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Pro dia nascer feliz: mais de uma década depois

pro dia nascer feliz: mais de uma década depois

O filme de João Jardim, lançado em 2005, mostra a realidade da educação brasileira naquele período. Ele é, porém, ainda um retrato bastante fiel do projeto de desmonte da educação brasileira. Breve análise do que foi abordado no documentário, com o convite para assistir ou reassistir.

As escolas visitadas para as filmagens foram: 1. Escola Maria Alzira de Oliveira Jorge, Manari, Pernambuco. 2. Escola Coronel Manoel de Souza Neto, Manari, Pernambuco. 3. Escola Antonio Guilherme Dias de Lima, Inajá, Pernambuco. 4. Colégio Estadual Guadalajara, Duque de Caxias, Rio de Janeiro. 5. Colégio Santo Inácio, Duque de Caxias, Rio de Janeiro. 6. Escola Estadual Levi Carneiro, São Paulo, São Paulo. 7. Escola Estadual Parque Piratininga II, Itaquaquecetuba, São Paulo. 8. Colégio Santa Cruz, São Paulo, São Paulo.

Aqui vemos uma diversidade considerável de escolas, tanto no que diz respeito à localização, quanto sua estrutura. Apesar do documentário de João Jardim ter sido produzido entre os anos de 2004 e 2005, lançado em 2007, ainda podemos considerar, mais de uma década depois, que as realidades apresentadas da educação brasileira ainda são bastante contemporâneas.

As primeiras 3 cidades citadas, todas em Pernambuco, mostram uma realidade bastante dura. Locais onde não há ao menos saneamento básico, e os que possuem, contam com uma infraestrutura bastante precária. No caso de Inajá, por exemplo, uma das grandes dificuldades ocorre antes mesmo de adentrarmos o ambiente escolar: existe pouco transporte até a escola e o mesmo frequentemente se encontrava quebrado.

Ao chegar ao local, alguns outros fatores se mostram fato: encontrar uma sala de aula sem docente. Muitos fatores estão envolvidos nisso. Parte disso é a falta de infraestrutura, também para os professores, o que leva a um ponto em comum em todas as escolas públicas visitadas: a evasão e o desinteresse. O profissional, além de encontrar condições precárias para realização de sua profissão, ainda lida com a falta de interesse de muitos de seus alunos.

É citado, logo no começo, como o repasse de verbas é feito na primeira escola, de forma que um valor já insuficiente ainda é taxado em impostos e adequações que não permitem nem que haja descarga nos banheiros. Ambientes tão hostis para a realização de uma formação são extremamente desencorajadores, ainda mais quando pensamos em realidades rurais e periféricas, onde a infância é muitas vezes tomada pela necessidade do trabalho laboral ou doméstico dos indivíduos. Há, neste documentário, 3 meninas, em cidades diferentes, que possuem muito interesse no estudo, inclusive um talento para a escrita formidável, mas cujos sonhos são tolhidos pelo próprio ambiente educacional: professores que desacreditam da autoria dos trabalhos, ou seja, do potencial do próprio aluno, bem como poucas perspectivas de que a dedicação ao estudo possa gerar uma realidade diferente.

É compreensível, porém, a postura dos docentes em torno dessa dura realidade. Como relatado por uma professora na cidade de São Paulo, muitas das ausências acontecem por estafa, pois os profissionais acabam em maior ou menor grau se envolvendo com a realidade de seus alunos, e se deparar com tanta dureza na vida de pessoas tão novas podem trazer uma carga psicológica bastante grande para o profissional da educação. A postura do conselho de classe filmado também demonstra um pouco disso. Existe um ponto onde a simples presença do aluno já é um sinal de possível esperança na mudança de comportamento do mesmo, enquanto porém há colegas os quais, bem como seus alunos, já não enxergam perspectiva.

