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Como empresas incentivam sono de funcionários contra síndrome de burnout

Mulher dormindo com cachorro na cama
O objetivo da chamada liderança do sono é incentivar os funcionários a descansar mais e ajudá-los a reduzir os horários de trabalho

Na era da sobrecarga de trabalho, o sono é precioso. E se a sua empresa incentivasse você a trabalhar menos e dormir mais? (Não, você não está sonhando!)

Quando Jason Fried pega o telefone às 10 horas toda manhã, a primeira coisa que ele diz é: “acabei de acordar”.

Fried, cofundador e CEO da companhia americana de software Basecamp, afirma que priorizar o sono – garantindo horas suficientes de repouso de boa qualidade – é uma medida importante para ajudá-lo a ser um bom líder. Esse pensamento contraria muitos outros líderes, que têm a tendência, segundo Fried, de usar as horas sem dormir como “uma medalha de honra ao mérito”.

“Especialmente na indústria de tecnologia, você ouve as pessoas se gabarem: ‘dormi só por três horas’ ou ‘passei a noite toda trabalhando’. É o pensamento ‘vou dormir quando morrer, agora preciso aproveitar o tempo'”, segundo ele. “É meio que preocupante – essa ideia de que você ‘precisa’ trabalhar tanto e que isso é o que levará você adiante – trabalhar por uma quantidade de horas ridícula. Ninguém tem resistência, nem capacidade mental, para trabalhar 14 horas [por dia].”

Fried acredita em liderar dormindo mais. Sua filosofia, para si próprio e para seus funcionários na Basecamp, é “oito-oito-oito”: oito horas de trabalho, oito horas de sono e “oito horas de vida entre elas”, afirma ele. “O que acaba acontecendo para a maioria das pessoas é que o trabalho fica com a maior parte; a vida é aquilo que você tenta encaixar nos espaços vagos e o sono é o que sobrou.”

Esse tipo de “liderança do sono” tem dois aspectos, segundo Tori Crain, professora de psicologia da Universidade do Estado de Portland, nos Estados Unidos.

Jason Fried
Legenda da foto,Jason Fried, da empresa Basecamp, acredita que o método “oito-oito-oito” é a abordagem correta para ajudar os funcionários a descansar e fazer bem o seu trabalho

“De um lado, existe a questão de apoiar os funcionários na questão do sono. Coisas como um supervisor que verifica como eles estão, demonstrando cuidado e preocupação”, explica ela.

“E existe esse outro componente que é mais uma questão de compreensão e comunicação da importância do sono para se fazer um bom trabalho, com bons resultados para a empresa. Isso pode se traduzir em liderar de uma forma que ajude os funcionários a dormir mais, servindo de modelo para eles – demonstrando como os próprios líderes estão dormindo, equilibrando o trabalho e o sono e como eles estão pensando sobre o sono com relação ao seu trabalho.”

Desde o começo da pandemia, as empresas vêm reconhecendo cada vez mais a importância do bem-estar dos funcionários – especialmente porque é uma exigência sendo feita pelos próprios trabalhadores.

Programas como acesso a políticas de trabalho mais flexíveis, aumento das licenças e aplicativos de saúde mental são algumas das abordagens mais comuns. Mas ações menos tradicionais, como personificar e incentivar o bom comportamento de sono, também estão surgindo como outra forma de apoiar os funcionários para evitar o burnout.

E, embora as normas de um local de trabalho corporativo mais tradicional possam determinar que é inadequado comentar o que está acontecendo no seu quarto na hora de dormir, a neurocientista do sono suíça Els van der Helm afirma que “uma geração mais jovem de trabalhadores mudou esse tabu radicalmente. Eles querem falar sobre todos esses temas pessoais no trabalho, porque, para eles, o trabalho e a vida pessoal estão muito mais misturados.”

‘Quando você está cansado, você trabalha mal’

É claro que um sono leve no trabalho não é algo totalmente novo. Em países como a Espanha e a Itália, um intervalo no meio do dia para almoço e uma soneca incorporou-se à cultura corporativa há muito tempo. Em outros países europeus, algumas organizações, como o National Trust (entidade de conservação da natureza e de construções históricas do Reino Unido), estão começando a adotar esses “horários mediterrâneos”.

Existem também exemplos nos Estados Unidos. A empresa varejista online Zappos oferece acesso a cadeiras de massagem para os funcionários, que eram muitas vezes incentivados pelo falecido CEO da empresa, Tony Hsieh, a tirar sonecas diárias de 20 minutos. Espaços ou salas para sonecas também existem em empresas como a Google e a Cisco.

Mas, embora as ligações entre a soneca e o trabalho já existam há algum tempo – uma pesquisa de 2008 demonstrou que mais de 30% das companhias norte-americanas permitem ou incentivam a soneca durante o dia e 15% ou mais oferecem um local para essa prática -, o conceito de liderança do sono avança ainda mais essa questão, priorizando políticas que cuidem da higiene do sono dos funcionários fora do horário de trabalho.

A fundadora do Huffington Post, Arianna Huffington, defende o tema há muito tempo e chegou a publicar um livro a respeito (The Sleep Revolution – “A revolução do sono”, em tradução livre). O ex-executivo da Google Eric Schmidt também escreveu sobre a importância do sono para patrões e empregados. Na gigante dos seguros de saúde Aetna, os funcionários que conseguirem provar (com dados de pulseiras de monitoramento Fitbit ou de outra forma) que tiveram uma boa noite de sono podem receber um incentivo financeiro por noite.

