Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Outro dia li O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto, e tive a estranha sensação de que o conto havia sido escrito ontem.
A ideia deste texto surgiu depois que minha amiga Vera Guilherme me enviou uma postagem relacionando os gurus modernos ao velho conto de Lima Barreto. Ri quando li. Depois pensei melhor. E quanto mais pensava, mais difícil ficava discordar.
Para quem não conhece a história, o protagonista descobre que não precisa saber javanês. Precisa apenas convencer os outros de que sabe. E convence. Ganha prestígio, dinheiro, respeito e oportunidades. Tudo isso sem conhecer praticamente uma palavra do idioma.
Enquanto lia, comecei a imaginar o que aconteceria se o personagem surgisse em 2026.
Provavelmente ele não diria que sabe javanês.
Diria que domina Neuroalquimia Sistêmica Integrativa Quântica.
Ou Reprogramação Vibracional de Alta Performance.
Ou Engenharia Multidimensional da Prosperidade.
Talvez criasse um perfil nas redes sociais, colocasse uma foto ao lado de um carro importado alugado, gravasse vídeos olhando para o horizonte e explicasse que descobriu um segredo milenar escondido pelos cientistas, pelos governos, pelos filósofos e, aparentemente, por toda a humanidade até a semana passada.
O mais curioso é que a crítica de Lima Barreto nunca foi apenas contra o impostor.
O verdadeiro alvo era a plateia.
Porque o barão do conto não é enganado apenas pela inteligência do farsante. Ele é enganado pela própria vaidade. Quer acreditar que está aprendendo algo raro, exclusivo e sofisticado.
Mais de cem anos depois, continuamos parecidos.
Mudaram os cenários. Saíram os salões aristocráticos. Entraram os podcasts, os reels, os grupos de WhatsApp e as lives motivacionais.
Mas permanece a mesma tentação humana: acreditar que existe um atalho secreto para os problemas da vida.
Queremos enriquecer sem errar.
Evoluir sem sofrer.
Curar sem mudar hábitos.
Encontrar sentido sem atravessar o desconforto das perguntas difíceis.
Nessa busca, surgem vendedores para todos os gostos.
Há gurus da prosperidade.
Profetas da produtividade.
Mestres da sedução.
Especialistas em felicidade.
Xamãs corporativos.
Monjes de LinkedIn.
E até alquimistas quânticos que conseguem misturar física, espiritualidade, empreendedorismo e signos numa única palestra de duas horas.
Claro que existem excelentes coaches, mentores, terapeutas, professores e profissionais sérios. Generalizações costumam ser preguiçosas.
O problema começa quando alguém vende certezas onde só existem probabilidades.
Quando transforma complexidade em slogan.
Quando substitui estudo por marketing.
Quando troca conhecimento por performance.
Quando a embalagem vale mais que o conteúdo.
Nesse momento, o javanês reaparece.
Não necessariamente como uma língua exótica.
Mas como uma coleção de palavras bonitas que impressionam muito mais do que explicam.
No Direito, o javanês também circula livremente. Às vezes aparece em latim, às vezes em petições quilométricas, às vezes em promessas milagrosas de sucesso processual. Como no conto de Lima Barreto, há quem descubra que impressionar pode ser mais lucrativo do que estudar. Nem sempre funciona. Mas funciona mais vezes do que deveria.
Enfim, o mercado mudou. O idioma também. O conto continua o mesmo.
Talvez essa seja a grande lição de Lima Barreto: o mundo sempre produzirá novos vendedores de javanês. O desafio é não nos tornarmos compradores compulsivos.
Afinal, entre o conhecimento verdadeiro e a ilusão confortável, a ilusão costuma ter um departamento de marketing muito melhor.
E, convenhamos, se um sujeito conseguiu construir uma carreira inteira fingindo saber javanês, imagine o que faria hoje com um perfil no Instagram, uma câmera 4K e uma assinatura mensal de R$ 97,00.
Lima Barreto certamente estaria gargalhando.
E provavelmente escrevendo a continuação.
📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:
E não se esqueça: Sábado, nossa coluna “Escrever para Não Enlouquecer” fala sério — mas só porque o universo exige equilíbrio. Segunda a gente volta com humor para os dias difíceis.

⚡ Neemias Moretti Prudente é escritor quântico – entre mundos!





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