por Álefe Nícolas dos Santos Carvalho

Que sejamos Anti-Paranistas. Porque o Paraná dos paranistas não é o Paraná que
eu viajo, nem o Paraná que me viaja. A Boca Maldita, com as futricas dos intelectuais, que
são invariavelmente homens brancos, cishet, velhos, não é o lugar aonde vou para falar de
política. A Curitiba que eu viajo não é a da suposta “cidade europeia” que tantos paranistas
falaram. A Curitiba que eu viajo é uma cidade brasileiríssima, onde as contradições do
etnocentrismo fazem-se evidentes para qualquer um que abrir os olhos e enxergar.

Temos que valorizar o Paraná sim. Temos que celebrar o pinhão, a araucária, a
gralha-azul. Por que não o faríamos? São alguns dos símbolos que unem o nosso povo. O
Paraná não é melhor que qualquer outro estado, província ou unidade federativa de
qualquer país por aí. Mas é de onde eu vim. Onde nasci, cresci e amadureci. É natural,
portanto, que eu tenha um carinho tão imenso pelos símbolos de minha terra. É especial
para mim, e não canso de dizer o quanto amo o Paraná na medida em que o Paraná é parte
de mim.

Dito isso, é preciso ser Anti-Paranista. Porque o Paranismo não representa uma
valorização do Paraná. Ele é a construção etnocêntrica, racista, elitista que uma elite
intelectual concebeu para tentar conceder ao Paraná um status de pedacinho de Europa. E
se engana quem pensa que o Paranismo é coisa de livro de história — é gritante a
influência desse movimento no comportamento de políticos e da elite local. Claro que
qualquer enaltecimento de um símbolo regional é uma mera construção, mas tendo em
vista que esse tipo de construção sempre existiu e sempre existirá pela vontade natural de
um povo que habita o mesmo espaço geográfico de reconhecer-se em símbolos culturais
comuns, não é necessário um esforço para criar uma imagem mais verdadeira do Paraná?

O Paraná que amo não é o Paraná desses sepulcros caiados paranistas, como diria
meu vampiro favorito. É o Paraná que foi construído com o sangue e o suor de muitos
imigrantes, mas também de muitos escravizados. Aliás, não é o Paraná dos lindos
imigrantes loiros de olhos azuis que vieram civilizar o Novo Mundo com seus jeitos
europeus. É o Paraná do imigrante pobre, fudido, que precisou sair do próprio país para
tentar sobreviver em qualquer outro lugar. Meu Paraná é o Paraná que existe desde muito
tempo antes da colonização, é o Paraná dos povos originários que habitam essa terra há
sabe-se-lá quanto tempo. É o Paraná dos sertanejos que lutaram na Guerra do Contestado
contra uma ferrovia que representava o domínio estadunidense sobre uma terra
paranaense. Não é o Paraná do General Carneiro, é o Paraná do Monge João Maria. Não é
o Paraná do Jardim Botânico, que sim, é lindo, mas é pra-inglês-ver. É o Paraná da Trajano,
do Largo — dos cantinhos do Parque do Monge, na Lapa, onde a juventude bebe
escondido. Não é o Paraná do Ratinho ou do Greca, é o Paraná do Renato Freitas e da
Carol Dartora. Dos contos de Dalton Trevisan e suas pensões na beira do Rio Belém, dos
beijos da Gilda. Dos trabalhadores que percorrem a XV e me relatam passar o dia inteiro de
pé no sol, sem descanso, entregando panfleto.

Esse é o Paraná que louvo, enalteço, que choro e amaldiçoo. Essa é a imagem de
Paraná que quero construir. Uma imagem plural, em que os protagonistas são todos
aqueles que foram marginalizados pelos Paranistas. Os pobres, os pretos, as mulheres, os
lgbtqia+. Todo mundo que esses malditos higienistas gostariam de deixar de fora da história
do Paraná, mas que são, no fim das contas, as figuras mais importantes, pois carregam um
relato de resistência em nossa tão amada — e por vezes, odiada — República de Curitiba.

Álefe Nícolas dos Santos de Carvalho, Estudante de Jornalismo e escritor jornalístico.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Uma resposta a “Manifesto Anti-Paranista”

  1. Dalton Trevisan tá no mesmo nível do grande escritor daqui das Minas Geras: João Guimarães Rosa.

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