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As drogas da eficiência: pessoas recorrem ao uso de psicoestimulantes com o intuito de turbinar a mente

Remédios (Foto: Vogue Paris)

“Existe uma forte pressão para que sejamos cada vez mais atentos, o que, no frigir dos ovos, significa sermos mais produtivos”, diz o psiquiatra Filipe Batista em sua coluna para a Vogue Brasil

Quem não se sente desatento hoje em dia que atire o primeiro Venvanse. É cada vez maior o número de pessoas que procuram os consultórios psiquiátricos por não se sentirem suficientemente atentas. Não se trata de transtorno do déficit de atenção, que surge na infância e pode perdurar ao longo da vida, tampouco é parte dos sintomas de depressão ou algum transtorno de ansiedade, que frequentemente interferem na cognição. Refiro-me à pessoas que recorrem ao uso de psicoestimulantes – medicamentos usados para tratar o déficit de atenção, como Ritalina ou Venvanse – com o simples intuito de turbinar a mente.

A venda de remédios derivados de anfetamina bateu recorde no Brasil. A Anvisa registrou a compra de 2,85 milhões de caixas de psicoestimulantes em farmácias do país em 2019, aumento de 20,9% em relação a 2018. Esses dados não incluem a venda ilegal desses medicamentos, negociados no mercado paralelo, sem prescrição médica.

É muito provável que estejamos diagnosticando excessivamente o transtorno do déficit de atenção. Não é simples entender o que está por trás disso. Existe uma forte pressão para que sejamos cada vez mais atentos, o que, no frigir dos ovos, significa sermos mais produtivos. Paradoxalmente, a hiperconectividade também contribui para a nossa desconexão. Isso ocorre porque precisamos descansar para que nosso cérebro possa funcionar plenamente.

Se tentarmos sustentar a atenção em uma mesma tarefa por algumas dezenas de minutos, nos dispersaremos com o passar do tempo. Embora esse tempo seja influenciado pelo tipo de atividade que realizamos e o quanto ela desperta nosso interesse e prazer, frequentemente ignoramos essas variáveis. Somam-se a isso os múltiplos estímulos aos quais somos diariamente expostos. Uma mensagem dispara na tela do celular. O alarme lembra que está atrasado para o Zoom. Um novo e-mail. Notificações. Um ritual que se repete o dia todo, dividindo sua atenção com o que quer que esteja fazendo ou pensando.  

Após um ano e meio isolados, em home office, distantes de nossas atividades usuais, tomados por ansiedade e incertezas, é natural sentir dificuldade para se concentrar, pensar de maneira ágil e clara. A mudança da alimentação, consumo excessivo de álcool e a redução da prática de exercício físico também contribuem para a sensação de que ficamos mais distraídos e lentos. Sentir-se assim, mas não querer abrir mão de nada, gera um impasse. O problema está em não se dispor a refletir ou mudar qualquer aspecto ou hábito de vida.

Pretender gozar de energia, foco e atenção sem reduzir a carga de trabalho, estabelecer prioridades ou sacrificar o tempo de uso do celular leva algumas pessoas ao uso indevido e abusivo de psicoestimulantes – o novo elixir da Faria Lima. Aquelas verdadeiramente diagnosticadas com déficit de atenção irão se beneficiar com o tratamento, mas a discussão é levada para outro lugar quando certos medicamentos passam a ser usados com intuito supérfluo, sem a devida indicação terapêutica, alimentando o imaginário coletivo, seduzido com a possibilidade de soluções instantâneas.

Além dos possíveis prejuízos relacionados ao uso indiscriminado de psicoestimulantes, existe um debate ético mais amplo que envolve a questão do doping intelectual. Lançar mão de uma ferramenta capaz de aprimorar seu funcionamento cognitivo no trabalho ou na disputa de concursos é extremamente questionável. Isso eleva a régua de comparação para um patamar que não traduz a realidade de nossas limitações.

No lugar de confrontar as dificuldades de viver em um mundo que nos dispersa cada vez mais, algumas pessoas se adaptam às regras do jogo, ultrapassando os próprios limites. Muitas não têm escolha, é verdade – ou pelo menos acreditam nisso –, mas enquanto compactuarmos passivamente, nada mudará. Do que adianta um boost de concentração se permanecemos alheios e desatentos ao que realmente importa?

Vogue. 2.9.2021.

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