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Hedonismo: o prazer extremo guiará as nossas vidas no pós-pandemia?

Festa de rua (Foto: Rafael Pavarotti/Arquivo Vogue)
(Foto: Rafael Pavarotti/Arquivo Vogue)

“Há muita libido represada, junto a todo sofrimento e perdas a serem elaborados. Ansiamos o encontro em massa, um Carnaval de verdade, com tudo o que temos direito”, reflete o psiquiatra Filipe Batista em sua coluna para a Vogue Brasil.

Tudo leva a crer que caminhamos para um período de extremo hedonismo pós-Covid. Será mesmo? A suposta intenção não pressupõe capacidade de verdadeiramente desfrutar, tampouco inconsequência deve ser confundida com prazer. É uma dança complexa, verdade, pois nem sempre o que buscamos é o que de fato queremos. Além do mais, o prazer imediato nunca apertou as mãos da moral, da religião e da norma – requer a ruptura de regras e padrões, internos e externos. Ajustar esse compasso tem sido especialmente desafiador para quem decidiu encarar a pandemia de frente, com respeito e empatia. Mas passada a tsunami pandêmica, quantos de nós estarão preparados para se banhar no mar do prazer?

O conceito clássico de hedonismo, introduzido pela filosofia grega, insere o prazer como bem central. Freud, em sua obra Além do Princípio do Prazer, publicada no pós-guerra, inaugura a ideia de que não somos regidos psiquicamente apenas pela busca por prazer, mas também por pulsões destrutivas e de morte.

Após quase dois anos de pandemia, há muita libido represada, junto a todo sofrimento e perdas a serem elaborados. Ansiamos o encontro em massa, um Carnaval de verdade com tudo o que temos direito. Ao passo que, por mais palpável que isso pareça agora, ainda temos de lidar com o gosto amargo que resta. A dupla aptidão brasileira por conservadorismo e transgressão ainda não permite apostas claras sobre para qual lado penderemos dessa vez. Apostaremos no Eros?

O psicanalista Contardo Calligaris, que nos deixou recentemente, levantava a questão sobre uma certa inaptidão contemporânea para o hedonismo. Contardo ia na contramão de muitos pensadores atuais, que creditam à busca obstinada por prazer a origem de muitos de nossos males. Os pretensos hedonistas modernos, como chamou ele, talvez estejam preocupados demais com a sobrevivência, a utilidade, as regras e trivialidades cotidianas para se permitirem prazer.

Nas palavras do antropólogo e babalorixá Rodney William, autor de Apropriação Cultural, “A felicidade é um dever ancestral.” Rodney lembrou o desfile da Beija-Flor de Nilópolis no Carnaval de 1989, de autoria de Joãosinho Trinta, que decidiu levar o carro do Cristo Mendigo para a Avenida. Na época, em entrevista ao jornal O Globo, Joãosinho disparou: “Vamos surpreender pela opulência dos restos.” Após uma celeuma jurídica com a Igreja Católica, o carnavalesco desfilou com a alegoria coberta e uma faixa com a frase “Mesmo proibido, olhai por nós!”

O Carnaval, símbolo máximo do hedonismo em nossa cultura, é também a expressão da resistência de um povo cuja reivindicação por prazer foi (e ainda é) negada. Um Brasil onde as necessidades mais imediatas de existência fazem o prazer parecer supérfluo. Em vão. Por isso mesmo, ele é protagonista em um dos maiores ritos festivos do mundo. Essa dimensão política que o Carnaval abarca nos ajuda a entender porque prazer é assunto sério. O orgasmo e o prazer feminino também. O belo e o erotismo idem. Trata-se não apenas de resgatar esse Eros, mas de reposicioná-lo como catalisador de transformações. Lembremos que a patrulha em torno do hedonismo é uma ferramenta de controle, afinal, prazer é força, potência, liberdade. 

Lidar com o ímpeto sexual foi uma batalha para muitas pessoas durante a pandemia. Algumas recuaram, reservando-se à aridez de uma vida desprovida dessa força potente, outras sublimaram como puderam, estabelecendo relações mais íntimas com o álcool, a comida, o Instagram e a Netflix. Mas há também quem tenha mergulhado mais fundo na investigação sobre o que desperta seu prazer. Aliás, momentos de crise podem ser propícios para isso. Não à toa, durante a pandemia, houve recorde de divórcios. Os que preferem enxergar nisso a ruptura, deixam de observar que uma separação pode sinalizar também um movimento em direção ao desejo.

Volto ao Carnaval, porque aprendi como bom baiano que, se você não vai ao Carnaval, ele vem até você. Retorno especialmente ao seu motor pulsante, o samba. Herança da África diaspórica, o samba é síntese da alegria, orgulho e poder do povo brasileiro. A retórica que relaciona o samba à vulgaridade é uma maneira grotesca de sintetizar em um só discurso inveja, recalque, opressão e racismo. Reivindicar o prazer é mais do que buscar satisfação imediata, significa colocar a vida, a criação e o novo como eixos centrais.

Carnaval e samba possuem uma forte função social e política, o mesmo vale para o prazer. Há quem ainda enxergue no hedonismo um mal a ser extirpado, um excesso que precisa ser contido, uma liberdade corruptora. O prazer não precisa ser egoísta. A alegria do brasileiro, entendida como alienação por alguns, é também a resistência de quem insiste a despeito de tanto desprazer.

Vogue. 12.10.2021.

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