Há conceitos que entram na criminologia como um martelo. Não chegam pedindo licença. Chegam quebrando vitrines teóricas. A necropolítica é um deles.

Nos últimos anos, esse tema passou a aparecer com frequência em concursos públicos, debates acadêmicos, provas discursivas e discussões sobre criminologia crítica, sistema penal, seletividade criminal e direitos humanos.

Mas afinal: o que é necropolítica? Qual sua relação com a criminologia? E por que esse conceito se tornou tão importante para estudantes, pesquisadores e candidatos de concursos?

Vamos destrinchar isso sem transformar o texto num sarcófago acadêmico ilegível.


☠️ O que é necropolítica?

A necropolítica é um conceito desenvolvido pelo filósofo camaronês Achille Mbembe.

Em linhas gerais, necropolítica significa:

o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer.

Mbembe parte das reflexões de Michel Foucault sobre biopolítica.

Biopolítica x Necropolítica

Foucault afirmava que o Estado moderno passou a administrar a vida:

  • saúde pública,
  • natalidade,
  • higiene,
  • sexualidade,
  • disciplina social,
  • controle dos corpos.

Ou seja, o poder passou a “gerenciar a vida”.

Mbembe dá um passo além e afirma:

em muitos contextos, o poder não apenas administra a vida, mas organiza a morte.

Daí nasce a necropolítica.

O Estado, instituições ou estruturas de poder passam a definir:

  • quais vidas merecem proteção;
  • quais vidas podem ser descartadas;
  • quais grupos serão expostos à violência, abandono e morte.

É quase como se certas populações fossem colocadas numa “zona de sacrifício social”.

Pesado? Sim.
Importante? Muito.


Necropolítica e criminologia

Na criminologia, a necropolítica ganhou enorme relevância principalmente dentro da:

A razão é simples:

a criminologia contemporânea começou a perceber que o sistema penal não atinge todos igualmente.

O Direito Penal, ao menos no discurso oficial, seria neutro. Mas na prática?

Nem tanto.

A necropolítica ajuda a explicar:

  • seletividade penal;
  • encarceramento em massa;
  • violência policial;
  • marginalização social;
  • abandono de determinadas populações.

A seletividade penal

Aqui está um dos pontos mais cobrados em concursos.

A criminologia crítica sustenta que o sistema penal seleciona preferencialmente determinados grupos sociais.

Quem costuma ser mais abordado?
Quem mais morre?
Quem mais é preso?
Quem sofre maior vigilância estatal?

A resposta revela um padrão histórico e estrutural.

Nesse contexto, a necropolítica funciona como uma lente para compreender:

  • por que certas vidas parecem valer menos;
  • por que determinadas mortes causam pouca comoção social;
  • por que algumas populações vivem permanentemente sob ameaça.

Necropolítica no Brasil

No Brasil, o conceito costuma ser associado a:

  • guerra às drogas;
  • letalidade policial;
  • violência nas periferias;
  • genocídio da população negra;
  • sistema penitenciário degradante;
  • abandono estatal.

Muitos estudiosos argumentam que determinadas regiões vivem sob um verdadeiro “estado permanente de exceção”, onde direitos fundamentais são fragilizados diariamente.

Enquanto alguns bairros recebem:

  • investimentos,
  • segurança,
  • infraestrutura,
  • políticas públicas,

outros recebem:

  • operações violentas,
  • ausência estatal,
  • abandono,
  • hipercriminalização.

A crítica criminológica pergunta:

o sistema penal protege igualmente todas as vidas?


Necropolítica e o sistema prisional

O sistema penitenciário aparece frequentemente nesse debate.

Prisões superlotadas, insalubres e violentas levantam uma questão central:

o cárcere ressocializa ou administra sofrimento?

Autores críticos sustentam que muitas prisões funcionam como depósitos humanos.

A pena deixa de ser apenas privação de liberdade e passa a envolver:

  • degradação física;
  • destruição psíquica;
  • abandono institucional;
  • exposição constante à violência.

Nesse cenário, alguns criminólogos enxergam manifestações necropolíticas dentro da própria estrutura prisional.


Relação com a criminologia crítica

A necropolítica dialoga fortemente com a criminologia crítica porque ambas questionam:

  • neutralidade do sistema penal;
  • atuação seletiva do Estado;
  • desigualdade estrutural;
  • criminalização da pobreza.

A criminologia crítica entende que o crime não pode ser analisado isoladamente, sem observar:

  • relações de poder;
  • economia;
  • desigualdade social;
  • interesses políticos.

Já a necropolítica acrescenta:

  • a gestão da morte,
  • do sofrimento,
  • e da exposição à violência como instrumentos de poder.

⚖️ Autores importantes para estudar

Achille Mbembe

Criador do conceito de necropolítica.

Michel Foucault

Desenvolveu a teoria da biopolítica e análise das relações de poder.

Eugenio Raúl Zaffaroni

Crítico do poder punitivo e da seletividade penal.

Angela Davis

Debate encarceramento em massa, racismo estrutural e sistema prisional.

Loïc Wacquant

Analisa marginalidade urbana e expansão do Estado penal.


Necropolítica em concursos públicos

O tema aparece principalmente em provas de:

  • Criminologia;
  • Direitos Humanos;
  • Sociologia Jurídica;
  • Filosofia do Direito;
  • Segurança Pública.

Especialmente em concursos para:

  • polícia;
  • tribunais;
  • defensorias;
  • Ministério Público;
  • área acadêmica.

O que costuma cair?

1. Conceito

Necropolítica como gestão da morte ou poder de decidir quem vive e quem morre.

2. Relação com biopolítica

Diferença entre administração da vida e administração da morte.

3. Seletividade penal

Atuação desigual do sistema penal.

4. Violência estatal

Uso excessivo da força e exclusão social.

5. Criminologia crítica

Questionamento da neutralidade do poder punitivo.


Exemplo de questão discursiva

Explique a relação entre necropolítica e seletividade penal no contexto da criminologia crítica.

Estrutura ideal da resposta:

  1. Conceituar necropolítica;
  2. Explicar seletividade penal;
  3. Relacionar atuação desigual do sistema criminal;
  4. Mencionar grupos vulnerabilizados;
  5. Concluir com crítica criminológica ao poder punitivo.

Pegadinhas de prova ⚠️

❌ Necropolítica não significa simplesmente “política de morte”.

A análise é mais profunda:
envolve estruturas de poder e gestão diferencial da vida.

❌ Não é sinônimo de genocídio.

Pode envolver abandono, exclusão e exposição sistemática à violência.

❌ Não pertence exclusivamente ao Direito Penal.

O conceito é interdisciplinar:

  • filosofia,
  • sociologia,
  • criminologia,
  • ciência política,
  • direitos humanos.

Conclusão

A necropolítica se tornou uma das chaves mais importantes para compreender o funcionamento do poder contemporâneo.

Ela provoca uma pergunta desconfortável:

todas as vidas possuem o mesmo valor para o sistema?

Na criminologia, esse conceito ajuda a revelar como violência, seletividade penal e exclusão social podem operar de maneira estrutural.

Para estudantes e candidatos de concursos, dominar esse tema não é apenas decorar um conceito moderno. É compreender uma das discussões mais influentes da criminologia contemporânea.

E convenhamos:
alguns conceitos apenas explicam o mundo.

A necropolítica entra na sala e acende a luz fluorescente do necrotério social. 💡☠️

🧩 Não deixe de ler o conteúdo anterior:

✍️ Neemias, Professor de Criminologia.

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