Ir para conteúdo

“Sejamos o que podemos ser”

Por Charles Santiago

Após inúmeras cervejas, justamente na virada do ano, madrugada adentro e já sozinho, loucamente entorpecido com o néctar dionisíaco, com a carcaça avexada do ano pandêmico, ali entre um gole e outro, ao som da chuva, como se chorassem de alegria os deuses, afinal, o que parecia impossível chegara ao seu fim – “o ano de 2020”. Pensei com os meus botões, contrariando o velho filósofo, “a esperança não pode ser somente a paixão dos fracos” – ah, não! Esperançar é mais do que esperar,   sonhar, é ser o que não se pode ser – o impossível, o improvável,  o aventureiro de La Mancha.  

É sabido que no ano que não mais existe alargamos o machismo, exacerbamos o racismo, avolumamos o feminicídio – é certo dizer: o mal nunca esteve tão banalizado. Mas também, é digno de nota, desenvolvemos uma solidariedade rara – seja para com os nossos mortos e seus familiares, como também para com a vida alheia e seus dramas sociais.

É possível dizer que, sensibilizados, assistimos a humanização de tantas profissões que foram reinventadas, especialmente, para socorrer os mais necessitados. O que parecia impossível se desvelou com altivez, marejou o olhar da medicina e nunca, mas nunca mesmo, o juramento de Hipócrates fora posto à prova. Compreendemos que os médicos choram, são humanos.

A ciência, tão desacreditada pelos infames, deixou de ser artigo de luxo, fez-se amiga, companheira e, como em um passe de mágica, resgatou seu prestígio. Na verdade, mais do que isso, contrariando seus algozes, deu-nos esperança de sonhos, de vida. 

A escola, ah minha gente, fez uma revolução! Derrubou os seus muros e ampliou seus horizontes – ganhou as ruas, as casas e os barracos, seja no campo ou na cidade. Usou da tecnologia como instrumento para encurtar distâncias. Abraçou, indistintamente, homens e mulheres e os alçou à condição de colaboradores educacionais.

A universidade, “lugar de balburdia”, semelhante à escola, fez a sua parte.  Para além da promoção da ciência, garantiu ensino, arte, cultura e, o imprescindível, fez valer, com os braços extensionistas, a vida, a cidadania.

Não é custoso dizer: “esses espaços jamais serão os mesmos, ou melhor, nós jamais seremos os mesmos”.

 No entanto, não nos enganemos: tudo isso devemos, sem sobra de dúvidas, aos homens e mulheres que devotaram suas vidas ao magistério. Mestras e mestres que, resolutos, reinventaram o seu cotidiano para significar o conceito de escola, de universidade, o conceito de gente. Por vezes, criticados, incompreendidos, mas perseguem um destino: produzir sabor no saber.

Por tudo isso e mais um pouco, não podemos deixar que nossa esperança agonize, mesmo ciente de tamanhas tragédias que nos acometeram no ano de 2020, pelo contrário, neste ano que se inicia renovemos nossas esperanças e, aos versos de Gonzaguinha, possamos cantar o seguinte: “nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs… deixa a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!”

Fé, minha gente! Mesmo que pareça impossível, vamos sonhar juntos! Esperancemos unidos e, com Belchior, escancaremos nosso grito: “ano passado eu morri, mas este ano eu não morro, mesmo tendo sangrado demais”. Mesmo tendo morrido demais, tenhamos fé, – “fé na vida, fé no homem, fé no que virá”. Fé no que podemos fazer e ser neste novo tempo –ano de 2021.

Ainda ali, sozinho, perdido em meus pensamentos, ao som da chuva, tomei nas mãos mais uma cerveja e felicitei o ano que se inicia – eu o recebi com devoção e apreço, mas não deixei, mesmo embriagado, de fazer uma prece às divindades: “que o amanhã não nos atormente tanto. Que saibamos suportar o fardo existencial e que, acima de tudo, na brevidade da vida, vivamos loucamente o que podemos ser – uma faina poética”.

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

Um comentário em ““Sejamos o que podemos ser” Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: