Crônica filosófica com humor sobre não-dualidade, ego, livre-arbítrio, espiritualidade, sofrimento, ayahuasca e a estranha suspeita de que talvez ninguém esteja dirigindo o carro da existência.

1. O Problema de Encontrar Tony Parsons

Existem autores que entram na sua vida como professores.

Outros entram como terapeutas.

E existem aqueles que entram como um ladrão metafísico.

Você começa lendo o sujeito pensando:

“Interessante. Vou aprender algo.”

Cinco páginas depois:

  • você não sabe mais se existe;
  • desconfia do livre-arbítrio;
  • olha para o café como se ele estivesse se bebendo sozinho;
  • e começa a suspeitar que o universo inteiro talvez esteja funcionando sem gerente.

Foi assim que conheci Tony Parsons, professor espiritual não-dual.

Um inglês aparentemente tranquilo, que fala como quem está explicando o clima em Londres, mas na verdade está silenciosamente implodindo toda a estrutura psicológica do ser humano.

Enquanto muita gente na espiritualidade promete:

  • prosperidade;
  • vibração elevada;
  • manifestação;
  • alinhamento cósmico;
  • abundância financeira;
  • e uma BMW astral em 12 parcelas kármicas;

Tony aparece calmamente e diz:

“Não existe ninguém para manifestar nada.”

E vai embora.

Sem música relaxante.
Sem mantra.
Sem cupom de desconto espiritual.


2. O Ego: Esse Estagiário Dramático da Existência

O primeiro soco filosófico de Tony é simples:

o “eu” separado é uma ilusão.

Claro que quando li isso pela primeira vez pensei:

“Lá vem mais um espiritualista querendo dizer que eu sou o universo.”

Mas não.

Tony vai além.

Ele não diz:

“você é Deus.”

Ele diz:

“esse personagem que você acredita ser talvez nunca tenha existido da forma como imagina.”

Aí a mente entra em greve.

Porque o ego é um excelente contador de histórias.

Ele acorda cedo e começa:

  • minha vida;
  • meu trauma;
  • minha carreira;
  • meu propósito;
  • meu sofrimento;
  • minha evolução espiritual;
  • meu despertar;
  • meu signo;
  • meu ascendente;
  • minha jornada.

O ego é basicamente um roteirista da Netflix vivendo dentro do cérebro.

E Tony chega com um apagador metafísico dizendo:

“Cadê exatamente esse ‘eu’?”

A pergunta parece simples.

Mas quando você olha profundamente…

você encontra:

  • pensamentos;
  • memórias;
  • emoções;
  • sensações;
  • histórias;
  • medo;
  • desejo;

mas não encontra um “comandante central” sentado numa cadeira dourada dentro da mente.

E isso é perturbador.

Ou libertador.

Depende do dia.


3. Livre-Arbítrio: O Maior Departamento de Marketing da Humanidade

Esse ponto quase me fez olhar para minhas próprias decisões como quem revisita cenas suspeitas de um crime filosófico.

Segundo Tony:

não existe livre-arbítrio individual.

A primeira reação humana é:

“Claro que existe. Eu escolhi ler esse artigo.”

Mas será?

Vamos investigar o suspeito.

Você escolheu:

  • sua genética?
  • sua infância?
  • seus traumas?
  • sua química cerebral?
  • seus desejos?
  • o pensamento que surgiu há cinco segundos?

Não.

Os pensamentos simplesmente aparecem.

As emoções aparecem.

Os impulsos aparecem.

Depois a mente veste terno, pega uma prancheta e diz:

“Boa tarde. Fui eu que fiz tudo isso.”

O ego é tipo assessor de imprensa da existência.

Chega atrasado no acontecimento e reivindica autoria.

E honestamente?

Isso começou a fazer muito sentido para mim.

Principalmente depois das minhas experiências com ayahuasca.

Porque uma das coisas mais estranhas que percebi foi justamente isso:

os pensamentos pareciam surgir sozinhos.

As emoções vinham.

As imagens apareciam.

A consciência observava.

E em alguns momentos o “eu” parecia apenas uma legenda tentando explicar o inexplicável.

Como um narrador esportivo narrando replay de um jogo que já aconteceu.


4. A Busca Espiritual: O Ego de Roupão Branco

Esse talvez seja o ensinamento mais engraçado e cruel de Tony.

Segundo ele:

a busca espiritual é a própria prisão.

Porque o ego adora sobreviver.

Quando ele percebe que não consegue mais ser o rei do mundo material…

vira mestre espiritual.

O sujeito abandona:

  • o Rolex;
  • o camarote;
  • a ostentação;

para começar:

  • a postar frase de Buda;
  • falar “gratidão” em excesso;
  • vender curso quântico;
  • usar roupa bege;
  • e explicar que Mercúrio retrógrado afetou o boleto da internet.

O ego não morre.

Ele troca de fantasia.

Tony percebeu isso.

Por isso ele praticamente explode toda a indústria espiritual.

Segundo ele:

  • não existe caminho;
  • não existe evolução espiritual;
  • não existe alguém separado para despertar.

E isso é brilhante.

Porque percebi algo parecido em mim mesmo.

Durante anos achei que estava “buscando Deus”.

Depois comecei a suspeitar que talvez eu estivesse buscando uma versão mais confortável de mim mesmo.

O que é bem diferente.


5. Psicodélicos, Unidade e o Silêncio Entre as Coisas

Preciso admitir:

muita coisa que Tony fala conversa profundamente com experiências que tive em rituais.

Especialmente a sensação de dissolução da separação.

Em certos momentos parecia impossível dizer:

  • onde eu terminava;
  • onde o mundo começava;
  • quem observava;
  • quem sonhava;
  • quem sofria.

