Por Charles Santiago (Os Contos que te Conto – Conto VIII)

Uma história, uma memória e um pouco de eternidade naquilo que é passageiro.

Naquela noite, a professora Vilma já não estava para prosa. A juventude deixara seu boteco havia pouco, levando consigo as vozes e as promessas de salvação e de mudança que, depois do culto, costumavam acompanhar as cervejas. Fiquei um tanto decepcionado, confesso, mas compreendi. Eu também havia tomado seu tempo com minhas indagações e, afinal, já era tarde. Peguei mais algumas latas de cerveja e segui para minha hospedagem.

No caminho, acompanhado pela lua – protegida, quem sabe, pelas armas de São Jorge-, decidi me demorar junto à barragem de Jitaúna. Um espaço bucólico, guardião de lindas memórias. Eu não estava só: acompanhavam-me as vozes de Qohelet, e eu levava comigo o líquido dionisíaco. O lugar é lindo. Os políticos, contudo, negligenciaram aquele espaço, deixando-o abandonado e sujo. Mas a natureza tem suas próprias formas de resistência. Mesmo quando o poder público se torna seu adversário, as águas continuam a dançar e a se abraçar nas pedras, como velhos amantes.

Era tarde da noite, eu sei. Mas o que poderia me acontecer? Afinal, eu estava na Bahia, governada havia mais de vinte anos pelo PT. Ali, ao que parecia, a violência fora zerada, o crime perdera sua dimensão organizativa e a polícia, tão bem remunerada, oferecia à população um tratamento exemplarmente humanizado. Nada, portanto, poderia me impedir de contemplar aquele esplendor de águas e de rememorar uma infância marcada pelas vadiagens da adolescência.

São Jorge parecia impossível. Sobre seu cavalo, rodopiava com a lua de um canto a outro do céu, enquanto as estrelas dançavam ao som do balanço e do rumor provocado pelos abraços que as águas estendiam às pedras.

Ao chegar à barragem, encontrei um lugar para me sentar. Abri mais uma cerveja e deixei o olhar percorrer o espaço amplo, onde o verde contornava as margens e compunha uma paisagem cuja beleza me parecia quase impossível de descrever.

A memória fazia as pazes com o presente. Naquele instante, o tempo parecia outro: presente, passado, presente-passado, passado-presente. Em meio àquela harmonia, fechei os olhos por alguns instantes. Não sei se adormeci ou se apenas me deixei levar por uma espécie de torpor. O corpo descansava e, como num passe de mágica, as memórias e as doses etílicas pareciam organizar uma realidade que já não obedecia às leis do cotidiano. Eu dormia, mas, ao mesmo tempo, acompanhava uma prosa, um diálogo do qual não conseguia participar. Permanecia imóvel, enquanto uma professora – disso tenho certeza – conduzia uma conversa com seus estudantes sobre a existência ficcional.

A aula, porém, não tinha nada de convencional. O tema era Eclesiastes, e a professora conduzia os estudantes pelos caminhos de Qohelet, mostrando como sua filosofia se construía não apenas por conceitos, mas também por imagens que se moviam, deslocando o leitor para questões que atravessam o niilismo, o existencialismo e a experiência do absurdo. Agarrada à sabedoria daquele mestre antigo, confabulava com Tolstói sobre literatura e, em certo momento, acolhia seus conselhos sobre a confissão. Do outro lado, Camus resmungava, com seu conhecido ar de desencanto, diante da insistente pergunta pelo sentido da vida.

Meu corpo repousava ao som das águas da barragem, enquanto minha alma acompanhava solenemente aquela espécie de epifania filosófica. Eu queria participar da conversa, mas estava paralisado. Minha compreensão não conseguia acompanhar aquele movimento de ideias e imagens. Eu continuava prisioneiro de hevel, de yitrôn…

Ah, meus amigos! Como era bonito ver minha professora de literatura. Silvana Peixoto, filha do Nordeste e de alma jitaunense, erguia-se diante de seus interlocutores como quem ocupava um palco. Seus gestos acompanhavam as palavras, e estas pareciam insuficientes para conter o pensamento que se desenhava em sua voz. Eu a contemplava em silêncio, sem conseguir pronunciar uma única palavra.

Silvana Peixoto olhou para seus interlocutores e, por um instante, pareceu procurar as palavras. Falava da finitude, da brevidade da vida, dessa estranha condição de estarmos aqui sabendo que um dia deixaremos de estar. Mas, afinal, perguntava ela, por que a brevidade haveria de tornar a vida menos digna de ser vivida? Não seria justamente por ela passar que deveríamos recebê-la com maior atenção? Talvez o absurdo não estivesse em nossa transitoriedade, mas em desprezar aquilo que, mesmo passageiro, nos é dado viver.

Os interlocutores permaneceram em silêncio, mas Silvana parecia não se dar por satisfeita. Suas mãos continuavam a falar, enquanto a voz apenas emoldurava os gestos, que se desfaziam em imagens, nasciam novamente e se transformavam diante dos olhos de todos. Então, sem que eu pudesse compreender como, a professora se viu cercada por musas que cantavam, como se a alegria tivesse encontrado ali sua própria linguagem:

— Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras.

O silêncio tomou conta daquele ambiente. Então, o canto das lavadeiras me arrancou do sono. Com suas trouxas de roupa à cabeça, elas cantarolavam enquanto o dia despontava num sussurro de luz. A aurora estendia seu manto dourado sobre as pedras da barragem, numa imagem que dispensava qualquer descrição. Permaneci alguns minutos imóvel, tentando compreender o que havia acontecido. Mas o dia cobrava sua rotina, e tomei o caminho de casa levando comigo algumas perguntas: teria sido um sonho, uma embriaguez ou um delírio? Por ora, não sei. Deixo a resposta para um próximo conto…

📝 Não deixe de ler nosso conto anterior:

Charles Santiago é jitaunense, professor, escritor. Líder do grupo de pesquisa Poética do Sagrado. Colunista do Factótum Cultural.

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