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Os argumentos do cavalo branco e da imunidade de rebanho para crianças

Por Matheus Oliva da Costa

É instigante como as mesmas estratégias argumentativas podem ser usadas pela humanidade em contextos muito distintos. No presente texto vamos mostrar como um argumento usado na antiguidade asiática foi usado em nosso contexto atual. No caso, um argumento falacioso, que busca confundir o ouvinte.

Na China antiga, séculos de discursos éticos e moralizantes foram desafiados por alguns filósofos que usavam a linguagem de uma maneira inovadora e ousada. Inicialmente os seguidores do filósofo Mo, ou moístas, na busca por estabelecer diferenças lógicas na linguagem, afirmaram que “ter ‘bois e cavalos’ não é ter cavalos”. Outro filósofo, da chamada Escola dos Nomes, o Gongsun Long, expressou uma proposição mais exata: “cavalo branco não é cavalo”. Em um dos textos mais filosoficamente instigantes na antiguidade chinesa, Gongsun tentou mostrar que não podemos confundir o sentido da designação do todo (“cavalo branco”) com suas partes (coisa-cavalo + coisa-branco), e nem um objeto (cavalo) com seu predicado (branco). Por isso, o nome “cavalo” é uma designação de uma realidade, objeto ou coisa (shi), e cavalo branco é a designação de outra coisa (shi), no caso, especificamente a coisa-cavalo + a coisa-branco. Esse discurso impactou os pensadores daquele ambiente intelectual.

Poderíamos abordar toda uma repercussão que esse discurso do “cavalo branco” alcançou. No entanto, o que nos interessa aqui é ressaltar apenas alguns pontos. Primeiro, pareciam discursos enganadores, ludibriantes, logo, pouco confiáveis. Essa baixa confiabilidade não era apenas no sentido moral, mas também no sentido legal: Hanfei, um dos mais famosos filósofos legalistas da antiguidade, narrou uma história em que um defensor do argumento do “cavalo branco”, ao passar por uma fiscalização, teve que pagar taxas de cavalo devido ao cavalo branco em que estava montado.

Em segundo lugar, esses discursos que estabelecem distinções lógicas, mesmo que informais, iam numa direção diferente do discurso ético que reinava, e não por se oporem a perspectivas morais, mas por acabaram se distanciando destas últimas. Por isso, sofreu muitas críticas. Vale lembrar que o contexto era de instabilidade política e tensão militar entre os estados que disputavam a hegemonia entre si, o que justamente obrigava argumentos mais elaborados. A crítica, entretanto, não era contra o discurso elaborado, mas sim pelo que seus críticos entendem ser a falácia contida nele, ou mais, precisamente, o que um crítico específico viu como falácia, e que será explorada brevemente a seguir. Essa crítica veio do professor de Hanfei, o filósofo Xun, um confuciano que elogiava os argumentos bem articulados, mas que tinha uma severa crítica aos impactos nocivos de tais discursos no mundo social.

Para o filósofo Xun, argumentos como o do “cavalo branco” ou o de que “‘ter ‘bois e cavalos’ não é ter cavalos’, são exemplos de usos confusos de nomes que causam desordem na realidade”. Para ele, se alguém “verificar os nomes das convenções sociais, através do que lhes é aceito, contrastando com o que rejeitam, então poderá contê-los”. Vamos investigar melhor essa acusação. Primeiro ele afirma que o argumento do cavalo branco são usos de linguagem confusa para gerar uma confusão na nossa visão da realidade: assim, linguagem confusa implica realidade confundida. Isso ocorre através da estratégia de distração que visa confundir os padrões sociais convencionados para ganhar uma discussão, o que nos faz designar essa estratégia de falácia da distração. E como combater essa falácia? O antídoto é checar cada sentença com o que é aceito consensualmente na sociedade, ou seja, ter um critério convencionalista em linguagem.

