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Ortega, filósofo e marginal

Por Charles Santiago

Novas edições do filósofo espanhol Ortega y Gasset chegam ao ...

Ortega y Gasset (1883-1955), pensador espanhol, foi filósofo, escritor e político. Autor de diversos textos, mas destaca-se, no mundo hispânico, com a obra A Rebelião das Massas. Não é sua produção mais extraordinária, todavia, graças à discussão polemática de determinados conceitos, esse texto ganha notoriedade, sobretudo no ambiente político. É certo que esse livro, supondo que seja um, como diz o seu autor no prefácio, começou a ser escrito e publicado como artigos em jornais, no início dos anos 20, e somente em 1930, com a reunião de alguns desses artigos, foi publicada como obra filosófica.

Nota-se que A Rebelião das Massas retoma e aprofunda conceitos que já foram trabalhados anteriormente, minorias e massas como tipologias de homem, especialmente nas obras Meditações de Quixote e Espanha Invertebrada. Concepções que orientam, sem os devidos cuidados, malogradas leituras, pois a massa não é o trabalhador, e tampouco minoria é a elite, mas, antes de tudo, massa é o homem esvaziado de sentido, de singularidade e de drama como aventura poética – vida autêntica. Já a minoria não é a elite, classe burguesa, pelo contrário: é o nobre de vontade, tomado em termos nietzschianos, o legislador de seu destino, de suas aventuras, o além do homem

Decerto que Ortega y Gasset influenciou, na América Latina, estudos e grandes debates. No Brasil, quase sempre este autor é lido como elitista porque, a partir de sua fundamentação sociofilosófica de minorias e massas, seus leitores, equivocadamente, tomam sua discussão conceitual à luz de uma Teoria das Elites, figurando-o ao lado de autores como Le Bon, Mosca e Michels. Isso, quando não fazem uma leitura de seus conceitos com as lentes do marxismo. É preciso dizer que são leituras imprecisas e desavisadas.

Fora esta canhestra compreensão e, no tempo presente, à luz das idiossincrasias políticas brasileiras, o que o filósofo Ortega y Gasset ainda pode nos dizer? Para além de sua célebre assertiva, “ser de esquerda é, como ser de direita, uma infinidade de maneiras que o homem pode escolher de ser um imbecil”, arisco-me, incidindo no perigo da leviandade, a inferir: podes tanta coisa!

Respeitando o nosso tempo e os limites de uma conversa quase botequiana, posso dizer-lhes, no sentido filosófico orteguiano, o quanto somos uma faina poética que, entorpecidos pela fragmentação ideológica partidária, esquecemo-nos da vida, aquela que, mesmo com a benevolência de Cronos, perde-se no instante, o tempo que temos e somos, uma poesia que nunca fora dita, mas que não é nova, pois o movimento finito de vidas vão sucumbindo, esvaziado de memória, de paixões, noutros termos, vida inautêntica.

Entrementes, vida que é dilapidada, existência de massa, animal de rebanho que, nas ideologias partidárias, com doses de proselitismo, busca heróis, salvadores de suas circunstâncias. Homens e mulheres, para Ortega y Gasset, náufragos, sem se debater, entregam suas vidas, acatam os chicotes do destino, seguem águas adentro e, como novos Adãos no paraíso, aceitam seu mísero fado, a vida como é ofertada.  

Quiçá o maior dos ensinamentos seja, no tempo obscurantista brasileiro, vida autêntica! Aquela que não é política, ordenação doutrinária, mas acaudilhada para uma singularidade: vida insubornável. Vida que se faz biograficamente, carcomendo uma existência que é, antes de tudo, gorada, condenada à morte, mas é vontade de potência também, é vida nobre, é o fazer-se cotidianamente, o Dasein heideggeriano, que se biografa com nobreza, como homem especial.

Feito massa, homens genéricos, diz Ortega y Gasset, foram fragmentados, esvaziados e desqualificados, são alvitres ideológicos. Na política, no interior do que se considera esquerda e/ou direita, ante uma polarização simplista, o homem massa vivencia uma rotulação simbólica. Este ser gregário, sujeito massa, na trincheira política das ideologias, encontra auspícios para uma vida vulgar: seu tédio existencial cotidiano. Mal sabe, a vulgaridade desse homem massa, que a vida é um instante calamitoso, movimento finito e que, por isso, todo e qualquer projeto político é, antes de tudo, evitamento, é fuga.

Já a minoria, homem nobre, diz nosso espanhol, ao contrário da massa, tem ciência que a vida é drama, é singularidade, é vida que pulsa – é existência que se debate e, naufragados na espúria existencial, constitui seu horizonte vital. É preciso dizer que o homem especial participa da política, mas, diferentemente da massa, não faz dela o seu horizonte, o seu projeto é outro; como disse Nietzsche, é “uma corda esticada entre o animal e o além do homem”.

Charles Santiago, professor, filósofo e escritor. Colunista do Factótum Cultural. Autor do livro – Filosofia de Boteco: no reverso das ilusões (Editora CRV, 2019).

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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