouco daquela boemia.

Decidi, então, que na noite seguinte, já que a natureza não se cansa de repetir-se, eu me embriagaria e aproveitaria o presente como presente.

Não seria uma noite de busca. Por uma noite, deixaria as perguntas do lado de fora.

Beber, rir, esquecer por algumas horas o peso das perguntas e deixar que o malte fizesse o resto.

Não poderia ser no Bar de Deosdete. Aquele lugar havia me decepcionado com seus personagens satíricos, e o dono já começava a fazer pouco caso das minhas divagações. Fui ao Bar do Jorge, um pouco mais simples, mas propício às minhas vadiagens líricas.

Ah, meus amigos que me acompanham nestes contos: não foi uma noite triste.

Pelo contrário. Foi agitada, como deve ser toda vigília de balcão.

A cerveja devolvia algum vigor aos corpos cansados e consolava as carcaças ébrias. Por algumas horas, a vida parecia ganhar tonalidades mais leves.

Naquele ambiente, os trabalhadores pareciam deixar, por algumas horas, o peso de suas vidas e tornar-se simplesmente pessoas.

Pelas tantas, sitiado de muitos de mim – homens e mulheres que pareciam agarrar-se ao momento e deixar do lado de fora aquilo que os esperava, abracei o guardião do malte e gritei mais alto do que a vitrola:

— Havel havalim, hakol havel!

Certamente, os apóstolos do malte nada entendiam daquela minha prosopopeia.

Mas, como acontece em todo bom boteco, ninguém se preocupou em entender. Alguém repetiu o verso. Outro acompanhou. E logo havia um coro:

— Havel havalim, hakol havel!

Em pouco tempo, a expressão já era o canto de todos. Ninguém sabia exatamente o que dizia, mas todos pareciam perceber que aquela noite, de algum modo, cabia naquelas palavras.

A madrugada avançava e, pouco a pouco, a euforia se desfazia. Eu já sentia o peso da noite. A cada gole, procurava uma força que já não vinha.

No fim, restavam o garçom e Jorge, o dono do bar, recolhendo as últimas coisas e conversando em voz baixa.

Foi então que o garçom, ainda matutando sobre a nossa gritaria, perguntou:

— Mas o que quer dizer esse negócio que nos atormentou a noite inteira? Havel havalim, hakol havel.

Eles riam, talvez esperando alguma explicação, talvez apenas procurando uma maneira delicada de me dizer que já era hora de ir embora.

Quem conhece boteco sabe: quando desligam o som, é porque o bar já começou a baixar as portas.

Não me fiz de arrogante. Paguei a conta.

O garçom parecia curioso. Puxei conversa. Antes, porém, pedi uma água. O mundo já rodava dentro da minha cabeça.

Com a bênção de Jorge, contei-lhes da minha busca por Qohelet e da noite que eu havia decidido viver.

Foi então que percebi um senhor sentado no canto do balcão. Não o havia visto chegar.

Tomava sua cerveja em silêncio e ouvia nossa conversa – ou aquilo que, naquela altura, devia parecer mais um lamento de bêbado do que uma prosa filosófica.

Ele riu.

— Entendeu errado.

Olhei para ele.

— O quê?

— Havel.

Ele fez uma pausa.

— Você chama de vaidade. Talvez seja por isso que não entendeu.

Fiquei em silêncio.

— Havel é vapor. É sopro. É aquilo que passa e não se deixa segurar.

Aquela frase me atingiu mais do que deveria. Talvez fosse o álcool. Talvez fosse o modo como aquele homem falava. Pedi mais água e dei-lhe os ouvidos.

Enquanto ele falava, pensei: seria ele Qohelet?

Não arrisquei perguntar.

Com a cabeça confusa pelo álcool, suas palavras se dissolviam antes que eu conseguisse alcançá-las.

Mas uma palavra ficou.

Havel.

Vapor. Sopro. Névoa. Aquilo que passa antes que a mão consiga fechá-la.

Talvez fosse também isso o presente: alguma coisa que chega, toca a gente e vai embora.

Não vou me alongar. Volto com essa história no próximo conto.

A noite havia sido gloriosa. E, ainda assim, uma decepção.

Eu havia procurado Qohelet na experiência. No fim, deixei sua voz para trás, conversando com o garçom, enquanto tomava o rumo de casa, porque minhas pernas já não sustentavam meu corpo.

Do Jorge recebi os agradecimentos pela visita. Do garçom, um abraço. Do velho, apenas um conselho:

— Lembra-te de que há um tempo determinado para tudo debaixo do sol.

📝 Não deixe de ler nosso artigo anterior:

Charles Santiago é professor, filósofo, colunista do Factótum Cultural e líder do Grupo de Pesquisa Poética do Sagrado.

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