Por Charles Santiago

Ansioso, como todo canceriano, cheguei em casa ainda agoniado com a falta de consideração daqueles que não compareceram ao compromisso no boteco da Vilma. Afinal, estavam na praça, fazendo arruaças, como se nada tivesse acontecido. Tomei uma cerveja, talvez para criar coragem para uma conversa franca, e resolvi ir até a praça da matriz. Queria tirar aquela história a limpo.

A noite estava linda. A lua parecia solidarizar-se com os transeuntes. Já era tarde, porém, e a praça estava quase vazia. Encontrei alguns jovens que passavam apressadamente, mas minha atenção acabou atraída por um sujeito franzino, de meia-idade, sentado num banco. Fumava um baseado e segurava um livro grande, de capa dura e colorida, desses que parecem feitos para chamar a atenção mesmo quando permanecem fechados.

Confesso que fiquei curioso. Havia algo naquela cena que me pareceu familiar: o sujeito sentado na praça, o livro ostensivamente à mostra, a postura de quem talvez desejasse ser visto não apenas como alguém que lê, mas como alguém que sabe.

Talvez eu estivesse sendo injusto. Afinal, quem era eu para concluir alguma coisa a partir de uma cena tão breve? Ainda assim, não consegui evitar a impressão de que aquele homem compunha uma espécie de personagem: o intelectual da cidade pequena. Aquele que, entre uma conversa e outra, deixa escapar o nome de um filósofo, uma frase célebre ou uma opinião contundente, como quem apresenta suas credenciais.

Aqui preciso fazer um esclarecimento. Não sei se isso acontece mais nas cidades pequenas ou se, nas cidades grandes, a encenação apenas dispõe de cenários mais sofisticados. O fato é que, em certos ambientes, parece importante demonstrar que se conhece, que se leu, que se está por dentro das coisas. Os livros ajudam bastante nessa tarefa. Também ajudam as frases de efeito, os autores citados no momento oportuno e as posições políticas anunciadas com a segurança de quem não admite réplica.

O problema começa quando o desejo de parecer sábio ocupa o lugar do trabalho de compreender. Podemos ter livros, repetir autores e colecionar opiniões sem que nada disso nos transforme em leitores de verdade. Às vezes, carregamos mais referências do que perguntas. E talvez seja possível passar a vida inteira defendendo ideias sem jamais nos demorarmos o suficiente diante delas.

Mas eu também precisava tomar cuidado. Afinal, estava ali, na praça, observando um desconhecido e construindo sobre ele uma história inteira. Não estaria fazendo, à minha maneira, algo parecido com aquilo que tanto me incomodava? Eu ainda não sabia seu nome, não conhecia sua história e, mesmo assim, já começava a decidir quem ele era.

Aproximei-me como quem não sabia muita coisa da cidade – e, de fato, havia muita coisa que eu já não sabia. Sentei-me ao lado dele e puxei conversa sobre o majestoso livro.

O homem desconversou. Depois de alguns rodeios, porém, soltou uma frase que me surpreendeu:

— Não se esqueça das vozes de Nietzsche: Deus está morto!

Eu sabia que a filosofia não parecia ser seu assunto habitual. Ou talvez essa fosse apenas mais uma das minhas certezas apressadas. O fato é que a frase surgiu ali, no meio da conversa, como se a simples menção a Nietzsche pudesse conferir ao instante uma importância especial.

Não quis entrar no debate. Limitei-me a perguntar:

— Leu?

O homem ficou em silêncio. Depois riu.

Eu desconfiava de que não havia lido o livro que trazia consigo. Mas o que eu sabia, afinal? Talvez tivesse lido Nietzsche, talvez conhecesse aquela frase de outras leituras, talvez estivesse apenas repetindo algo que ouvira por aí. Eu não tinha como saber.

Ainda assim, permaneci com a pergunta na cabeça. Não tanto por causa dele, mas porque, de repente, ela também parecia dirigir-se a mim.

