Por Charles Santiago

Numa noite de sexta, já desatado das atividades labutais, em casa, do sofá do quarto, espalhei os olhos sobre a mesa de estudo e, na bagunça que lhe é peculiar, bem ao canto, despontou o texto, filosofia de boteco.  Decerto que não se trata de um opúsculo sério, mas não deixa de ser uma reflexão sobre a pobre verve humana. 

Ao vê-lo, embaralhado entre outros livros, por um bom momento, auspiciei uma explosão de sentimentos e de memórias: na verdade, uma agitação paradoxal. Nesse instante, originado pelas memórias, mesmo cansado da rotinização cotidiana, como numa epifania, Fernando Pessoa movia minha carcaça humana: “não escrevo em português. Escrevo eu mesmo”. 

Ali, com os versos do poeta, lembrando-me do trovador do nordeste, Belchior, “De lágrimas nos olhos de ler o Pessoa e de ver o verde da cana”, tomei nas mãos uma cerveja,  avexado, duvidava do eu ficcional, condicionante da obra filosofia de boteco. Abrasado, só pensava na escrita como grafia de vida vivida, como nas vocábulos do filósofo Ortega, “vida biográfica”, ou de Fernando Pessoa, “escrevo eu mesmo”. 

Na tentativa de resolver a querela, com doses etílicas, a aguardente que nunca sacia, fiz girar a vitrola, rodando um disco, Mercedes Sosa, com sua voz pujante, cantarolava “razão de viver”, harmonizando o meu drama dilemático. Ao som dessa mulher intensa, com o espírito aturdido e com algumas cervejas na cachola, um devaneio movimentava os meus pensamentos: cogitava uma redenção, a reconciliação entre o desejo ficcionado e o vivido, quer dizer, grafar experiências e narrar veleidades. 

Certamente, com a burocracia do trabalho cotidiano, a vida como tem sido, na melhor das hipóteses, o projeto certamente tardaria. Todavia, somente naquela noite, permiti-me o direito ao delírio, pensar sobre esse intricado conflito: memória e ficção como rabisco literário para a publicação na revista Factótum Cultural, projeto audacioso de Neemias Prudente, impoluto amigo de filosofia e de gandaias.

 É sabido que, para Belchior, “viver é melhor que sonhar”, mas de que existência se refere o poeta? 

Eis a sua resposta: “esse jeito de deixar sempre de lado a certeza e arriscar tudo de novo com paixão, andar caminho errado pela simples alegria de ser”. 

Pois bem, perdido em meus próprios pensamentos, avançava noite adentro em meditações: da memória, o passado é, conforme Belchior, “uma roupa que não nos serve mais”. Não há o que se fazer com ele, exceto pensar, sonhar com os perenes momentos degustados. Já a ficção é como nos versos do poeta nordestino, “andar caminho errado pela simples alegria de ser”, ou, no entendimento nietzschiano, a vida ficcionada é semelhante a uma mentira artística, aquela que é leve, livre e demasiadamente pulsante. 

Ah, minha gente! Num dado momento, já quase entorpecido, desacorçoado com os dramas do cotidiano, arrisquei-me no que parecia impossível: harmonizar, em texto, memória e ficção.

Da memória, um deleite, ocupar-me de uma presença potente, doce moça, mulher forte, de voz sonorosa, olhos de gude, de compleição chameguenta, cabelo esvoaçante, sorriso largo e de sensibilidade rara. Sua beleza é como nos dizeres de Sêneca, sua aparência é de completa beleza que não se permite admiração de partes isoladas. Em sua presença, mesmo em tempos turbulentos, tudo se acalma, faz-se silêncio, cria sentido… Até mesmo o tempo, aligeirado com o futuro, ao ouvi-la, no seu momento artístico, eterniza o presente, segue outro compasso, o tempo se torna poético. 

O que é permitido dizer, das memórias que tenho, um único encontro, é que quando estive ao seu lado, mesmo no curto espaço de tempo, os poemas de Jorge Amado ressoaram em meus ouvidos: “mesmo não sabendo que era amor [na sua presença], sentia que era bom”, gostoso…

Dessa intensa lembrança, uma ficção ousada, mais do que isso, esperança de ouvi-la, com seu jeito esmerado, interpretar, num bom boteco, o que há de mais pleno, o seu mistério, aquele de mulheres e homens de almas livres. Espero vê-la cantarolando, com seu estilo único e mágico, os versos de Mercedes Sosa, conforme pululam meus ardentes desejos. 

Mesmo que seja somente um devaneio, mais do que isso, um anseio ficcionado, não há como esquecer dos dizeres cervantinos: Nunca pense que seu amor é impossível, nunca diga “eu não acredito no amor”. A vida sempre nos surpreende.

De tudo isso, já o sábado assumindo seu turno, mesmo embriagado, um aprendizado nos cadernos: a vida é ficção, mas também é memória, não do que já fizemos somente, mas memória do que podemos ser. Assim, como numa mentira artística, aprendamos com Quixote, o velho louco, que a vida é o que queremos que ela seja: aventureira, ficcional, biográfica…

Que 2023 seja um ano de vida ficcionada e de grandes memórias para os amantes de gandaias e noites enluaradas! 

Charles Santiago é filósofo, professor e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Uma resposta a “Rabisco literário: Vida ficcionada e memória, uma interpretação cantarolada com os versos de Mercedes Sosa”

  1. Como sempre… uma explosão poética! Uma escrita apaixonante… Seus textos nunca perdem a leveza e ao mesmo tempo a ousadia. Parabéns!

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