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A epidemia nossa de cada dia

Por Marcus Vinicius

Coronavírus pode trazer algo de bom? Entenda como epidemias mudaram o mundo

O título deste ensaio pode até sugerir a intenção de discutir a “ascensão” de uma das maiores epidemias do século XXI, cujos efeitos destrutivos serão demarcados, em diferentes versões, nos livros de história, mas não é sobre a Pandemia do Covid-19 que irei abordar. Mesmo assim, foi o coronavírus que realçou a persistência de um outro processo infeccioso coletivo, cujo debate chama nossa atenção: a epidemia da ignorância, da violência e do hiperindividualismo.

Por que a ignorância, a violência e o hiperindividualismo devem ser considerados epidemia? O que há de moderno nesses vícios humanos? Como seus efeitos podem ser comparados a um dos maiores problemas de saúde pública, que já dizimou mais 120 mil vidas no Brasil? De que forma o interesse público pode ser afetado por essa síndrome social multifacetada?

Caso essas questões provoquem o interesse do leitor, me sinto obrigado a respondê-las, ao menos, demonstrar as razões pelas quais devemos lançar um olhar vigilante ao nosso redor, para que a realidade não nos escape aos olhos. Precisamos antes entender a natureza dessas “novas” patologias, que fazem culto à “opinião”, ignorando o conhecimento produzido; que desencarnam as palavras, reinventando uma verdade falseada; que impõe obediência à força, golpeando a democracia; que promovem o ódio como instrumento, aniquilando as diferenças; que desconstroem o tecido social, desmobilizando as pautas da sociedade em favor dos interesses mesquinhos dos indivíduos.

Muito antes da Pandemia do Covid-19 ser anunciada como um grande problema de saúde pública mundial, que ameaçaria a vida das pessoas, pelo alto risco de contágio e letalidade, havia sinais de que existia uma marcha da insensatez contra valores civilizatórios na sociedade brasileira, desenhadas após as eleições de 2014. Esse fenômeno social foi se constituindo com a mesma velocidade e frequência de uma doença infecciosa e se manifestava pela reprodução de ideias carregadas de preconceito contra minorias, ódio de classes e aversão ao conhecimento, reduzindo as prioridades comuns aos interesses de segmentos privilegiados da sociedade.

Se a pauta de costumes estava ganhando força após o último processo eleitoral, com a vitória majoritária de atores ultraconservadores, para o comando dos poderes executivo e legislativo, foi com a pandemia do coronavírus que a ciência sofreu grande baixa no confronto com as opiniões; as quais apelavam para o uso de medicamentos sem eficácia comprovada para o tratamento da doença e a negação das medidas de restrição e isolamento social como recurso comprovado para o controle da propagação dos casos; uma discussão contaminada pela falsa dicotomia entre saúde x economia.

Nos últimos meses, o debate público no Brasil extrapolou os limites da desigualdade, pois a ciência e o conhecimento deixaram de ser um parâmetro mínimo como alicerce de diálogo. Essa ruptura está realçada no questionamento da escritora Eliane Brum: “como estabelecer a linguagem, de forma que possamos ter uma base mínima comum a partir da qual possamos conversar?

Em seu ensaio Brasil construtor de ruínas: um olhar sobre o país de Lula a Bolsonaro, essa jornalista, que se autoexilou no coração da Floresta Amazônica, para repensar o país, denuncia que o diálogo no Brasil foi interrompido por que: “as palavras foram esvaziadas de seu sentido comum”. A realidade foi incorporada pela autoverdade como perversão da fala: a verdade passa a ser uma escolha pessoal.

Contra a ciência e o conhecimento se unem, na ignorância, conservadores cristãos, setores da igreja católica, terraplanistas, negacionistas, ultraliberais, entre outros que usam a força e o poder político para impor suas crenças, rejeitando todo conhecimento produzido nos diferentes campos científicos, ou seja, balizam a sociedade.

