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‘O Gambito da Rainha’ ensina 6 lições para empreendedores

A atriz Anya Taylor-Joy é a protagonista de 'O Gambito da Rainha', a minissérie da Netflix (Foto: Phil Bray/Netflix)

A minissérie já é uma das mais vistas da história do Netflix.

 “O Gambito da Rainha” (The Queen’s Gambit) estreou no fim de outubro na Netflixe já é uma das minisséries mais vistas da história da plataforma. A produção é inspirada em livro de ficção homônimo de 1983, escrito por Walter Tevis.

Em tela, podemos acompanhar a rápida ascensão da jovem órfã Elizabeth “Beth” Harmon (Anya Taylor-Joy) como um prodígio do enxadrismo na década de 1950. Entre as fantásticas cenas das partidas de xadrez, esporte que remonta ao Século VI, vemos Beth lidar com traumas do seu passado e comportamentos de autossabotagem.

Um olhar mais atento, contudo, vai conseguir extrair da série importantes dicas de negócios e empreendedorismo, que vão da importância de saber se adaptar rapidamente ao peso da figura de um mentor. Confira:

1. Seja apaixonado

A protagonista da série, Beth, descobre muito nova sua paixão pelo xadrez e faz de tudo para segui-la. Nos negócios, um empreendedor também precisa ser apaixonado pela sua ideia. É o que afirma Luciana Maines, doutora em Administração e professora da Escola de Gestão e Negócios da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). “Empreender não é tarefa fácil. Sem empolgação, motivação e o ‘brilho no olho’ que só a paixão fornece, ter seu próprio negócio pode parecer impossível”, afirma.

Ao mesmo tempo, é importante tomar cuidado para que a paixão pela empresa não seja tanta ao ponto de cegar o founder para os problemas que o empreendimento possa estar enfrentando. É sempre importante lembrar que a opção por promover mudanças ou até mesmo encerrar um negócio não é
sinônimo de fracasso.

O ideal, sugere Luciana, é que o empresário busque um equilíbrio entre razão e emoção. “Empreender significa usar a mente e o coração. Esse é um exercício que precisa ser realizado diariamente. Ser só emoção fará com que os problemas da empresa não sejam vistos, impedindo seu crescimento. Por outro lado, ser somente razão faz com que se perca a sensibilidade, levando a situações como ignorar singelas sugestões de clientes que contribuem para sua fidelização, por exemplo”, diz a especialista.

2. Seja flexível

O xadrez é um esporte de estratégia, então é importante que ela seja bem definida. No decorrer da partida, contudo, diante de algum movimento inesperado do adversário, pode ser necessário adaptá-la e improvisar.

Um bom empreendedor tem estratégia, metas e planos bem definidos. Mas ele não deve se manter preso a esse planejamento a qualquer custo. Ambiente, mercado, fornecedores, colaboradores… Essas são apenas algumas variáveis com as quais o empreendedor precisa lidar – e como o próprio nome sugere, estão sujeitas a mudanças. Nesse sentido, ter capacidade de adaptação é fundamental para um empresário.

“Essa analogia pode ser feita nos negócios. É preciso trabalhar não só competências técnicas, mas emocionais, a fim de estar o mais preparado possível quando reveses ocorrerem. Seja uma mudança cambial, a entrada de um novo player no mercado, dificuldades com fornecedores, questões político-legais, enfim, sempre haverá situações que vão demandar contingências do empreendedor. Estruturas enxutas e processos que permitam agilidade e flexibilidade do negócio para se moldar aos novos contextos certamente trazem consigo vantagem competitiva frente aos demais”, explica Anelise Bittencourt, coordenadora da graduação em Administração da ESPM em Porto Alegre (RS).

3. Aprenda com seus concorrentes

Em “O Gambito da Rainha”, durante o percurso para se tornar uma enxadrista sensacional, Beth aprende que é preciso analisar e estudar muito bem seus adversários de jogo. Assim como faz a protagonista da série, um empreendedor deve conhecer muito bem seus principais concorrentes e concorrentes em potencial.

“Analisar constantemente a concorrência é uma das atividades que devem ser rotineiras do empreendedor, até para manter-se a par do que vem sendo feito no mercado, como a questão da tomada de preços, atendimento ao cliente, oferta de produtos e serviços, etc. A partir daí, pode-se traçar um plano de ação com base no que foi observado, aproveitar as oportunidades a partir de deficiências encontradas no concorrente ou, ainda, explorar segmentos não atendidos”, pontua Anelise.

Importante ressaltar que aquela imagem do concorrente como inimigo ficou no passado. Luciana Maines comenta que a “onda”, agora, é a da colaboração. Considerar parcerias, inclusive, com seus concorrentes, portanto, pode ser uma boa pedida.

“Temos muitos exemplos de concorrentes que trabalham juntos para fortalecer seu setor. Um exemplo muito bom é o do ramo de microcervejarias artesanais. Muitas delas trabalham coletivamente para disseminar a cultura do produto e para compartilhar insumos, conhecimento, e mesmo os clientes. É um jogo de ‘ganha-ganha’”, comenta.

