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O que é a sociedade? podemos viver longe de uma?

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As pessoas vivem juntas, mas isso não quer dizer que vivam em sociedade. O conceito de sociedade não está ligado à aglomeração ou mera junção de pessoas. Em uma sala de aula, dentro de uma casa, ou em uma cidade podem haver seres humanos, porém a simples existência de pessoas não configura uma sociedade.

Para que haja sociedade é preciso que os indivíduos interajam entre si. É preciso haver relações de interdependência e causa e efeito, ou seja, que o fazer de um interfira na vida do outro. Isso nos leva a uma outra pergunta: somente os seres humanos vivem em sociedade, ou melhor, existe apenas a sociedade humana? É evidente que não. Na natureza, não é difícil encontrar em abundância diversas sociedades formadas por diferentes espécies. Basta olharmos para as formigas que vivem em uma complexa sociedade, repleta de conexões e relações de interdependência. A diferença entre essa sociedade e a humana não se encontra na complexidade do agrupamento, como geralmente costumamos imaginar, mas no fato de que a nossa sociedade é a soma das escolhas individuais de cada indivíduo.

Um ermitão que viva recluso escolheu viver assim, bem como um artista de TV ou cinema escolheu uma vida que exponha sua imagem publicamente, ainda que permita para si ter sua intimidade preservada.

Quanto à complexidade, uma sociedade de abelhas ou formigas pode apresentar um alto grau de divisão de tarefas, onde, de acordo com sua hierarquia, cada membro desempenha um papel de consoante à casta a qual pertence. A diferença está na possibilidade de se pensar em escolhas diferentes para trilhar sua vida. O elemento volitivo, ou seja, a possibilidade de se ter a vontade de escolher (mesmo que, por diversos motivos, a escolha seja cerceada) é o que diferencia a sociedade humana de uma sociedade “natural”. O termo natural aqui empregado se refere ao instinto de sobrevivência, pois um lobo, um animal selvagem, instintivamente, vive em grupo. Ele não escolhe viver em sociedade, mas o faz porque seu instinto de sobrevivência assim o compele.

O lobo selvagem é um animal que vive em alcateias. Em ambiente natural, as alcateias são grupos familiares onde ocorre a divisão de tarefas, que são lideradas pelos progenitores. Geralmente, o macho reprodutor é responsável pela busca por alimento, e a fêmea, pelo cuidado com as crias. A alcateia é constituída pelo casal reprodutor e as crias daquele ano, podendo também ter algumas crias do ano anterior. Em alguns casos, pode ser observada a integração ao grupo de outros membros, como algum familiar do casal progenitor. O tamanho das alcateias depende de alguns fatores, como a disponibilidade de alimento.

Note que um lobo não se pode dar ao luxo de, ao acordar em uma bela manhã e contemplar os raios de sol por entre as árvores da floresta, estender suas patas ao solo e dizer: “que dia lindo, o que estou fazendo perdendo tempo com esses outros lobos que só querem meu mal? Vou sair para explorar o mundo!”

Faz parte da natureza do lobo viver em sociedade, diferentemente do ser humano que escolhe viver em sociedade. E essas escolhas resultam em dilemas que assolam nossa vida, como permanecermos em um emprego que não gostamos para pagar as contas no fim do mês, ou aceitar algum tipo de humilhação social para fazer parte de algum grupo ou ainda estar em um relacionamento devido à pressão social. Inúmeros são os exemplos que corroboram a ideia de que a vida humana em sociedade representa uma escolha, uma sociedade “artificial” e que não segui-la é uma opção, diferente das sociedades naturais, onde os indivíduos não tem a opção de agir de outra maneira. Mesmo que continuemos agindo de uma certa maneira devido à fatores externos a nós (como medo do desconhecido, dificuldades financeiras, comodismo, entre tantos outros), isso não anula a premissa de que temos essa escolha.

Vou voltar ao exemplo das formigas: em 1998, a animação “FormiguinhaZ” (Antz, no original), filme estadunidense dirigido por Eric Darnell e Tim Johnson, conta a estória da formiga Z, filho do meio de uma família de milhares de formigas e, por esse motivo, sente-se insignificante e pouco disposto para a vida que leva. Assim como todas as formiguinhas quando ainda são recém-nascidas, ele foi escolhido para a realização de um trabalho específico, como operário, cavando buracos que servem para a comunidade se locomover debaixo da terra ou ainda para guardar seu alimento. Inconformado com isso, Z vive uma vida de infelicidade e tem o acompanhamento de um terapeuta. Sua existência começa a mudar quando ele encontra, por acaso, a princesa Bala em um de seus momentos de folga e dança com ela.

A perspectiva de reencontrar a jovem aspirante ao trono faz com que ele troque de lugar com um amigo para participar de uma apresentação dos soldados às autoridades do formigueiro. O que ele não desconfia é que o general Mandíbula pretende assumir o trono e acabar com as formigas de hierarquia inferiores. Para isso, declara uma guerra contra os cupins, ocasião em que pretende exterminar os eventuais opositores ao seu plano de controlar ditatorialmente a colônia de formigas. Para se opor à força do general Mandíbula, Z se posiciona como um personagem cheio de ideias e sonhos, que o levarão a conhecer novas realidades e levantar as formigas da colônia contra a opressão dos líderes militares.

Além de tecer uma crítica sobre a relação existente entre a divisão do trabalho das formigas e a linha de produção utilizada pela Revolução Industrial, bem como à obediência hierárquica sem qualquer filtro, o filme aborda algo primariamente humano: a vontade. O que nos faz gostar do enredo é justamente o fato do personagem principal, a formiga Z, apresentar traços volitivos humanos, o que nos mostra que a vida em sociedade é uma escolha humana e não algo natural.

Como bem esclarece Carlos Eduardo Sell (2015), a Sociologia é uma ciência profundamente envolvida com a sociedade moderna. A investigação sociológica constitui um dos meios pelo qual a modernidade tomou consciência de si mesma. A Sociologia é uma forma de conhecimento científico originada no século XIX. Como toda forma de conhecimento, ele reflete as preocupações e necessidades dos homens de seu tempo. O saber sociológico nasce ligado a fatores históricos e sociais. Compreender o contexto no qual esta disciplina nasceu é fator fundamental para se entender as suas características atuais. O surgimento da Sociologia está ligado a um duplo processo que envolve fatores históricos (transformações na estrutura da sociedade) e fatores epistemológicos (transformações na maneira de pensar e abordar a realidade).

Por Renato Collyer. Obvious.

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Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

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