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Cristofascismo, uma teologia do poder autoritário: a união entre o bolsonarismo e o maquinário político sócio-religioso. Entrevista especial com Fábio Py

O modelo de governança do presidente Bolsonaro é sustentado pelo fundamentalismo religioso, diz o teólogo

O uso da linguagem cristã, a apropriação do cristianismo e o aceno que o presidente Bolsonaro faz a determinados grupos religiosos, especialmente aos evangélicos e aos católicos conservadores que formam a sua base eleitoral, indicam uma novidade em relação a outros momentos em que chefes de Estado e líderes religiosos estiveram lado a lado. O traço distintivo desta relação é que “o bolsonarismo se constrói a partir e junto às máquinas sócio-religiosas” e o “maquinário político sócio-religioso de Edir MacedoSilas MalafaiaR. R. Soares e Valdomiro Santiago” está voltado às demandas do bolsonarismo, diz o teólogo Fábio Py à IHU On-Line. A partir dessas relações, o presidente instituiu o que Py vem chamando de “cristofascismo”, uma “forma de governança baseada no fundamentalismo que pratica o ódio aos diferentes”. 
 
De acordo com o pesquisador, Silas Malafaia, pastor pentecostal da Assembleia de Deus, embora seja um “agente quase desprezado” nas análises sobre o bolsonarismo, é não só o principal articulador do presidente no meio religioso, como alguém que tem o potencial de atrair para a base bolsonarista um público que ainda está distante: os jovens. “No evento The Send Brasil, que é uma reaproximação dos movimentos evangélicos do sul dos EUA com o BrasilMalafaia foi um dos pregadores e Bolsonaro também participou. Este é um evento de renovação espiritual dos jovens brasileiros e ocorreu em três grandes estádios, em três regiões do Brasil, simultaneamente, com mais de cem mil jovens. Imagine o poder desse movimento. Na fala de Malafaia, enfatizou-se que os jovens não deveriam perder de vista a importância de seguir o evangelho de verdade, não se curvando aos humanismos e aos esquerdismos das universidades do Brasil”, relata. 
 
Fábio Py interpreta a presença do bolsonarismo entre evangélicos e católicos conservadores como uma consequência do afastamento e da recusa de incluir a religião no debate público. A aproximação destes grupos com Bolsonaro, menciona, pode ser compreendida como um “pagamento da falta de diálogo”. “A esquerda e grupos de reflexão mais crítica quase sempre desprezaram a religião e, principalmente, os setores evangélicos. Eles são tratados quase sempre como manipulados ou dentro do esquema do senso comum”, afirma.  
 
Na entrevista a seguir, concedida por WhatsApp, o teólogo também analisa a leitura que os evangélicos fazem da Bíblia, especialmente do Antigo Testamento, e o impacto destas narrativas nas periferias brasileiras. “No cotidiano da periferia é este imaginário que importa: Isaac lutar contra o anjo, e o profeta lutar tanto a ponto de ir contra Deus, porque, ao lutar tanto, ele mobiliza Deus. A Universal usa essa linguagem o tempo todo, dizendo: você vai orar tanto, tanto, tanto, que Deus vai abrir mão e vai permitir… É uma nova forma de acesso. É escandaloso na teologia tradicional protestante, Deus se curva diante da luta das pessoas, mas… Essa caminhada da indicação da guerra cultural e da guerra bíblica é muito importante para a formação social da periferia”. 
 
Apesar da proximidade de líderes religiosos com o presidente, os sinais de desgaste já começaram a aparecer e, desde o início da pandemia de covid-19, alguns grupos estão reavaliando o apoio incondicional a Bolsonaro. “Algumas estruturas tradicionais, como os protestantes tradicionais, já estão fazendo uma crítica do alinhamento com o governo. Os presbiterianos e os metodistas começaram a fazer uma crítica das ações do presidente durante a pandemia, principalmente por não seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde – OMS”, informa. 

Fábio Py é doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF. Py é autor de Pandemia cristofascista (São Paulo: Editora Recriar, 2020). O livro online está disponível aqui.

Confira a entrevista.

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