4. Não se abale por um “não!”

Quem ensinou Beth a jogar xadrez foi o senhor Shaibel (Bill Camp), funcionário do orfanato onde ela morava e que era um enxadrista talentoso. No início, ele fica reticente em ensiná-la, mas a menina tanto insiste que ele, eventualmente, cede. Qualquer empreendedor com quem você converse vai dizer que já ouviu muitos “nãos” na vida, vindos de figuras como potenciais clientes e investidores, mas isso não foi suficiente para fazê-los desistir.

Segundo Anelise Bittencourt, o “não” faz parte do jogo de todo negócio. Consigo, a negativa traz uma série de significados e possibilidades, diz a docente, e o modo com que o empreendedor vai encará-la depende de sua maturidade. Por vezes, trata-se de uma mensagem clara de que o projeto ainda precisa de ajuda. Em outras, a abordagem foi equivocada, seja pelo timing ou pelo interlocutor. Isso para citar algumas possibilidades. O importante, afirma Anelise, é tentar analisar de forma racional o retorno negativo.

“Uma palavra que está muito na moda e que aqui faz muito sentido é ‘resiliência’, ou seja, a capacidade de, mesmo após um abalo, o empreendedor se fortalecer para o próximo desafio. Empreender pode mesmo ser visto como um jogo de xadrez, onde o planejamento é fundamental, mas resiliência para sobreviver aos vieses não esperados do mercado sem dúvida é o ‘xeque-mate’”, diz.

5. Considere uma mentoria

Na série, o senhor Shaibel acaba, de certa forma, atuando como um primeiro mentor para Beth. Mais tarde, quem ocupa o posto é Benny Watts (Thomas Brodie-Sangster), um dos jovens mais talentosos dos Estados Unidos no fictício mundo do xadrez na série. No ramo empresarial, considerar uma
mentoria é bastante interessante.

Luciana Maines afirma que ter um mentor é ter um “ombro amigo”. Preferencialmente, essa figura é alguém com mais experiência empreendedora, de gestão ou que já atua no setor em que o empresário está se aventurando. Obviamente o mentor não terá todas as respostas, mas sua ajuda e seus conselhos são muito valiosos para empreendedores iniciantes.

“O empresário deve sempre buscar ampliar sua rede de contatos. Assim, fica mais fácil se identificar com quem pode ser considerado o seu mentor. O mentor pode estar em qualquer lugar. Pode ser, por exemplo, um participante da mesma associação, ser um ex-colega, ex-professor ou até mesmo um
familiar ou amigo”, comenta.

Anelise sugere ainda que o mentor oferece um direcionamento qualificado para que o empreendedor não se deixe levar por emoções ou, até mesmo, negligencie aspectos relevantes do negócio.

“Atualmente muitos professores e consultores estão dispostos a auxiliar, até mesmo de forma gratuita empreendedores de primeira viagem. O Linkedin é uma excelente ferramenta de networking que oportuniza essas conexões. Participar de eventos relacionados ao empreendedorismo e inovação certamente também abrirá muitas perspectivas neste sentido”, explica a professora.

6. Postura importa

Beth era uma simples órfã no início da série e, aos poucos, transforma-se numa mulher elegante, uma personalidade que desperta o interesse da mídia. O figurino da série é um show à parte. A afirmação pode parecer ultrapassada, mas um empreendedor também deve se preocupar com a aparência e com a impressão que transmite à sociedade, especialmente em tempos de redes sociais, onde a exposição foi acentuada.

“A questão da imagem pessoal é algo que merece bastante atenção, em especial se o empreendedor for quem tem contato direto com os clientes finais. As pessoas se conectam com pessoas e causas, de forma que, dependendo da imagem que o empreendedor passa, ela pode alavancar ou, até mesmo,
prejudicar o negócio. De qualquer forma, acho que vale a reflexão sobre pensar mais antes de se expor nas redes sociais, a forma, a linguagem utilizada em um post, evitar discussões polêmicas… Tudo isso é passível de reverberar no empreendimento”, pontua Anelise.

No mesmo sentido, Luciana diz que o principal embaixador do negócio acaba sendo seu proprietário, sendo que seu comportamento dele vai acabar refletindo na forma com que o mercado enxerga a empresa.

“Manter uma postura respeitosa, não só com clientes, mas com todos que interagem com a
empresa, é um sinal de postura ética. Se o empreendedor é desrespeitoso nas redes sociais, pode ser também desrespeitoso e despreocupado com a qualidade do produto. Cada vez mais atuais e futuros clientes estão atentos a isso, buscando das empresas, e de seus proprietários e colaboradores, uma
postura ética, social e ambientalmente responsável, independentemente do tipo de negócio”, orienta a docente da Unisinos.

Estadão. 17.12.2020.

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