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Finlândia é o país mais feliz do mundo? Brasileiros que moram lá se dividem

Ruas do centro de Helsinki, na Finlândia - Getty Images/iStockphoto

Em 2021, a Finlândia foi eleita pelo quarto ano consecutivo o país mais feliz do mundo.

Os quatro títulos seguidos foram dados pelo respeitado relatório World Happiness Report (WHR), que, para chegar a estes resultados, se baseou em entrevistas realizadas com moradores de aproximadamente 150 países do globo, que avaliam sua própria qualidade de vida.

As respostas concedidas nas entrevistas são, então, cruzadas com dados objetivos e subjetivos de cada país, como seu Produto Interno Bruto (PIB), expectativa de vida de seus moradores, percepção da população em relação à corrupção em seu governo e percepção da população em relação à generosidade de seus conterrâneos.

Segundo John Helliwell, um dos editores do WHR, a Finlândia recebeu avaliações extremamente positivas em todos estes quesitos nos últimos anos.

O posto de primeiro na escala de felicidade, porém, não é unanimidade. Dois brasileiros que vivem no país nórdico — reaberto também para turistas vacinados desde julho — provam que “país feliz” é um conceito bastante relativo.

Felicidade é igualdade

O brasileiro Jeferson Pires se mudou para o território finlandês há aproximadamente 20 anos, para jogar futebol profissional no país.

Hoje técnico do time FC Jazz, ele entende que a Finlândia pode, sim, ser classificada como o país mais feliz do mundo.

“A razão para que o país seja considerado o mais feliz do mundo é simples. É a igualdade”, diz Jeferson, que destaca o sistema de grande segurança social, além de educação e saúde públicas de qualidade para todos.

“Aqui, o filho do milionário estuda na mesma escola pública do filho do pobre. E o pobre nem é tão pobre assim. Ele tem sua casa, seu carro e o básico para viver”.

O brasileiro também conta que os baixos índices de violência ajudam (e muito) na alta qualidade de vida local. “Temos muita tranquilidade aqui. A maioria das casas não tem muros”, diz. “É um lugar muito gostoso para viver. Há igualdade para todos em tudo”.

Jeferson rejeita a tese, defendida por muita gente, segundo a qual os finlandeses são um povo extremamente frio.

“Eles não são frios, só mais reservados e quietos. Se você fala e entende bem o idioma deles, é possível fazer amizade de maneira mais fácil com os finlandeses. Hoje, tenho muitos amigos aqui. Frequento a casa deles e eles vêm na minha casa. O fato de eles não serem tão expansivos não significa que eles não estejam satisfeitos com a vida na Finlândia”.

E o frio extremo, que marca o território nórdico durante boa parte do ano, não é problema para Jeferson.

Pelo contrário: o brasileiro adora fazer viagens para lugares mais gelados do país, muitos dos quais costumam apresentar paisagens belíssimas quando as temperaturas estão lá embaixo.

“No inverno, gosto muito de ir para o norte da Finlândia, para fazer pescaria sobre o gelo. A superfície dos lagos congela. Então, você pode fazer um buraco no gelo e pescar ali mesmo”, conta. “E, no norte, também dá para esquiar e visitar a cidade de Rovaniemi, que fica na região da Lapônia e que, dizem, é o lar do Papai Noel. É um lugar maravilhoso”.

Álcool e racismo são problemas

Marcos Bueno é outro brasileiro que mora na Finlândia há um bom tempo: ele se mudou para o país há pouco mais de três anos para trabalhar como professor universitário (e, hoje, administra uma startup por lá).

Marcos, porém, que conhece diversos países do mundo, não concorda com o título de nação mais feliz do planeta dado para a Finlândia.

“O acesso à saúde, os altos níveis de educação, os bons salários e a maneira como as pessoas conseguem equilibrar sua vida pessoal com a profissional por aqui com certeza contam pontos para esta eleição”, diz ele.

“Mas, quando você olha de perto para boa parte das pessoas, dá para ver que nem sempre elas estão felizes. No meu círculo social, conheço muito finlandês que sofre de ansiedade e depressão. E, aqui, muitas pessoas têm problema com alcoolismo.”

Ele conta que, se você sair à noite em uma região de baladas em Helsinki, vai ver gente caindo que nem zumbi na rua, por causa do álcool. “A galera não sabe beber”, descreve.

O brasileiro também cita o inverno rigoroso do país como um fator que pode afetar negativamente o ânimo das pessoas. “Chega o frio, tudo fica escuro e todo mundo vai hibernar. Quase ninguém mais sai de casa. É complicado”.

Além disso, Marcos identifica em uma quantidade considerável de finlandeses características que não combinam com a imagem positiva da felicidade, como racismo e xenofobia.

“Sinto que muitas pessoas aqui são racistas. Conheço muita gente que não gosta dos refugiados do Oriente Médio ou do norte da África que chegaram ao país nos últimos anos.”

Não sofro isso porque sou branco. Mas já vi finlandeses serem racistas com outros estrangeiros. É algo que me incomoda muito”.

Viva a natureza

O governo finlandês, por sua vez, faz questão de reforçar a imagem de país mais feliz do mundo que o World Happiness Report associou à Finlândia.

E aponta a farta natureza que existe no território como uma das razões da suposta altíssima felicidade de seu povo.

“Muitos finlandeses dizem que sua felicidade vem de sua enorme conexão com a natureza, visto que mais de 90% do país é coberto por florestas e água”, informa o Business Finland, órgão de promoção turística do país nórdico. “

“A natureza joga um papel muito importante no nosso estilo de vida. Temos 40 parques nacionais e oportunidades para atividades na natureza ao longo do ano. Em épocas mais quentes, temos lugares perfeitos para nadar, fazer trilhas, passear de bicicleta e acampar. E, no inverno, sobram locais para esquiar”.

Diretora de marketing internacional do Business Finland, Heli Jimenez também explica que a felicidade dos finlandeses vem de sua maneira de encarar a vida.

“A felicidade finlandesa não é superficial e imediatamente visível, mas está profundamente enraizada em nosso ser”, explica ela.

Apreciamos as pequenas coisas do nosso dia a dia, como se sentar calmamente em um banco e olhar para um lago depois de uma relaxante sessão de sauna. Ou dar um mergulho matinal no mar antes de começar o dia de trabalho.

“Abraçamos a vida como ela se apresenta, uma característica que está nos ajudando nestes tempos difíceis”

UOL. 30.9.2021.

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