O que uma cerimônia me revelou sobre professores, gurus, xamãs, terapeutas, psi’s e a ilusão humana de transformar o outro

Durante uma cerimônia xamânica, ouvi um indígena falando sobre cura.

Ele falava sobre o que fazia todos os dias para não adoecer por dentro. Sobre vigiar os próprios pensamentos. Sobre escolhas, hábitos, alimentação, rezos, consciência. Dava conselhos. Orientava as pessoas ao redor. Explicava caminhos.

Mas, em determinado momento da experiência, algo mudou dentro de mim.

Percebi que, embora ele falasse para todos, falava principalmente para si mesmo.

Cada conselho parecia uma lembrança pessoal. Cada ensinamento tinha o peso de alguém tentando permanecer acordado diante da própria escuridão. E aquilo me atingiu de forma brutal, porque entendi que talvez todo professor faça exatamente isso.

Quando ensinamos, falamos mais para nós mesmos do que para os outros.

O outro escuta apenas o que consegue escutar. Interpreta conforme suas dores, suas crenças, suas experiências. Às vezes concorda. Às vezes rejeita. Às vezes entende tudo errado. Às vezes uma frase aparentemente banal ecoa anos depois. Não temos controle.

Naquela noite, a ayahuasca me mostrou algo ainda mais desconfortável: nenhuma cura profunda pode ser entregue de fora para dentro.

Ela não me entregou respostas prontas. Não abriu portas mágicas. Não “destravou cadeados”. Pelo contrário. Ela me colocou diante dos muros que eu mesmo construí durante a vida inteira. Medos. Narrativas. Culpa. Autoimagem. Personagens. Percebi que boa parte daquilo que eu chamava de prisão tinha sido construída por mim mesmo.

E se fui eu quem construiu, ninguém poderia derrubar por mim.

Dias depois, conversei com uma pessoa que trabalha com “desbloqueios”. Ela falava sobre destravar pessoas, abrir caminhos, romper cadeados emocionais. Em determinado momento, compartilhei internamente minha visão: talvez não existam cadeados reais. Talvez cada pessoa construa suas próprias portas mentais e, quando desperta, seja ela mesma quem comece a desmontá-las.

Ela me chamou de bobo.

E eu ri.

Não porque me senti superior. Mas porque entendi que ela também estava falando mais dela do que dos outros. Talvez precisasse acreditar nos cadeados para continuar sustentando sua própria narrativa de salvadora. E tudo bem. Cada consciência cria as metáforas que consegue suportar.

O curioso é que aquilo continuou ecoando nos dias seguintes.

Lembrei de mim em sala de aula, falando sobre criminologia com paixão, tentando provocar reflexões e imaginando que estava produzindo transformação concreta nas pessoas. E então veio outra percepção desconfortável: talvez o impacto real do professor seja menor do que ele imagina. Muitas vezes, estamos “exgugando gelo”. O impacto é mínimo na vida dos alunos, porque cada pessoa aprende e desperta no próprio tempo, através das próprias experiências, dores, encontros, percepções e descobertas.

O professor apenas atravessa a vida do outro por alguns instantes, funcionando mais como um facilitador da consciência do que como alguém capaz de transformar outra pessoa.

E talvez a arrogância do educador esteja justamente em acreditar que é o responsável pela transformação interna do outro.

A psicanálise já compreendia isso há muito tempo. Sigmund Freud percebeu que o analista não cura o paciente. Quem reorganiza a própria narrativa é o próprio sujeito. O terapeuta sustenta o espaço. Escuta. Interpreta. Mas ninguém atravessa o inconsciente do outro com uma lanterna na mão.

A ayahuasca me parece fazer algo parecido.

Ela não cura porque possui poderes mágicos escondidos numa dimensão mística da floresta. Ela cura porque faz você olhar para si mesmo sem conseguir fugir. Faz você perceber os mecanismos internos que moldam sua vida. Mostra o quanto somos governados por conteúdos inconscientes, automatismos, medos, traumas e personagens que criamos para sobreviver.

Ela não coloca nada dentro.

Ela revela o que já estava lá.

E talvez seja justamente isso que tenha mudado minha forma de enxergar a educação, a escrita, a advocacia e até a vida.

Hoje penso que o verdadeiro professor não é aquele que acredita possuir a missão de salvar, despertar ou curar pessoas. Quando gurus, xamãs, terapeutas, mestres espirituais, psi’s (psicólogos, psicanalistas, psiquiatras) ou até professores passam a se enxergar como responsáveis pela transformação do outro — especialmente quando isso também se mistura com status, mercado e lucro — existe o risco de produzirem dependência, seguidores e idolatria.

Isso não significa que seu trabalho não tenha valor. Muitas dessas figuras funcionam como facilitadores, espelhos ou catalisadores importantes em determinadas fases da vida. O problema começa quando a jornada interior do outro passa a ser tratada como produto, fórmula ou promessa de iluminação.

Talvez o verdadeiro professor seja apenas alguém que testemunha a própria jornada com honestidade suficiente para provocar perguntas, reflexões e movimentos internos na consciência do outro.

Sem promessas.

Sem messianismo.

Sem a fantasia narcísica de ser o responsável pelo despertar alheio.

Porque talvez ninguém desperte ninguém.

No máximo, uma consciência toca a outra por alguns segundos no escuro, trazendo um pouco de luz até que cada um aprenda a encontrar a própria.

E talvez essa seja, no fim, a verdadeira função do professor.

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Neemias Moretti Prudente, Escritor.

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