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‘Ikigai’: conceito japonês ajuda pessoas a encontrarem propósito de vida…

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Faça uma pergunta a si mesmo: o que me faz levantar da cama todos os dias? Não sabe a resposta ao certo? Então talvez é porque você ainda esteja em busca do seu “ikigai”. O termo em japonês carece de uma tradução literal para o português, mas seu significado é algo como “razão de viver”.

Há controvérsias a respeito de sua origem, mas a teoria mais aceita é a de que o termo nasceu no sul do Japão, em Okinawa. Não por coincidência, o local é conhecido por ser uma blue zone, regiões que abrigam uma alta concentração de centenários. O senso de comunidade e a boa alimentação são dois fatores que contribuem para que esse trecho de terra consiga índices tão positivos. Mas a ciência também já mostrou que ter um plano de vida pode levar à longevidade.

Um estudo, por exemplo, publicado no periódico The Lancet em 2014, analisou 9.050 ingleses com idade média de 65 anos, durante oito anos e meio, e descobriu que os participantes que sentiam que aquilo que faziam realmente valia a pena tiveram 30% menos chances de morrer e viveram, em média, dois anos mais dos que os demais.

“Se temos propósito estamos vendo sentido em nossas vidas e, portanto, facilitamos a gratidão e a resiliência, os dois extremos necessários para o nosso bem-estar”, explica Claudia Feitosa-Santana, neurocientista e pós-doutora pela Universidade de Chicago. “Imagine uma encruzilhada. Se temos propósito, sabemos escolher o caminho. Assim, somos líderes de nossa própria vida e temos mais chance de sermos felizes. Sem propósito, não temos como escolher, somos escolhidos. Assim, apenas com sorte seremos felizes”, diz.

Para a psicóloga clínica e professora da PUC-Rio, Casa do Saber e diretora do Centro Junguiando – Clínica e escola de Psicologia Analítica, Tatiana Paranaguá, viver é estar constantemente descobrindo seu propósito. “Do ponto de vista da psicologia analítica, todo ser humano possui um propósito, o fato de não sabermos disso de forma fácil não significa que não exista”, diz.

Essa busca pode envolver uma verdadeira jornada interna de autoconhecimento, pois se para alguns ele pode ser óbvio, para outros, ele pode estar muito escondido, ou contaminado por pressões externas. “Nem todo propósito precisa ser grandioso aos olhos dos outros, ele simplesmente é. O que importa é que quando não desistimos da busca, mais próximos chegamos desse centro, em um movimento chamado de ‘processo de individuação'”, explica Paranaguá.

Sabemos que temos o lado racional e o lado inconsciente da nossa mente. Em qual deles moraria então o nosso propósito? “Em nossa linha, o inconsciente não é apenas composto de coisas esquecidas que um dia foram conscientes, mas também por uma parte de nós que nunca foi acessada. Para chegar mais perto de conhecer o propósito não basta só olhar para fora, é preciso olhar para essa região interna também. Dentro dessa premissa, não esgotamos o autoconhecimento, ele é uma caminhada para a vida toda”, diz a psicóloga.

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A busca pelo propósito não pode ser motivada apenas pela busca da longevidade, pois não se trata de viver mais, mas sim dar sentido a esses anos que você ganhou.

Em busca do meu “ikigai”

Para Claudia Feitosa-Santana, energia e tempo podem ser as maiores dificuldades que alguém em busca do seu “ikigai” pode encontrar. “Energia, pois tudo que é deliberado exige energia cerebral. Se precisamos de energia, exige tempo. Para tal, não podemos estar sempre atrasados, correndo atrás do tempo”, diz ela, que também ressalta que atenção é muito importante no processo, pois “o presente é um presente”. “Menos é mais, não somos multitarefa”, conclui.

As pessoas estão buscando propósito em coisas que não tem nada a ver com a essência delas, buscando objetivos artificiais que são valorizados por determinado contexto, segundo Paranaguá. “Porém, em pouco tempo, essa busca, mesmo que alcançada, se torna vazia. Por isso encontramos pessoas aparentemente bem-sucedidas extremamente infelizes. Foi apenas a imitação do caminho de outra pessoa”, diz.

Além disso, a busca pelo propósito não pode ser só motivada pela busca da longevidade, de acordo com Ken Mogi, autor do livro “Ikigai: Os cinco passos para encontrar seu propósito de vida e ser mais feliz”. Não se trata apenas de viver mais, mas sim de dar sentido a esses anos que você ganhou. O neurocientista japonês dá ainda algumas dicas para quem está nessa empreitada de procurar o seu “ikigai”. São elas:

  1. Encontrar propósitos pequenos no seu dia a dia, como beber uma xícara de café. Nem tudo precisa ser grandioso, os pequenos prazeres da vida têm o seu valor e é justamente o “ser fácil” que torna o conceito tão atraente;
  2. Observe a si mesmo e às suas versões mais antigas. Resgatar seus sonhos de infância pode ser revelador. O que sempre deu prazer a você? Qual o tema que sempre o pulsou?
  3. Na iminência de não saber o que quer, pontue o que você já sabe que não quer. Isso pode dar pistas e excluir caminhos que não o agregam;
  4. Respeite seu processo. Nem todo mundo sabe desde sempre qual é a sua missão. Além disso, ela pode mudar ao longo da sua vida, portanto é preciso estar sempre nesse movimento da busca, pois os “ikigai” são múltiplos;
  5. Partindo desse princípio da multiplicidade, e retomando pontos anteriores, lembre-se de não se limitar a um único e grandioso propósito. A beleza está justamente em se permitir a ter vários e ter realizações diárias;
  6. Priorize, por fim, atividades que beneficiem também o outro. Ajudar o próximo é comprovadamente bom para nossa mente e corpo e esse senso de comunidade está fortemente atrelado ao conceito de propósito.

Michelle Fidelholc, professora de inovação social e empreendedorismo da Avenues São Paulo, gosta de cravar o “ikigai” como um norte, e que seja amplo, fugindo de algo que possa ser limitante justamente porque pode mudar ao longo da vida. “Quando falamos de propósito, corremos o risco de colocar um peso e uma pressão muito grandes nas pessoas, de forma que dá até medo de ir atrás dessa coisa tão especial e importante, sendo que ela é mutável”, diz.

Em sala de aula para seus alunos de empreendedorismo, ela usa o conceito para ajudar os alunos a pensar no que eles querem se envolver. “Empreender envolve uma dedicação muito grande, então é importante que ele goste do tema; se o aluno estiver alinhado com algo que tenha sentido para ele, vai fluir muito melhor”, relata.

Por fim, Fidelholc lembra que justamente por ser algo construído, o propósito pode ser implantado em sua vida aos poucos. “Quando falamos dessa busca, parece que ela levará a uma grande transição de vida e carreira. Mas eu acho que tem o seu valor ir construindo as coisas aos poucos, porque isso cria espaço para irmos nos aprofundando, sentindo se é isso mesmo, criando espaço para essas mudanças”.

Em uma sociedade imediatista, para ela, isso pode ser um problema. “Quando sentimos uma insatisfação ou vemos outros interesses, dá vontade de jogar tudo pro ar, o que pode gerar um desconforto ainda maior. É preciso ir aos poucos”, diz.

Viva Bem Uol. 22.9.2021.

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