Existia apenas… presença.

Uma presença impossível de explicar.

Sem nome.

Sem fronteira.

Sem identidade fixa.

E curiosamente:

quanto menos “eu” existia…

menos sofrimento psicológico havia.

A dor ainda existia.

As memórias ainda existiam.

Mas a sensação de um “eu central esmagado pelo universo” diminuía absurdamente.

Foi aí que comecei a entender por que Tony insiste tanto na ideia de separação.

Talvez grande parte do sofrimento humano nasça justamente da crença:

“eu estou sozinho aqui dentro tentando controlar tudo.”


6. O Universo Precisa Mesmo de um Gerente?

Outra coisa fascinante em Tony:

ele desmonta a ideia de um controlador cósmico.

Nada de:

  • um Deus sentado em nuvens;
  • um diretor universal;
  • um gerente astral fiscalizando chakras.

Segundo ele:

ninguém está dirigindo.

Confesso que isso me assustou no começo.

Porque a mente humana gosta de imaginar que existe:

  • plano;
  • propósito;
  • direção;
  • roteiro;
  • GPS espiritual.

Mas então comecei a observar algo curioso.

O corpo funciona sem “eu”.

O coração bate.

A respiração acontece.

As células trabalham.

O universo inteiro opera em padrões absurdamente complexos sem um narrador humano supervisionando tudo.

Talvez a vida seja mais parecida com um oceano do que com uma empresa.

E nós talvez sejamos ondas temporárias acreditando que possuem crachá corporativo.


7. Sofrimento: O Departamento de Resistência do Ego

Tony faz uma distinção importante:

  • dor existe;
  • sofrimento psicológico nasce da resistência.

Isso explodiu minha cabeça.

Porque percebi quantas vezes eu sofria não pelo acontecimento…

mas pela narrativa sobre o acontecimento.

Não era apenas:

  • ansiedade;
  • tristeza;
  • medo;

mas:

“isso não deveria estar acontecendo comigo.”

O ego odeia perder controle.

Ele quer:

  • garantia;
  • estabilidade;
  • previsão;
  • segurança;
  • permanência.

E a vida responde:

“não trabalho com isso.”

Tony não promete felicidade eterna.

Isso é importante.

Ele não vende:

  • iluminação instagramável;
  • paz contínua;
  • sorriso budista 24 horas.

A vida continua sendo:

  • linda;
  • brutal;
  • caótica;
  • misteriosa.

Mas talvez sem o peso constante de um “eu” tentando controlar o oceano com uma colher.


8. O Problema de Querer Entender Tudo

A mente humana quer respostas.

Ela quer sentar diante do universo e perguntar:

  • quem criou tudo?
  • qual o sentido da vida?
  • o que acontece depois da morte?
  • existe alma?
  • existe Deus?

Tony responde praticamente todas assim:

“a pergunta já nasce da ilusão de separação.”

Isso irrita muita gente.

E honestamente?

Com razão.

Porque parte de nós quer conforto metafísico.

Quer um manual do universo.

Mas talvez exista algo profundamente libertador em admitir:

talvez a existência não seja um problema para ser resolvido.

Talvez seja apenas um mistério sendo vivido.


9. A Morte e o Desaparecimento do Personagem

Segundo Tony:

ninguém nasce como entidade separada;
portanto ninguém morre como entidade separada.

Isso não significa:

  • memória eterna individual;
  • céu personalizado;
  • pós-graduação espiritual após o funeral.

Mas aponta para algo estranho:

a onda desaparece.

A água permanece.

E isso conversa profundamente com algo que senti algumas vezes em experiências espirituais:

uma sensação de que existe algo anterior ao personagem.

Não “eu” como identidade.

Mas uma presença.

Um silêncio vivo.

Algo impossível de capturar com palavras.


10. Minha Divergência com Tony

E aqui talvez esteja a parte mais importante.

Concordo profundamente com muita coisa dele.

Especialmente:

  • a ilusão do ego;
  • a ausência de controle absoluto;
  • o sofrimento criado pela resistência;
  • a busca espiritual como armadilha;
  • a sensação de unidade.

Mas ainda sinto algo que Tony parece evitar:

uma inteligência silenciosa na existência.

Não necessariamente um “Deus humano”.

Mas algo.

Uma espécie de consciência profunda.

Uma presença viva.

Uma inteligência impossível de definir.

Talvez porque minhas experiências foram menos filosóficas e mais místicas.

Tony desmonta até o “EU absoluto”.

Eu ainda suspeito que exista algo ali.

Mesmo que impossível de nomear.


11. O Dia em que Parei de Tentar Controlar o Universo

Talvez o maior presente de Tony Parsons seja este:

a suspeita de que o peso da existência não precisa ser carregado por um personagem psicológico o tempo inteiro.

Isso não resolve:

  • boletos;
  • dores;
  • traumas;
  • processos judiciais;
  • crises existenciais às três da manhã.

Mas algo muda.

A contração diminui.

A obsessão pelo controle enfraquece.

E às vezes sobra apenas isto:

  • respirar;
  • ouvir;
  • existir;
  • observar o café soltando vapor;
  • perceber o vento passando;
  • viver sem precisar transformar cada segundo num projeto de autoaperfeiçoamento.

Talvez o “segredo aberto” seja justamente esse.

A vida já estava acontecendo inteira antes da mente começar a procurar saída.

E talvez o ego seja apenas um narrador cansado tentando convencer o universo de que ele é o protagonista principal…

quando na verdade é apenas mais uma onda temporária dançando dentro do oceano.

E sinceramente?

Isso pode ser assustador.

Ou absurdamente libertador.

Dependendo do quanto você ainda precisa segurar o volante da existência.

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

Neemias Moretti Prudente é escritor.

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