Assim, para o filósofo Xun, quando Gongsun tentou defender que cavalo é diferente de cavalo branco, ele estava confundindo a nossa convenção social da linguagem de que todo cavalo branco é sim um cavalo. Aqui é importante lembrar que enquanto Gongsun tinha objetivos focados em criar distinções claras dos sentidos dos nomes, Xun estava mais interessado em como, de fato, esse discurso era usado socialmente de forma correta (virtuosa) ou desonesta (egoísta, viciosa). Nesse último caso, seria a busca de lucros em detrimento do bem público, como quando pessoas estabelecem distinções claramente arbitrárias para benefício próprio, cujo exemplo seria quando pessoas argumentam que não precisam pagar impostos sobre cavalos, já que elas têm somente cavalos brancos.

Assim, Xun via um problema sério no fato de essas distinções serem uma tentativa de diferenciar nomes que são consensualmente vistos como designadores de uma mesma categoria de coisas ou realidades (cavalos marrons e cavalos brancos são, igualmente, cavalos). Ele também observada a possibilidade de tais distinções que julgava como arbitrárias de gerar ambiguidade para um mesmo termo em um jogo de palavras com a intenção de confundir o ouvinte. Ou seja, seria o que foi chamado séculos depois de falácias intencionais. Assim, se por um lado é linguisticamente possível dizer que cavalo, como tipo geral, é distinto de cavalo branco, como tipo específico em que tem a adição de um predicado, por outro lado esse discurso torna-se perigoso quando é usado com fins intencionalmente para distorcer os padrões de linguagem convencionados, gerando confusão na forma de ver o mundo.

É justamente isso que aconteceu na CPI da Pandemia, quando bolsonaristas, ao perceberem que estavam em contradição e seriam desmascarados publicamente, usavam argumentos do tipo “cavalo branco” para confundir o senador relator da CPI. Trata-se do caso de 25 de maio de 2021 da servidora do Ministério da Saúde Mayra Pinheiro, que, após ter negado defender a “imunidade de rebanho”, foi exposta a um vídeo em que ela diz claramente que a imunidade de rebanho é uma boa estratégia, e que as crianças deveriam voltar às escolas e as lojas deveriam ser reabertas. Após o vídeo, perguntaram novamente se ele defendia a imunidade de rebanho, e ela disse que não! Quando o relator insistiu na incongruência entre a fala dela e o vídeo apresentado segundos antes, ela disse que defendeu a imunidade de rebanho somente “para crianças”.

Assim, para ela, assim como cavalo branco não é cavalo, imunidade de rebanho para crianças não é imunidade de rebanho. Se, por um lado, entendemos que ela quer afirmar que defendeu algo bem específico, por outro lado é muito claro que é uma contradição ela dizer que imunidade de rebanho para crianças não é imunidade de rebanho. Mesmo que seja um tipo específico de um gênero maior, ainda assim faz parte desse gênero. Defender imunidade de rebanho para crianças, implica, necessariamente, defender imunidade de rebanho, pelo menos em termos de convenção social, inclusive acadêmica.

Não se trata apenas de contradição lógica ou linguística, indo muito além disso. A servidora citada buscou confundir de forma intencional a convenção através da sua falácia da distração, de forma que a realidade ficasse também embaçada, e, consequentemente, que ela não fosse acusada e nem punida pelas suas falas socialmente irresponsáveis. Não deu certo, e ela foi vista pelos senadores acusadores e pela opinião pública (através das mídias virtuais) como enganadora, com claras intenções de ludibriar a CPI. Infelizmente, enquanto ela fazia isso, acabou contribuindo para que mais vidas continuassem a serem perdidas. Atualmente o número de mortos em decorrência da pandemia passou de meio milhão, o que, no caso, foi potencializado pela péssima gestão do governo federal, incluindo aqui os problemas sociais que os discursos da servidora citada causam.

Cabe a nós continuarmos a combater essas falácias para frear essas distrações do discurso que nos atrapalham a entender a realidade. Essa busca por clareza sobre o conhecimento, esse saber que sabe de forma segura, mas também que é aberto a sempre aprender a verificar seus limites, é algo central para uma sociedade democrática.

Matheus Oliva da Costa, Pós-doutorando em Filosofia (USP)

 Coluna ANPOF. 21/09/2021.

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