Por Charles Santiago

OS CONTOS QUE TE CONTO
Uma prosa por mês para quem ainda gosta de uma boa história
Há histórias que acontecem na vida. Outras acontecem numa mesa de bar. Algumas, não sabemos bem onde começam.
É desse lugar – entre a memória, a imaginação, a literatura e os pequenos absurdos da vida cotidiana — que nasce Os contos que te conto.
A partir deste mês, teremos, uma vez por mês, um conto para compartilhar com os leitores. Serão histórias breves, personagens encontrados pelo caminho, amores, desencontros, boemia, filosofia, humor e, quem sabe, alguma verdade escondida no meio da ficção.
Não espere grandes lições. Talvez elas apareçam sem serem convidadas.
A proposta é simples: contar uma história e deixar que o leitor descubra o que fazer com ela.
Afinal, como toda boa conversa de boteco, um conto também pode começar falando de outra coisa e, quando percebemos, já estamos falando da vida.
Seja bem-vindo. Puxe uma cadeira.
Os contos que te conto começam aqui.
O HOMEM QUE PROCURAVA QOHELET
Leitura literária de o Eclesiastes
Dizem que Jitaúna é uma cidade pequena.
Eu não sei.
Cidade pequena é aquela em que todo mundo sabe da vida de todo mundo. Jitaúna era diferente: ali, todo mundo sabia da vida de todo mundo e ainda inventava o que não sabia.
Foi numa dessas noites – não me lembro exatamente qual – que ouvi falar de Qohelet.
Não era um nome comum.
Na verdade, não sei se era nome.
Perguntei a um velho sentado na praça:
— O senhor conhece Qohelet?
Ele me olhou demoradamente, como quem procura no rosto do outro alguma explicação.
— Conhecer, conhecer mesmo, não.
— Mas sabe quem é?
— Sei.
— E quem é?
O velho sorriu.
— Depende de quem pergunta.
Achei que fosse brincadeira.
Não era.
Comecei a procurar.
Disseram-me que Qohelet aparecia quase todas as noites no bar do Deosdete. Fui até lá.
O bar estava cheio.
Copo sobre a mesa, fumaça no teto, conversa atravessada, rádio tocando uma música antiga.
Perguntei ao Deosdete:
— Qohelet esteve aqui?
Ele enxugou um copo e respondeu:
— Esteve.
— E onde ele está?
— Você chegou atrasado.
— Ele vem sempre?
— Só quando não deveria.
Sentei.
Pedi uma cerveja.
Foi então que um sujeito na mesa ao lado falou:
— Você está procurando Qohelet?
Olhei para ele.
— Estou.
— Por quê?
— Quero conversar com ele.
O sujeito riu.
— Então você ainda não conhece Qohelet.
— Como assim?
— Qohelet não conversa com quem quer respostas.
— E com quem ele conversa?
Ele tomou um gole do líquido maltado.
— Com quem aguenta as perguntas.
Aquilo me intrigou.
Continuei procurando.
No dia seguinte, disseram que Qohelet tinha sido visto na feira.
Fui.
Nada.
Depois, disseram que estava sentado sozinho no banco da praça.
Nada.
Mais tarde, alguém jurou que ele havia passado a noite inteira conversando com um grupo de estudantes.
Nada.
Cada pessoa tinha uma história diferente.
Para uns, Qohelet era um homem amargo.
Para outros, um boêmio.
Havia quem dissesse que ele bebia demais.
Outros garantiam que bebia justamente para descobrir por que os indivíduos bebem.
Um rapaz me disse:
— Ele é filósofo.
Perguntei:
— Professor?
— Não.
— Então como sabe que é filósofo?
O rapaz respondeu:
— Porque ele estraga as certezas dos outros.
Comecei a gostar daquele sujeito sem conhecê-lo.
Até que finalmente o encontrei.
Foi numa noite quente.
