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O eterno retorno do comunismo ao Brasil, cuidado!

Uma simpatizante do Partido Comunista participa de uma manifestação em fevereiro deste ano em Katmandú, Nepal.
Uma simpatizante do Partido Comunista participa de uma manifestação em fevereiro deste ano em Katmandú, Nepal.

Fantasma vermelho está de volta e tem contraindicação, na bula bolsonarista, aos usuários de cloroquina

É mais fácil o Brasil acabar com a lenda urbana do “tratamento precoce” para a covid-19 do que com o tal do comunismo — o espectro que volta a rondar, ao ritmo de uma paranoia delirante, esse país tropical esquecido por Deus e até pelo Curupira que um dia protegeu nossas florestas. Para a obsessão da ineficaz cloroquina, a bula indica a CPI da Pandemia; quanto à assombração comunista, esqueça, não tem cura.

Pelas barbas de molho de todos os marxistas tropicais, esqueça; pelo suor dos uberizados do mundo (uni-vos!), esqueça; pelo despertador do Galo —líder do Movimento dos Entregadores Antifascitas de SP—, esqueça; pelo “Delivery Fight!”, o livro incrível do Callum Cant (editora Veneta) e a sua experiência sob o chicote dos algoritmos na britânica empresa Deliveroo… Esqueça.

O fantasma vermelho é original. Cada vez retorna de uma forma diferente. Cuidado, Morengueira, isso dá um samba de breque. Agora o comunismo chegou grudado na defesa que a ótima atriz Juliana Paes fez da médica Nise Yamaguchi, colaboradora do bolsonarismo negacionista. Nise teria sido vítima da indelicadeza dos senadores da CPI. Há controvérsias, mas é do jogo das opiniões, sem drama. O diabo — esse sem-teto gabiru que habita os detalhes e as calçadas da fama— é que a atriz não se contentou em apenas servir de escudo à doutora e atacou, pasme, os “delírios comunistas da extrema-esquerda”.

E lá estava o comunismo de volta ao Brasil mais uma vez. Até o fechamento desta crônica, algum palácio de inverno da burguesia de Campos de Jordão estava prestes a ser tomado pelo camarada Lenine e sua destemida gente. A sorte é que a tropa do general Pazuello, novo patrono do Exército brasileiro pós-Caxias, ufa, estava mui atenta.

O país acabou com a saúva, caríssimo Macunaíma, e não acabou com o comunismo. Muito protozoário e pouca saúde, os males do Brasil são.

Esqueça, o comunismo sempre bate e baterá à nossa porta. Quando perdemos para o timaço da Hungria, na Copa do Mundo de 1954, na Suíça, quem foi o culpado? Pago uma grade de cerveja para quem adivinhar. Quem arrisca? Óbvio que levamos de 4×2 da equipe de Puskas por causa de um “complô comunista” do qual fazia parte o árbitro inglês Arthur Ellis, vermelhíssimo de carteirinha do partido, segundo a imprensa brasileira. A revista “O Cruzeiro” chegou a mandar uma equipe de reportagem a Londres para investigar as ligações ideológicas do juiz com a Cortina de Ferro. O site da CBF até hoje mantém essa lenda na memória.

Qual foi a sua primeira assombração, leitor e leitora, com o comunismo? Tenho várias boas histórias sobre o assunto, mas lembro, especialmente, de quando um debate tomou conta das ruas de Juazeiro do Norte, na batalha Lula X Collor em 1989. O marketing collorido espalhou que os comunas do PT iriam pintar de “encarnado” a estátua do padre Cícero. Uma chuva de panfletos com o santo popular todo vermelho inundou a região do Cariri cearense. Um Deus nos acuda.

O eterno retorno dos comunistas. Eles nunca chegam, mas o delírio sempre rende muita confusão e votos aos picaretas. O que seria da extrema-direita fascista sem esse fantasma? Comentários (de certa forma ingênuos) como o da atriz global só ajudam a engordar o bicho da vermelhidão para 2022. Buuu!

Xico Sá, escritor e jornalista, é autor de “Os machões dançaram —crônicas de amor & sexo em tempo de homens vacilões” (editora Record).

El País. 4.6.2021.

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