Quantas vezes julgamos ter compreendido alguma coisa apenas porque conhecemos as palavras com que ela costuma ser apresentada? Quantas vezes confundimos reconhecer uma frase com compreender o que ela diz?

Ainda com a garganta molhada pela última cerveja, procurei um assunto que nos aproximasse. Queria sair daquela conversa sem transformar o encontro em mais uma história sobre a ignorância alheia. Foi quando um velho conhecido, adversário político de outros tempos, apareceu para me cumprimentar.

Falou de minha caminhada em União da Vitória, da vida como artesão da filosofia e, para minha surpresa, contou que estava lendo Os contos que te conto. Aquilo me deixou desconcertado. Não porque fosse extraordinário alguém ler meus contos, mas porque eu não esperava encontrar naquela praça, justamente naquela noite, alguém disposto a conversar sobre o que eu escrevia.

Ele não fez elogios. Pelo menos, não daqueles que costumamos receber quando alguém deseja ser gentil. Disse apenas:

— Você precisa avançar. Deixe hevel levar você. Caminhe com ele.

Olhei para ele, tentando compreender o que queria dizer.

— Como assim?

Ele demorou um pouco a responder. Olhou para a praça, depois para mim.

— Você ainda está tentando descobrir o que a palavra significa, não é? Talvez esteja procurando uma tradução que resolva tudo. Mas hevel não é uma coisa que você segura nas mãos. É como o vapor: você o vê, percebe seu movimento, mas não consegue retê-lo. Quando pensa que o apreendeu, ele já se transformou.

Fiquei em silêncio.

A imagem me pareceu familiar, embora eu ainda não soubesse exatamente por quê. Talvez porque também as lembranças fossem assim. Eu tentava recuperar o passado, mas ele sempre chegava acompanhado de alguma coisa que não estava lá antes: o que eu me tornara, o que havia esquecido, o que repetira tantas vezes que já não sabia distinguir a lembrança da narrativa.

Talvez meu interlocutor tivesse percebido meu desconcerto. Sorriu e acrescentou:

— Deixe hevel conduzir você a yitrôn.

Não respondi. Fiquei pensando.

Eu conhecia a pergunta de Qohelet: que proveito tem o ser humano de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Já havia lido e relido aquele versículo, mas agora a palavra yitrôn parecia reclamar uma atenção diferente.

Proveito? Ganho? Vantagem? Excedente?

O que resta de nossos esforços quando o tempo passa e aquilo que julgávamos possuir escapa das mãos?

— Mas yitrôn é uma resposta? – perguntei.

Meu interlocutor sorriu, como quem não pretendia me entregar uma solução.

— Talvez você ainda esteja querendo chegar depressa demais.

Aquilo me incomodou. Eu havia saído de casa querendo tirar uma história a limpo e, depois de algumas voltas, continuava sem resposta. Primeiro, os amigos que não compareceram. Depois, o homem com seu livro. Agora, uma palavra hebraica que parecia abrir mais perguntas do que eu conseguiria responder.

Talvez fosse esse o problema: eu continuava procurando um saldo. Alguma coisa que compensasse as desilusões, justificasse as escolhas e desse ao passado uma espécie de fechamento. Como se, depois de tanto trabalhar, estudar, ensinar, escrever e perder, fosse possível colocar tudo sobre uma mesa e descobrir quanto havia valido a pena.

Mas Qohelet não parecia interessado em facilitar essa contabilidade.

O ser humano trabalha, constrói, deseja, acumula. Investe tempo e força naquilo que faz. Ainda assim, não pode garantir que aquilo que conquistou permanecerá. O tempo não lhe pertence. O futuro não está inteiramente em suas mãos. Nem mesmo a sabedoria, por mais necessária que seja, lhe oferece domínio sobre tudo.

Então, que proveito há?

Eu ainda não sabia.

Talvez yitrôn não fosse uma espécie de recompensa escondida no fim do caminho. Talvez a pergunta de Qohelet não prometesse um excedente capaz de compensar todas as perdas. Talvez me obrigasse a examinar de outra maneira o próprio esforço de viver, sem transformar cada experiência em investimento e cada desilusão em prejuízo.

