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Em tempos de enlutamento, sonhar o impossível

Com diferenças regionais, festas juninas celebram a fartura no ...
Agência Brasil. Imagem

Por Charles Santiago

Meu caro leitor, havia pensado, mais do que isso, rascunhado um texto para refletir contigo sobre o conceito de circunstância na filosofia de Ortega, buscando uma conexão com o primeiro texto aqui já publicado, Ortega, um filósofo marginal. Mas, como nordestino e forrozeiro, considerando o tempo em que nos encontramos, conjugado com o mês de junho, períodos de grandes festejos, no momento contrastado com grandes dores, repensei nossa coluna e, noutro tempo, quem sabe, retomo a discussão conceitual de circunstância para uma conversa filosófica e quiçá botequiana. 

Agora, esqueçamos de Ortega e pensemos nos santos juninos, aqueles que provocam grandes festas. Hoje estão tristes – sofrem e já choram. Antonio, João e Pedro não serão celebrados, tampouco glorificados em sua sacralidade profana. Seus festejos foram sequestrados pelo tempo pandêmico. Não acontecerão preces de casamento, agradecimentos pela colheita farta, não haverá luar e, tampouco, balão multicor, pois o céu não estará estrelado.

É impossível imaginar, mas, verdade seja dita: nesse mês junino, não haverá madeiras ao ardor – lindas fogueiras e suas crendices. Fogos de artifício não pipocarão. As crianças não farão corrida de saco, quebra-pote e pau de sebo. Na mesa, faltarão canjica, bolo de fubá, paçoca e o habitual milho cozido.  O forró, embalado pelo rei do baião, perderá sua melodia, emudecerá.

Quantas histórias deixarão de ser contadas e cantadas. Quantos amores não serão vividos. Folguedos não acontecerão. A quadrilha, dança de arrasta-pé, serve somente como alcunha para grupos políticos, mas sem os melódicos gritos de anarriê.

A triste partida, neste tempo, não é saga nordestina, tampouco hino de retirante. É mais do que música, é vida partindo, seguindo sem despedida, levando consigo um pouco de cada pessoa, isso quando esta também não se vai. Não existe, é certo, nesse som, esperança ― “o carro já corre no topo da serra” ― é carro que não volta, é choro sem adeus. Parafraseando Patativa do Assaré, o brado da poesia nordestina, tantas vezes entoada na voz do eterno Gonzaga, “ah, Deus, março passou, abril, maio e já estamos em junho, o que será de nós”?

A resposta do Nordeste auspicia, “deixamos de coisa, cuidemos da vida”. É Belchior, versado em poesia que, cantando, socorre a todos; atina para um lugar comum, o mundo que ainda nos é restado. Não há, nesse lugar comum, vida fácil, nos dizeres marxianos, o sólido, no ar, já se desmanchou. Mas é necessário cuidar da vida!  Náufrago, neste vale de lágrimas, é preciso se debater, sonhar para sobreviver, mesmo que seja sonho impossível.

É dolente saber que, neste tempo das festas juninas não são fogueiras que queimam, mas os corações de muitos que, em brasas, ardem. São corações pesarosos, quebrantados, mas que ainda pulsam… em alguns casos, descompassados, mas resistem e, motivados ao som de Raulzito, seguem “tendo fé em Deus e fé na vida”. Feito fênix renasce, nesses versos, esperança de que suportarão o luto, seguirão, com saudades, mas comboiarão com fé.

 É penoso saber que, nesses festejos juninos, não são corpos quentes que se derramarão em forrobodó, chamegando gostoso e, por vezes, desentoados, mas sem perder o chamego, tradição de bom matuto. Oh, não! Vivemos outra coisa, tempo dilemático, são vistos corpos que, frios, desativados biologicamente, são deserdados ao ermo.

Por essa razão é importante dizer que dificilmente haverá alforria de tamanhas dores, mas é preciso, como Sísifo, seguir firme, mesmo parecendo impossível, manter a esperança, acreditar em um mundo impensável, querer, a todo custo, reconstituir o caminho e projetar a pousada.

Entrementes, no futuro, quem sabe nos próximos festejos juninos, o forró será nosso hino! Do alto, Gonzaga, sorridente, dará suas bençãos: “olha pro céu, meu amor, vê como ele está lindo. É noite de São João”. Crianças, fogueteando, tomarão as ruas. Comidas serão degustadas, histórias erigidas e engodadas. Os santos, já abrasileirados, honrarão seus festejos, celebrarão suas meninices com grande folia. É o que nos resta: esperança, esperar o amanhã.

Agora, o que atormenta, para além da saudade dos que partiram abruptamente, dor que dificilmente serão cicatrizadas, é não saber como aguardar a vida que pode ser. O idílico Lima Barreto, com seu visionário Major Quaresma, disse que “esta vida é absurda e ilógica; eu já tenho medo de viver, Adelaide. Tenho medo, porque não sabemos para onde vamos, o que faremos amanhã, de que maneira havemos de nos contradizer de sol para sol”. No tempo presente, para além dos festejos e das tradições que não acontecerão, o que a vida reserva? O que será do brasileiro? O que será possível fazer? A única certeza vem dos versos de Raul: “A morte, surda, caminha ao meu lado, e eu não sei em que esquina ela vai me beijar”.

Qualquer resposta fora os versos de Raul parece imprecisa, pois o futuro tem o péssimo hábito de “escorrer pelos dedos”. Por isso, parelha com Quixote, o manchengo, o maior dos desafios, que deve ser “sonhar o impossível”.

Que nenhum projeto seja fortuito e incerto: mesmo parecendo impraticável, é necessário caçá-lo. Persegui-lo com o que há de melhor: as ideias. E distante de amigos e familiares, consternados com tristes partidas, que todos tenhamos forças para vencer o inimigo invisível, o luto que a muitos consome. Fé para que continuarmos rentes nesse propósito… de um mundo mais fraterno, repousado na justiça.

Ah, Quixote, nesse tempo, enlutados, é de ti que nos valemos, sonhar o impossível. Viver uma vida impossível. Lutar uma luta impossível, pois, neste momento, lugar de tormenta, tudo parece inconquistável e perdido. Tua fé é a fé do mundo. Tua loucura também é a de tantas pessoas, pois das tralhas serão forjadas as armas e, de pé, feito o assum preto, apaziguados com os mortos, desafiarão o destino! Todos serão, antes de qualquer coisa, cavaleiros andantes, aquilo que, frente à tragédia pandêmica, poderão ser…

Charles Santiago é professor, filósofo e escritor. Colunista da Factótum Cultural.

Os artigos publicados, por colunistas e articulistas, são de responsabilidade exclusiva dos autores, não representando, necessariamente, a opinião ou posicionamento do Factótum Cultural.

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