Por Charles Santiago

Pois bem. Sem grandes sucessos, após peregrinar em busca de Qohelet, ainda na maravilhosa cidade de Jitaúna, voltei ao boteco de sempre, o Bar de Deosdete. Insistia na procura. Mas, naquele lugar, só havia sua voz.
A vitrola cansada girava qualquer coisa que ninguém mais parecia ouvir. As pessoas se espalhavam pelo recinto, cada qual ocupada com sua própria história. Alguns riam demasiadamente; outros dançavam sem muito compromisso com a música; havia ainda aqueles que, entre um gole e outro, assumiam por alguns segundos uma expressão de filosofia.
Reflexão é um exagero, considerando o ambiente.
Mas é digno de nota que o pensamento é livre. Como o vento, não se sabe de onde vem nem para onde vai — acredita-se apenas que existe e por isso perambula sem controle.
E naquele boteco, entre goles maltados, risadas soltas e danças desconexas, um sujeito de aproximadamente cinquenta anos, solitário em meio àquela multidão, fez-me um convite:
— Senta comigo.
Não neguei.
Minha busca parecia inglória. Ninguém dava conta de Qohelet. Talvez uma cerveja ajudasse a encontrar aquilo que os olhos não conseguiam ver.
Confesso que não se tratou de um diálogo.
Foi uma escuta.
Dei-lhe meus ouvidos para que contasse suas histórias. Ou melhor: para que desenrolasse seus lamentos, que pouco a pouco se desdobravam em questionamentos.
— Trabalhei por trinta anos e o que tenho?
Fez uma pausa.
— Fiz amigos? Fiz. Vivi? Não sei.
Olhou para o copo.
— Às vezes acho que passei a vida juntando coisas para descobrir, no fim, que elas nunca foram realmente minhas.
Ficou alguns segundos em silêncio.
— De que vale tudo isso se tudo é hevel? O sujeito trabalha, conquista, acumula, envelhece… e depois vem a morte cobrar a conta.
Dessa vez, não fiz pouco caso.
Talvez porque aquela não fosse exatamente uma pergunta. Ou talvez porque fosse justamente a pergunta que eu procurava.
O homem não parecia interessado em respostas. Falava como quem já havia descoberto que algumas perguntas não desaparecem quando respondidas. Apenas mudam de lugar.
O garçom, que talvez tivesse percebido meu desespero, aproximou-se. Achando que minha aflição vinha dos questionamentos daquele homem, colocou uma cerveja diante de mim.
— Toma. Essa ajuda.
Não perguntei qual ajuda.
Agradeci.
Tomei o primeiro gole do malte dionisíaco e, já um pouco aquietado, fiquei contemplando aquela prosa confusa. O homem continuava diante de mim, olhando para o copo como se esperasse dele alguma resposta para suas dores.
Foi então que uma voz surgiu da mesa ao lado.
Um casal, que até aquele momento parecia apenas ouvir nossa conversa, disse quase ao mesmo tempo, como quem conclui uma discussão que ninguém havia começado:
— Coma, beba, aproveite o seu trabalho. Porque isso é dom de Deus.
O homem silenciou.
Por alguns segundos, ninguém disse nada.
Ele parecia meditar sobre aquelas palavras. Depois levantou os olhos, olhou para o casal e simplesmente riu.
Não sei se concordava.
Não sei se discordava.
Talvez tivesse reconhecido alguma coisa.
Talvez tivesse percebido que aquelas palavras não respondiam às suas perguntas. Apenas ofereciam outra maneira de permanecer diante delas.
Comer. Beber. Trabalhar. Desfrutar.
Não como fuga da morte, mas apesar dela.
Não como solução para o absurdo da existência, mas como possibilidade de habitar o tempo que resta.
Eu, porém, como em um ato cênico, levantei-me de repente.
— Qohelet?
Silêncio.
Nenhuma resposta.
O dono do bar, que acompanhava meu entusiasmo com certa desconfiança, aproximou-se.
— Mas por que diabos você insiste nesse personagem?
Não soube responder.
Personagem?
Talvez fosse.
Talvez não.
Até então, eu procurava Qohelet como quem procura alguém que pudesse ser encontrado em algum lugar. Um homem, um sábio, uma voz antiga escondida entre as páginas de um livro.
Mas aquele sujeito diante de mim acabara de falar como ele.
E o casal também.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, um grupo já embriagado, cansado das próprias danças desconexas, começou a gritar do outro lado do salão:
— Quem é esse Qohelet?
Outro repetiu:
— Qohelet?
E um terceiro, talvez já sem saber exatamente o que perguntava:
— Ele bebe?
As gargalhadas vieram antes da resposta.
— Dança?
Mais risadas.
Então alguém gritou:
— Ele existe?
A pergunta ficou suspensa por um instante.
A música continuou.
A vitrola insistia em sua canção cansada.
O homem ao meu lado voltou a olhar para o copo.
O casal retomou a conversa.
O dono do bar balançou a cabeça, como quem já havia desistido de compreender minha procura.
Percebi que o clima havia mudado. O lugar já não parecia propício para encontrar Qohelet.
Talvez nunca tivesse sido.
Talvez Qohelet não estivesse sentado em nenhuma mesa.
Talvez não fosse sequer um homem que eu pudesse encontrar.
Talvez fosse aquela voz que aparece quando alguém pergunta pelo sentido da vida e descobre que a resposta não vem.
Uma voz que desconfia das certezas, que olha para o trabalho e pergunta o que permanece; que olha para a morte e pergunta o que significa viver; que olha para o tempo e, em vez de abandoná-lo, insiste em habitá-lo.
Uma voz que não resolve a existência.
Apenas nos obriga a encará-la.
Deixei a cerveja e saí.
A noite de Jitaúna estava mais silenciosa do que o bar. Caminhei sem pressa, ainda ouvindo ao longe a música da vitrola, ou talvez apenas imaginando que a ouvia.
A cerveja começava a pesar.
As perguntas também.
No caminho de casa, depois da prosa, da confusão e daquela sucessão de vozes, tive um pensamento intruso.
Talvez o mais incômodo de todos:
Talvez eu estivesse procurando Qohelet no lugar errado.
Ou talvez o problema fosse outro.
Talvez Qohelet não fosse alguém que se encontra.
Talvez fosse alguém que, de tempos em tempos, nos encontra.
Por onde anda Qohelet?
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Charles Santiago é professor, filósofo, colunista do Factótum Cultural e coordenador do Grupo de Pesquisa Poética do Sagrado.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.





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