Para Fried, o CEO da Basecamp, a liderança do sono é uma questão prática.

“Quando você está cansado, você trabalha mal”, afirma ele. “Você não pensa com clareza, nem é um bom líder para os demais. Se você chefia uma equipe ou está encarregado de outras pessoas e não dormiu o suficiente, você torna a vida deles muito mais difícil. Você não é uma pessoa agradável para conviver, não está totalmente ali. Você é breve, fala pouco e é tudo aquilo de ruim que resulta da exaustão.”

As pesquisas confirmam essas afirmações, segundo van der Helm. Estudos demonstraram que líderes que foram privados de sono tendem a “ter menos seguidores”, segundo ela. “Eles são menos inspiradores. A equipe de um líder que teve uma má noite de sono se envolve muito menos no trabalho.”

Por outro lado, os funcionários que dormiram pouco não têm seu melhor desempenho. “Eles interpretam fatores de estresse do local de trabalho com mais intensidade que se tivessem dormido bem”, afirma Tori Crain, da Universidade do Estado de Portland. “Eles são mais propensos a reagir a fatores de estresse no ambiente de trabalho e têm mais dificuldade para controlar suas emoções.”

Para Crain, existe uma “relação verdadeiramente recíproca” entre o sono e o trabalho. “Se as pessoas não estão trabalhando bem, isso causa estresse, que prejudica o sono. E não dormir bem afeta o desempenho no trabalho”, explica ela.

Péssimo sono, péssimo trabalho

Embora o problema seja retroalimentador – más condições de sono causam trabalho ruim e vice-versa -, a solução, segundo van der Helm, quase sempre está no local de trabalho.

Pessoa usando celular na cama
Legenda da foto,A liderança do sono significa ter comportamentos que sirvam de modelo, como não enviar e-mails fora do horário do trabalho e desligar as telas à noite

“Pode ser incrivelmente estressante ficar deitado acordado à noite, sabendo que você tem algo a fazer no dia seguinte e preocupando-se com isso”, afirma ela. “Se o tema do sono for tabu no trabalho e ninguém falar sobre ele, mas o trabalho for o que está tirando o seu sono, é preciso ter uma mudança cultural significativa.”

Especificamente na Basecamp, isso significa colocar a discussão sobre o sono em primeiro plano, em comunicações internas e com os funcionários. “Falamos sempre sobre isso internamente”, afirma Jason Fried. “Compartilhamos informações sobre como melhorar o sono e como isso é importante. E tudo precisa começar, eu acho, não com o sono, mas com o trabalho. Oito horas por dia são suficientes.”

Para possibilitar uma semana de trabalho estável de 40 horas semanais, as reuniões são limitadas e cuidadosamente programadas para permitir que haja grandes blocos de horas produtivas sem interrupções ao longo do dia. Os funcionários que enviarem e-mails tarde da noite podem receber um “lembrete gentil” de que não precisam trabalhar depois do horário.

Mas Fried reconhece que concentrar-se em uma atividade particular como o sono pode ser considerado paternalismo. Alguns anos atrás, a sua companhia firmou parceria com uma start-up que usava um aparelho embaixo do colchão para rastrear os movimentos e os batimentos cardíacos, coletando dados sobre a qualidade do sono das pessoas.

“Trouxemos o responsável para falar sobre a importância do sono e compramos esses aparelhos para todas as pessoas que quisessem”, afirma ele. “Algumas pessoas se dedicaram muito a isso e passaram a dormir melhor, o que é ótimo. Mas, para mim, isso começou a gerar uma sensação um pouco estranha [mesmo que] não estivéssemos recebendo nenhum dos dados.”

Começar com o sono

Enquanto as conversas sobre o bem-estar dos funcionários se ampliam em muitas empresas, influenciadas pela pandemia e pela força de trabalho cada vez mais dominada pelos millennials e pela geração Z, o sono saudável também está encontrando um lugar de destaque.

“Estamos vendo campanhas quase que publicitárias nas organizações para conscientizar as pessoas sobre o tema do bem-estar”, segundo Els van der Helm. “Elas muitas vezes começam com exercícios e nutrição, [mas] na verdade acho que deveriam começar pelo sono, já que é tão fundamental.”

Embora muitas empresas sigam esses exemplos e eliminem o tabu das discussões sobre o sono, van der Helm destaca que esta é apenas a primeira etapa da liderança do sono. Segundo ela, “muitas vezes, falta o modelo a seguir. Talvez haja apoio para os funcionários, mas a alta liderança não está necessariamente mudando nada e a cultura não é alterada. Por isso, as pessoas podem ter problemas.”

Em última análise, a liderança do sono resume-se em falar – e praticar o que se fala.

“De fato, é importante ter os colegas e os chefes para abordar esses problemas”, afirma van der Helm. “Pode ser muito liberador discutir esses assuntos.”

“Seja qual for a razão, depois que começamos [a falar], todos nós achamos mais fácil admitir o que está nos mantendo acordados à noite. O impacto da falta de sono sobre o trabalho é muito grande e, por isso, estou muito feliz por haver um impulso para que esses temas sejam abordados no trabalho. Ao final, se você quer que as pessoas durmam melhor, o trabalho pode ser a causa e a solução”, conclui ela.

Leia a íntegra desta reportagem (em inglês) no site BBC Worklife.

BBC. 21.1.2021.

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