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Felicidade: Buscar o prazer e fugir à dor, simples assim

A felicidade é apenas um sentimento. Ela vem e passa. Sentí-la é o nosso objetivo e ela não está distante. Basta ter um novo olhar para ela… e aí, descobrimos que ela está muito próxima.

A busca pela felicidade percorre toda a história da humanidade. Ser feliz pode ser um estado de espírito, um sentimento, muitas vezes fugaz, que fornece ao ser humano uma experiência positiva e prazerosa. Vivemos em uma época em que se vende (ou tenta vender) a felicidade através de uma exploração de desejos comuns, como um carro novo, uma casa maior e confortável, viagens, roupas, em bens afinal. Neste caso, o “ser feliz” se encontra no exterior do indivíduo e não no seu interior. ”Tudo para nós está em nosso conceito do mundo (…) pois ele nunca será, para nós, senão o que é para nós”, afirma Fernando Pessoa. Será que a felicidade se encontra em objetos, ou tem a sua base em nós?

É neste sentido que considero a abordagem de Epicuro, sobre a felicidade, a mais simples e a mais factível. Epicuro nasceu por volta de 341 a.C em Samos, morou em Atenas, Cólofon e Lâmpsaco, e veio a falecer em Atenas, por volta de 270 a.C. Escreveu Da Natureza, em trinta e sete livros, mas apenas as suas três cartas ficaram para nós como legado. Uma delas, dirigida a Meneceu. A carta a Meneceu tem como ponto basilar a abordagem da ética que ensina a viver de forma que a felicidade deva ser almejada através da busca do prazer, com vista a alcançar a saúde do espírito. Para ele a vida deve ser vivida de forma intensa, mas não de forma irresponsável. Para se ter uma vida feliz é necessário refletir sobre as grandes questões que afligem o homem, a saber, a morte, o medo, o sofrimento, a angustia, etc e satisfazer os desejos necessários. O princípio de toda escolha ou rejeição, na ética epicurista, é buscar o prazer e fugir à dor.

Epicuro fala para Meneceu, na carta, sobre dois tipos de desejos: os que são naturais (physikaí) e os que são inúteis (kenaí). Os naturais são os desejos humanos que são próprios à natureza, isto é, physis, que são os desejos de comer, beber, ter boa saúde, dormir bem, – que nos fazem afastar da dor do desprazer. Os desejos inúteis ou vazios são os que resultam de opiniões falsas acerca dos desejos, por exemplo, o de poder (política), o de obter bens supérfluos, querer ser bonita através de cirurgias, trabalhar arduamente para comprar uma Ferrari e se sentir o máximo. Esses desejos são, segundo Epicuro, não-naturais nem necessários, portanto, inúteis (kenaí). São vazios e enganosos, pois, ao obtê-lo não satisfaz o indivíduo que já projeta mais e mais, sofrendo desesperadamente a espera da satisfação. Schopenhauer esclarece o desejo com muita clareza ao afirmar que “Todo querer (desejo) tem de nascer de uma necessidade; toda necessidade, entretanto, é uma carência sentida, a qual é forçosamente um sofrimento (…) a satisfação, no entanto é breve e módica: com ela crescem as exigências (…) a satisfação última de um desejo é, nela mesma, apenas aparente.” Schopenhauer está falando dos desejos que Epicuro nomeia como inúteis e vãos, pois não satisfazem o homem, isto é, não o tornará efetivamente contente, não o tornará feliz.

Para o filósofo grego, os desejos que são responsáveis pela nossa felicidade são os naturais, pois trazem bem-estar ao nosso corpo e bem-estar para a própria vida. Portanto, a tão sonhada e almejada felicidade está nas escolhas do que nos dá prazer, porém nem todo prazer. Saber escolher é determinar uma vida simples na busca de prazeres através da satisfação dos desejos necessários. Neste sentido, ser feliz é apenas satisfazer os desejos naturais, como comer, dormir, ter amigos, uma casa para se abrigar, ser saudável de corpo e espírito.

Sei que em um mundo pós-moderno que grita em todas as esquinas que a felicidade será conquistada através do que você possui e não do que você é, fica a impressão que minha weltanschauung (visão de mundo) tem a inocência de uma “Polyana”. Entretanto, em um mundo globalizado que endeusa o consumo, não tenho dúvidas que estamos longe de entender que a felicidade está muito próxima. Necessitamos apenas mudar nosso conceito de felicidade.

Por Hugo Honorato. Obvious.

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