A partir dessas crenças pessoais, compartilhadas por grupos, movimentos e lideranças reacionárias, a população brasileira teve que enfrentar a remodelagem da hostilidade e da violência como mediadores das relações humanas entre os cidadãos. Se o brasileiro médio não podia ser considerado o romântico “homem cordial”, de Sérgio Buarque de Holanda, também estava longe de encarnar a representação do ódio, do ressentimento, da intolerância e da disposição para a agressão, como vem se apresentando atualmente.

O ódio como ferramenta de imposição de ideias e interesses, no Brasil de hoje, se materializa na negação da diferença e se reproduz no preconceito de classe, de religião, de opção sexual e de origem étnica, mas, no campo político, esse fenômeno ganhou contornos inimagináveis.

Não se trata apenas de visualizarmos confrontos entre correntes ideológicas polarizadas (esquerda x direita). O enfrentamento político atual está ancorado na tentativa de exterminar as ideias contrárias ao pensamento neoconservador que controla as instituições públicas, com a construção de um inimigo invisível comum, que precisa ser eliminado.

Nesse clima de hostilidade, a população brasileira vai se conformando com a violência cotidiana, como forma de fazer política. Uma patologia social implacável contra os pretos, pobres, mulheres, índios, crianças, entres outros segmentos mais vulneráveis da sociedade, que demandam políticas sociais negligenciadas pelo setor público.

Na contramão do papel institucional do Estado, que devia preservar a população contra esses males e mediar os conflitos, a fim de diluir todo tipo de intolerância entre os cidadãos, o discurso político oficial aponta para outra direção, alimentando o radicalismo e a perseguição das minorias.

Não é à toa que o cenário coletivo histérico vem produzindo fraturas na sociabilidade, contribuindo para a formação de um outro fenômeno social patológico: o hiperindividualismo. À primeira vista, essa tendência da sociedade moderna supõe a afirmação da liberdade do indivíduo, como fim em si mesmo, contra as restrições morais e políticas do Estado. No entanto, esse novo individualismo se apresenta como a extensão sem limites de demandas de consumo, conforto e segurança pessoais, ao mesmo tempo em que se manifesta total desprezo pela condição do outro.

Do contrário, como explicar a indiferença da sociedade brasileira ante o assassinato de povos indígenas que resistem à ganância dos grileiros de terras? O sofrimento dos refugiados de países em guerra, dos homens e mulheres pretas violadas pelo racismo, das crianças pobres das periferias, não amolecem nem mesmo o coração dos seguidores de Cristo. O poder destrutivo das queimadas que exterminam árvores milenares e transformam em cinzas os animais da fauna do Cerrado, do Pantanal, da Mata Atlântica e da Floresta Amazônica já não choca nem mesmo o ambientalismo boçal da classe média.

Como um Dom Quixote aos avessos, esse tipo de brasileiro neoconservador, distante dos problemas de seu tempo, está se transformando em um potente combustível dos “moinhos de vento”, das estruturas que trituram os valores e princípios mais caros de uma democracia: a solidariedade, a relevância pública e a noção de direitos e garantias fundamentais de um povo.

Nessa arena de batalhas perdidas, em desfavor do bom senso, a apatia se torna um recurso daqueles que tentam sobreviver aos sintomas dessa doença dolorosa, dos que tentam fugir do perigo de se afogar no maremoto do sofrimento universal, da máquina implacável de produção das aflições humanas. Para além desse distanciamento inevitável, é necessário fortalecer o diálogo e a construção de elos que resgatem a esperança de um novo tempo. Quanto mais a tirania, o extremismo e a violência cavarem um buraco em nossa democracia, mais será a capacidade de rebento da fé, amor e solidariedade universal.

Marcus Vinicius, Graduado em Enfermagem. Especialista em Comunicação em Saúde/Saúde Pública/Formação Pedagógica em Educação Profissional em Saúde. Mestre em Saúde Coletiva. Colunista do Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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