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Como derrotar seu inimigo: Karatê Kid, Não-Violência e Justiça Restaurativa

Fãs de Cobra Kai estão enganados sobre Sr. Miyagi na Netflix; veja

Estou assistindo a uma série de TV muito interessante lançada recentemente, em 2018: Cobra Kai.

Se você nasceu na década de 70, como eu, é provável que tenha assistido ao filme Karatê Kid, drama romântico de artes marciais que foi sucesso de bilheteria na época de seu lançamento, em 1984. O filme conta a história de um jovem, Daniel Larusso, que deseja aprender karatê para se defender de seus “inimigos”, outros jovens que também lutam karatê. Ele convence um experiente mestre japonês a lhe dar aulas, que acabam por transformar-se em lições de vida.

Em toda a história está presente a dicotomia do bem contra o mal, comum nos filmes de heróis. Daniel sofre ataques dos jovens que praticam karatê na escola “do mal” Cobra Kai e enfrenta diversas dificuldades em sua jornada. Ao final, como é de se esperar (sem contar detalhes), o bem vence o mal.

Mas quero falar mesmo do seriado Cobra Kai. A série é ambientada 34 anos após o filme original e foca em Johnny Lawrence, o principal inimigo de Daniel, que decide reabrir o dojo Cobra Kai.

Fiquei feliz em rever os mesmos atores tanto tempo depois! Mas o que mais me surpreendeu foi a mudança no roteiro dicotômico do bem contra o mal. Ao invés disso, os personagens se mostram mais humanos e complexos, com conflitos internos com os quais conseguimos nos identificar e compreender. A história do filme inicial vai sendo recontada sob a perspectiva de Johnny, desconstruindo seu lugar de “vilão”

Os próprios papéis “vilão” e “herói” se tornam mais fluidos e fica mais difícil determinar “quem está certo e quem está errado”. Os dois personagens principais são agora dois homens adultos, cada um com suas idiossincrasias e contradições, seus desafios de vida e aprendizados internos.

Essa desconstrução do pensamento binário “bom x mal”, “certo x errado” está na base da Não-Violência e da Justiça Restaurativa. Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não-Violenta (CNV), dizia que este pensamento dicotômico é a porta de entrada da violência em nossa sociedade. Segundo ele, quando classificamos alguém como mau ou errado, se justifica o uso de punição e violência contra essa pessoa. O problema é que fora dos filmes de ficção, o herói de um é o vilão do outro e o ciclo de violência se perpetua, cada lado justificando suas ações de agressão.

Para romper este ciclo, a Justiça Restaurativa propõe processos que apoiam cada lado a enxergar a humanidade da outra pessoa envolvida, desfazendo as “imagens de inimigo”, que demonizam a outra parte e trazem separação. Ao conseguir enxergar o lado humano do outro, algo se transforma internamente e surge uma nova predisposição para buscar soluções para que se possa seguir adiante. Ao compreender as motivações mais profundas e humanas por trás das ações de cada um, novas possibilidades de restauração, conexão e até mesmo reconciliação podem emergir.

A Justiça Restaurativa ecoa práticas ancestrais e indígenas de diversas culturas ao redor do mundo, focando o fortalecimento da comunidade e a restauração das relações na resolução de conflitos. Mais recentemente vem sendo aplicada em comunidades, escolas, mediação de conflitos e também em processos judiciais em diversos países, inclusive o Brasil.

As práticas permitem que o ofensor se sensibilize com o sofrimento da vítima e com o seu próprio. Também possibilita à pessoa que sofreu dano se abrir à experiência e ao arrependimento do outro, e assim os envolvidos podem decidir juntos formas de reparação e restauração. Vale a pena pesquisar mais sobre o assunto!

Como dizia meu mestre de aikido, um senhor japonês que lembrava em muitos aspectos o Sr. Miyagi, do filme Karatê Kid, a melhor maneira de destruir definitivamente seu inimigo é torná-lo seu amigo.

Para saber mais sobre Comunicação Não-Violenta (CNV) acesse: http://sinergiacomunicativa.com.br

Por Sandra Caselato. UOL. 20.9.2020.


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Um Amante do Conhecimento e com o desejo de levá-lo aos Confins da Galáxia !!!

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