Estava sentado sozinho, numa mesa afastada, com uma garrafa diante de si.
Não parecia velho.
Também não parecia jovem.
Tinha aquele rosto difícil de classificar que algumas pessoas carregam quando já viram coisas demais, mas ainda não desistiram de olhar.
Aproximei-me.
— Qohelet?
Ele levantou os olhos.
— Depende.
— Depende de quê?
— Do que você quer de mim.
Sentei sem pedir licença.
— Estava procurando você.
— Percebi.
— Como?
— Quem procura alguém olha para as pessoas como se todas pudessem ser a pessoa procurada.
Fiquei em silêncio.
Ele serviu-se.
— E então?
— Queria conversar.
— Sobre o quê?
Pensei.
— Sobre a vida.
Ele sorriu.
— Péssimo começo.
— Por quê?
— Porque quem começa falando da vida geralmente não sabe do que está falando.
— E você sabe?
Qohelet olhou para a garrafa.
— Não.
Bebeu.
— Mas já desconfiei de muita coisa.
Gostei da resposta.
Perguntei:
— O que você acha da vida?
Ele respondeu sem hesitar:
— Ela é curta demais para ser levada a sério e longa demais para ser desperdiçada.
Fiquei olhando para ele.
— Isso é uma contradição.
— Claro.
— E você não pretende resolvê-la?
— Não.
— Por quê?
Ele deu de ombros.
— Algumas contradições existem para impedir que a gente vire idiota.
Depois riu.
Era um riso estranho.
Não de alegria.
Também não de tristeza.
Era o riso de alguém que já tinha percebido alguma coisa sobre o mundo e não sabia se aquilo era motivo para rir ou para chorar.
Perguntei:
— Você é feliz?
Qohelet me encarou.
— Você ainda acredita nessa pergunta?
— E você?
— Eu acredito na cerveja.
Levantou a garrafa.
— Ela pelo menos não promete felicidade.
Rimos.
Ficamos ali por algum tempo.
Falamos de dinheiro, de mulheres, de trabalho, de velhice, de juventude, de gente que corre a vida inteira atrás de coisas que depois não consegue carregar.
Qohelet tinha uma maneira irritante de dizer coisas simples.
— O homem passa metade da vida tentando ganhar tempo – disse ele – e a outra metade tentando descobrir onde foi parar o tempo que ganhou.
Perguntei:
— Você sempre pensa assim?
— Não.
— Quando não pensa?
— Quando estou bebendo.
— E agora?
Ele levantou a garrafa.
— Estou trabalhando.
Já era tarde quando me levantei.
Antes de ir, perguntei:
— Posso encontrar você amanhã?
Qohelet ficou em silêncio.
Depois disse:
— Amanhã é uma invenção interessante.
— Por quê?
— Porque todo mundo promete alguma coisa para ele.
Saí sem entender completamente.
No dia seguinte, voltei ao bar.
Qohelet não estava.
Perguntei ao Deosdete.
— Ele esteve aqui?
— Esteve.
— E onde está?
Deosdete apontou para a rua.
— Foi embora.
— Para onde?
— Essa é a parte que ninguém sabe.
Procurei durante alguns dias.
Nada.
Perguntei na praça.
Na feira.
No bar.
Na rodoviária.
Cada pessoa me dava uma resposta.
Até que parei de procurar.
Talvez porque tivesse entendido que algumas pessoas não desaparecem.
Apenas deixam de estar onde esperamos encontrá-las.
Voltei para casa naquela noite.
Não encontrei Qohelet.
Mas encontrei uma pergunta que não estava procurando.
E talvez tenha sido essa a razão de toda aquela procura.
Qohelet continuou desaparecido.
Mas a história dele, essa eu trouxe comigo.
📝 Não deixe de ler nosso artigo anterior:

Charles Santiago, escritor da Factótum Cultural e professor de filosofia e sociologia.
Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.





Deixe um comentário