Tais fatores levam a uma outra realidade muito presente entre os alunos entrevistados: a violência e o crime. A falta de estrutura para que existem aulas de maneira adequada, a ausência dos profissionais (pelos fatores já citados) levam a um ciclo perigoso. Há pouco interesse dos alunos nas aulas, o que tira o incentivo dos profissionais. Todos os fatores somados levam à evasão, a evasão leva estes jovens ao ócio, o que torna todo o entorno do tráfico e da violência sedutor; afinal, sem perspectiva, estes jovens em situação de vulnerabilidade sentem que pouco tem a perder. Esse fato comportamental se mostra bastante presente quando o filme lida com a escola estadual de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e em Itaquaquecetuba, em São Paulo. Diferente das realidades paupérrimas encontradas nas zonas mais longínquas de Pernambuco, aqui lidamos com realidades metropolitanas, urbanas, onde a sedução da violência e do crime é bastante presente na rotina destes jovens. É citado, porém, como a escola pode proporcionar, de alguma forma, uma nova realidade.

Nesse entorno, tão conturbado, vemos aqueles cujas esperanças de alguma forma podem ser renovadas quando mantidos dentro do ambiente escolar. No documentário, um aluno cuja realidade é bastante aproximada do crime, se vê ocupado pelos projetos sociais que envolvem, música, teatro e dança. O próprio relata que ali ele se ocupa, que se estivesse em casa, pouco faria e, se o fizesse, estaria em bailes onde drogas e armas são um cenário corriqueiro. Portanto, podemos observar aqui que só de alterarmos a realidade da localidade escolar, a forma como o empenho dos alunos no ambiente escolar, apesar de ainda difícil, que enfrenta grande evasão e problemas, a escola pode se tornar uma espécie de ponto de esperança. Se recebessem o insumo adequado para melhor trabalho dos docentes, a ausência dos mesmos se tornaria menos intensa e as possibilidades de oferecer um local mais acolhedor aos jovens também aumentaria.

Com essa questão, é então introduzida a realidade existente no Colégio Santa Cruz, colégio particular tradicional da elite paulistana. Ali, vemos o debate da realidade social de sua cidade, de uma forma extremamente metafórica, pois não se trata da rotina das meninas. Aqui as maiores preocupações são com se manter entre os melhores alunos. É visto, também, que as discussões filosóficas acerca de como enfrentar a vida também tomam um espaço maior do que os constatados em escolas cuja realidade socioeconômica era oposta.

Podemos, porém, encontrar similaridades nas preocupações entre jovens em ambas as escolas. A forma de enfrentar a vida pode ser muito distinta devido às instâncias sociais, mas ainda há, em todos esses jovens, as ânsias de como se relacionam, suas relações com seus pais, com seus colegas. A forma como cada um, em sua realidade, tem mais ou menos ferramentas para lidar esses conflitos comuns da faixa etária é o que marca a principal diferença entre a realidade relatada dos alunos entrevistados ao final do filme.

A partir da análise das estatísticas feitas pelo IDEB (2017-2019), pode-se concluir que apesar do aumento do número de alunos em sala de aula, o número de profissionais de qualificação adequada para a etapa de ensino ainda é insuficiente, levando então a pensarmos a situação de superlotação nas escolas, realidade das grandes metrópoles como do estado de São Paulo. A superlotação das salas de aula não garante a atenção adequada aos alunos, muito menos o acompanhamento necessário para que se desenvolvam socialmente de forma saudável, bem como academicamente.

Apesar do crescimento evidente do IDEB de 2017 para 2019, vemos, porém, uma pequena alteração do que visto no documentário Pro Dia Nascer Feliz, de 2007: Pernambuco foi estado que apresentou maior índice de melhora nas médias nacionais, segundo o instituto.

Não podemos perder de vista, inclusive, que essas médias ainda estão longe do ideal, que as condições da grande maioria das escolas públicas do estado e município analisados ainda é de superlotação, falta de insumo adequado para o desenvolvimento escolar e sociocultural dos alunos. Apesar das melhoras, ainda existe um longo caminho a ser seguido. Caminho esse que sofrerá duras penas, tendo em vista que nossa próxima análise feita pelo IDEB contará com os danos na educação causados pela pandemia do Sars-Cov-2, do ensino remoto e todas as suas possibilidades e falhas.

Por Daniela D’errico. Obvious.

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