Olhei novamente para meu interlocutor. Ele não parecia interessado em me oferecer uma explicação. Havia dito o que precisava dizer e agora me deixava sozinho com a pergunta.

Pensei no homem do livro. Por alguns instantes, senti vontade de voltar àquela cena e refazer meu julgamento. Não que eu tivesse mudado de opinião sobre a ostentação intelectual. Continuava achando que há quem prefira parecer sábio a se demorar no trabalho de compreender. Mas eu também havia me apressado em decidir quem aquele sujeito era. Tinha transformado um desconhecido em personagem antes mesmo de conhecer sua história.

E o que eu ganhara com isso?

A pergunta me pareceu inconveniente. Talvez porque, ao tentar desmascarar a vaidade alheia, eu também estivesse procurando alguma vantagem: a satisfação de me sentir do lado de quem sabe, de quem lê de verdade, de quem não se deixa enganar pelas aparências.

Não gostei muito dessa descoberta.

A praça continuava quase vazia. Os jovens passavam, conversavam, riam. Meu interlocutor permanecia ao meu lado, sem exigir que eu chegasse a conclusão alguma. Foi então que percebi que o homem do livro havia saído de fininho. Levou consigo o volume de capa dura e colorida, mas deixou uma caixa sobre o banco.

Dentro dela havia um tabuleiro de damas.

A cena me fez sorrir. O sujeito não era aposentado, mas, pelo que eu sabia, não era muito afeito ao trabalho. Uma coisa, porém, eu precisava reconhecer: era exímio jogador de damas. Na praça da matriz, o jogo fazia parte da vida dos aposentados, que se reuniam para disputar partidas, conversar e passar o tempo.

Fiquei olhando para o tabuleiro.

Não sei por que aquela imagem me chamou tanto a atenção. Talvez porque, ao contrário do livro, o jogo não precisasse ser exibido para começar a fazer sentido. Era preciso sentar, observar as peças, antecipar movimentos, aceitar perdas e descobrir que uma jogada aparentemente vantajosa podia preparar uma derrota mais adiante.

Mas não queria transformar também o tabuleiro em uma lição. Talvez fosse apenas um tabuleiro esquecido na praça. E talvez eu já estivesse procurando significado demais nas coisas, como se cada objeto precisasse me devolver alguma resposta.

Pensei nos contos, em Eclesiastes, na memória e também naquilo que eu mesmo ainda não compreendia.

Talvez hevel não fosse o fim da caminhada. Talvez abrisse um espaço: um espaço para perguntar pelo yitrôn.

Não sabia ainda o que isso significava para mim. E talvez fosse justamente por não saber que precisava continuar pensando.

Despedi-me do meu antigo adversário e voltei para o boteco da Vilma.

Não sei se voltei para beber ou para pensar. Talvez as duas coisas fossem, naquela noite, a mesma coisa.

Sentei-me novamente à mesa e, para minha agonia, os jovens continuavam ali, cantarolando e bebendo. Pedi outra cerveja.

E fiquei pensando em hevel. E em yitrôn.

Ali, perdido em pensamentos, ouvi o pedido da conta. Para minha felicidade, os jovens estavam indo embora. Finalmente, a professora Vilma estaria livre para conversar comigo. Talvez pudesse ouvi-la ou discutir com ela aquela nova imagem. Mas já era tarde, e eu não sabia se ainda haveria tempo e paciência para meus devaneios.

Talvez eu pudesse começar contando o que acontecera na praça. Ou talvez fosse melhor não contar nada e perguntar primeiro o que ela pensava sobre o proveito de nossas conversas, nossas amizades e nossas histórias.

Não cheguei a decidir.

Como em todo conto, essa conversa ficará para outro conto.

📝 Não deixe de ler nosso conto anterior:

Charles Santiago é jitaunense, professor, escritor. Líder do grupo de pesquisa Poética do Sagrado. Colunista do Factótum Cultural.

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