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‘The Handmaid’s Tale’: Diferenças entre o livro e a série

‘The Handmaid’s Tale’: Diferenças entre o livro e a série

O romance distópico The Handmaid’s Tale, escrito por Margaret Atwood, é uma das obras literárias mais discutidas e aclamadas da atualidade. O Conto da Aia, como o título foi traduzido no Brasil, retrata um futuro dos Estados Unidos em que fundamentalistas religiosos derrubam o governo e estabelecem a República de Gilead, onde as mulheres tornam-se propriedades do Estado e possuem sua liberdade e seus direitos restringidos pelo regime abusivo.

O conto da aia
Edição de 2017 de O Conto da Aia, publicada pela editora Rocco.| Foto: Reprodução.

Em 2017, trinta e dois anos após o lançamento do livro, a história foi adaptada para a TV pelo serviço de streaming Hulu, o que ampliou consideravelmente o sucesso do universo criado por Atwood. A primeira temporada da série contou com uma recepção extremamente positiva: foi aclamada tanto por críticos quanto pelo público, além de ter sido indicada a grandes prêmios da indústria de entretenimento, conquistando o Emmy e o Globo de Ouro de melhor série dramática em 2017 e 2018, respectivamente.

Podemos afirmar, a partir disso, que a série representou a obra literária de forma digna, sendo, para muitos, um exemplo de boa adaptação. Entretanto, é necessário ter em mente que, mesmo contando a mesma história, o livro e a série são obras diferentes e próprias do formato e da plataforma em que foram veiculadas, cada qual com suas especificidades.

The Handmaid's Tale
Aias usando o uniforme padrão e obrigatório pelo regime, para serem facilmente identificadas em The Handmaid’s Tale. | Foto: Reprodução.

THE HANDMAID’S TALE: DIFERENÇAS ENTRE O LIVRO E A SÉRIE

A EXPANSÃO DA HISTÓRIA PELA SÉRIE

O livro é narrado em primeira pessoa e tudo o que conhecemos é através do olhar de Offred, a protagonista. O que nos é apresentado sobre o funcionamento do regime é por meio da vivência e dos pensamentos da personagem, de forma que cabe ao leitor preencher as lacunas de como a sociedade americana chegou aquele ponto, o que está acontecendo por trás dos panos e o paradeiro de certos personagens.

A série televisiva, a princípio, obteve um contrato de dez episódios para a primeira temporada, com a pretensão de se estender ainda mais no futuro. Por conta disso, foi possível dar um enfoque maior em Gilead e na sua ascensão, assim como no desenvolvimento de outros personagens além de Offred, que são mais explorados na adaptação audiovisual. A série, por exemplo, visita a memória de figuras pouco desenvolvidas no livro, como Nick, Serena e Ofglen, o que nos permite ouvir a história por outras vozes e entender melhor como foi dada a implantação do regime

A INCLINAÇÃO REVOLUCIONÁRIA DA PROTAGONISTA

Na obra literária não é revelado o nome real da protagonista, somente o nome que lhe foi dado após a ascensão de Gilead. O uso do nome de nascimento das mulheres na posição de aia é estritamente proibido pelo governo, em uma tentativa de apagar toda a sua identidade passada. Em um dos capítulos do livro, a narradora confidencia:

Meu nome não é Offred, tenho outro nome que ninguém usa porque é proibido. […] Esse nome tem uma aura ao seu redor, como um amuleto, um encantamento qualquer que sobreviveu de um passado inimaginavelmente distante.

Na série, Offred revela logo no primeiro episódio que seu nome é June, pois, de acordo com a própria personagem, ela pretende resistir à violência a qual está sendo submetida. A atitude subversiva e revolucionária da protagonista desenvolve-se mais a cada episódio ao longo da temporada, que constrói June como alguém que faria de tudo para reunir-se com o marido e com a filha.

O livro de Atwood retrata a personagem com uma postura mais passiva, conformada de que não há escapatória da situação em que se encontra, mesmo sempre tendo em mente a família deixada para trás, sem saber se estão vivos ou mortos.

O DESTINO DE EMILY/OFGLEN

Gilead desenvolve diversos mecanismos para suprimir atos de resistência contra o governo, de forma a manter-se sempre no poder. Tais formas de controle podem ser singelos, como permitir que aias transitem pela cidade somente se acompanhadas de uma parceira na mesma posição, para, assim, ambas espionarem implicitamente uma a outra. 

A companhia da protagonista é Ofglen, uma moça descrita, no romance, como recatada e misteriosa. A princípio, as duas possuem uma relação de desconfiança, mas, ao longo dos capítulos, esse sentimento é quebrado e Ofglen se abre para Offred. A partir disso, logo descobrimos que ela é um membro do grupo de resistência Mayday. Perto do final do livro, após Ofglen ter poupado um aliado da resistência de uma morte lenta e torturante, é revelado que ela cometeu suicídio antes de ser presa pelo regime, para evitar expor os segredos do grupo secreto.

Na adaptação audiovisual, descobrimos que o nome real de Ofglen é Emily, e que ela possui uma esposa e um filho que fugiram para o Canadá. Emily é uma figura importante e com uma presença recorrente na TV, obtendo um destino diferente ao da personagem do livro. Pela perspectiva dela, é apresentado um sistema judicial perturbador criado para mulheres: a personagem é submetida legalmente à mutilação genital como punição por ser “traidora de gênero”, como são intituladas mulheres lésbicas.

The Handmaid's Tale
Emily/Ofglen, interpretada por Alexis Bledel, em seu julgamento em The Handmaid’s Tale. | Foto: Reprodução.

OS NOVOS CENÁRIOS EXPLORADOS

A rotina de uma aia é rígida e maçante. Elas são obrigadas a permanecer em casa a maior parte do dia e só sair para lugares específicos, sempre acompanhadas. Por conta do romance focar nas experiências de Offred, determinados locais são mencionados, mas nunca sabemos detalhes sobre eles.

A série, por ter a oportunidade de explorar visões de personagens diversos, nos permite conhecer outros cenários, como as Colônias: campos lotados de lixo tóxico onde as mulheres consideradas indisciplinadas são enviadas para trabalhar sem qualquer tipo de proteção, destinadas a uma morte dolorosa.

O Canadá é um outro exemplo de acréscimo interessante da série ao universo de Gilead, com função semelhante à do epílogo “acadêmico” do livro: fornecer um componente de estranhamento para contrastar a crônica de Gilead com um contexto mais próximo do leitor/espectador.

Além disso, enquanto no romance não temos informações a respeito das relações externas de Gilead, na série, percebemos, por meio da perspectiva de refugiados no Canadá, como a política totalitarista do regime é vista com desprezo no resto do mundo.

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Por Luana Simões – Fala! UFPE

Fala Universidades. 22.9.2020.

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