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“Um novo patamar etílico, o destilado da cana”

Por Charles Santiago

Após o último texto,  Sejamos o que podemos ser, publicado aqui na Factótum, no mês de janeiro, recebi, de uma nobre leitora, a perspicaz indagação: “como é possível, no tempo atual, esperançar? A morte não é o maior de nossos pesadelos, pelo contrário, por vezes, é bálsamo no vale de lágrimas em que nos encontramos – o mal e sua banalidade – “o epílogo da dignidade humana””.

De posse da provocação, diga-se de passagem, uma bela afronta, aturdido com a veracidade dilemática, distanciado socialmente pelo tempo pandêmico, tomei nas mãos uma cerveja e ali, naquela tarde de sábado, entre um gole e outro, Adoniran Barbosa, da vitrola, musicava o momento, dando crédito para as palavras indagativas da querelante: “Lá no morro quando morre uma criança, o comentário é geral, dizem logo, este não vai sofrer, se libertou, se livrou do mal”.

Todo ajuizado sabe que o bom questionamento é sempre um ato de filosofia – sabedoria que, na atual conjuntura, é arrazoada pelos incautos, que pressionados pelo obscurantismo esquecem de sua utilidade: “a inutilidade prosaica”, mas, é digno de nota, há de se compreender – o momento contemporâneo, orquestrado pelo negacionismo, prodigaliza estupidez, ignorância.   

Sozinho, assanhado pela questão filosófica, tão bem provocada pela altiva leitora, de posse de uma cerveja gelada, ao som do samba, atentamente libava a materialização profética dos versos de Belchior, “que essa pergunta torta, feito faca, corte a carne de vocês”. É certo que não só cortava sem dó, nem piedade, mas sequestrava-me solenemente da doce ilusão – “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”, deixando comigo a triste sensação: “impossível esperançar num tempo em que se busca a explicação para o óbvio – a magnitude da vida e os dissabores de sua finitude existencial”.

Desesperado e sem contragolpe, contrariando o espírito filosófico, a resposta perde sua importância se o questionamento impacienta reflexão, bastante avexado, quase de porre, gastava todo um tinteiro em busca de revides. Infelizmente, entre goles maltados, já gorado, via-me somente amassando papéis, uma vez que, independentemente dos tragos etílicos, a labuta fazia-se homérica – deslindar, filosoficamente, o caminho da esperança. 

Depois de um longo período, perdido entre papéis rasurados e latas de cervejas, com sentimento de fracasso, pausei com a escrita, pois, na ocasião, era impossível tematizar sobre o dilema em que me deparava – responder, singelamente, à inquirição da arguta leitora. Entretanto, em um dado momento, agoniado e já com a cervejeira vazia, a vitrola, como  um ato cênico, talvez guiada pelos orixás, sonorizou Milton Nascimento, com o disco MiNas, ressignificando o sábado solitário.

Naquele instante, mesmo sem o néctar maltado, o ambiente ganhava força e revigorava os ânimos para pensar corretamente sobre o ato de esperançar. Assim, acalorado, tomei posse de uma pinga mineira, a melhor das cachaças, presente do amigo Leandro Costa, e atentei para a poesia de Milton Nascimento: “Agora não pergunto mais pra onde vai a estrada. Agora não espero mais aquela madrugada. Vai ser, vai ser, vai ter de ser, vai ser faca amolada. O brilho cego de paixão e fé, faca amolada”.

O malte cedeu espaço para o destilado da cana e, em um novo patamar etílico, a tarde ganhava outros ares, rumava para novos horizontes filosóficos: responder com dignidade minha querelante – “faca amolada – faca afiada – faca incomodada”.

 Ah, minha gente! Aos goles da beberagem mineira, alvissarado com os poemas de Milton, aprendi que esperançar não é somente utopia, mas, para além disso, é construção de carreiros, sendo preciso fazê-los – nas palavras de nosso poeta: é “plantar o trigo e refazer o pão de cada dia. Beber o vinho e renascer na luz do dia”. Desse modo, a incerteza do que virá não pode nos tirar a condição da renascença – de sonhos que hão de ser, a todo custo, enfrentamento e resistência para a constituição de um lugar em que, livres, podemos ser o que desejarmos nesta breve paragem: “a finitude existencial” – a Faca amolada.

O sábado seguia o seu curso, varava noite  adentro, mas, é preciso dizer, depois dos versos cantarolados pelo disco MiNas,  em uma noite enluarada, já desacorçoado com o problema filosófico, restava-me dar cabo da beberagem mineira e felicitar minha leitora pelo prazer da provocação filosófica. Mas eu não posso negar, pelas tantas, chafurdado em boa pinga, tudo parecia em movimento, literalmente rodando e solfejando: “A fé, a fé, paixão e fé, faca amolada. O chão, o chão, o sal da terra, faca amolada”.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural. Autor do livro Filosofia de Boteco.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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