
Leia a conversa entre Charles Santiago e Neemias Prudente sobre Os contos que te conto, literatura, filosofia e as perguntas de Eclesiastes que atravessam a existência. Uma conversa sobre memória, ficção e os lugares inesperados em que a vida nos convida a pensar. Factótum Cultural!
Neemias Prudente:
Os contos começaram ligados às lembranças de Jitaúna, na Bahia, às amizades e a experiências políticas e religiosas que marcaram sua trajetória. Como nasceu o projeto?
Charles Santiago:
O projeto nasceu do desejo de voltar a algumas lembranças e conversar com pessoas, lugares e experiências que fizeram parte da minha vida. Jitaúna, cidade do interior da Bahia, guarda uma parte importante da minha história: amigos, encontros, lutas políticas, experiências religiosas e sonhos compartilhados. Inicialmente, pensei em desenvolver uma pesquisa que recuperasse a memória de um movimento do qual participei. Cheguei a considerar um projeto de pós-doutorado ligado à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e ao Museu Pedagógico, instituição na qual fiz uma pós-graduação em cultura e memória.
Aos poucos, porém, percebi que aquelas lembranças estavam encontrando outro caminho. Em vez de organizá-las apenas como objeto de pesquisa documental, comecei a transformá-las em histórias. A literatura abriu uma possibilidade diferente de relação com o passado: eu podia lembrar, imaginar, deslocar acontecimentos, criar personagens e reconhecer que a memória também é feita de silêncios, fantasias, afetos e contradições. Foi assim que surgiu Os contos que te conto.
Neemias Prudente:
Em determinado momento, você decidiu não levar adiante aquele projeto de pesquisa sobre a memória do movimento. O que aconteceu?
Charles Santiago:
Eu chamaria isso de desencantamento, não exatamente de desânimo. As coisas mudaram, eu mudei, e aquilo que antes parecia exigir uma investigação documental já não tinha a mesma força. Às vezes, insistimos em transformar uma experiência em objeto de pesquisa porque acreditamos que precisamos explicar tudo, registrar tudo, dar uma forma definitiva ao que vivemos. Mas nem toda lembrança precisa ser submetida a esse tipo de fixação.
Não quero apagar o que aconteceu nem negar a importância daquela trajetória. Ao contrário: há algo de bonito em preservar certas memórias como um horizonte, inclusive para os mais jovens. Nelas existem conquistas, erros, ilusões, conflitos e também aquilo que ainda não conseguimos compreender inteiramente. A literatura permite manter essa memória viva sem exigir que ela se transforme num documento fechado. Talvez algumas experiências continuem nos acompanhando justamente porque não conseguimos encerrá-las numa explicação definitiva.
Neemias Prudente:
Como essas lembranças se transformaram em contos? O que a ficção passou a permitir que a pesquisa não permitia?
Charles Santiago:
Os contos começaram a ultrapassar os limites da lembrança original. Jitaúna continua presente, mas já não é apenas uma cidade que tento recuperar. Ela também se tornou um lugar imaginado, um território literário no qual acontecimentos vividos podem se misturar à invenção. A ficção me deu liberdade para criar situações, exagerar histórias, deslocar personagens e, ao mesmo tempo, pensar filosoficamente sobre aquilo que nos acontece.
E há um cenário que me interessa particularmente: o boteco. A mesa de bar, a cerveja, as conversas que atravessam a noite e até a ressaca do dia seguinte são elementos que permitem construir histórias e pensar a existência a partir de um lugar pouco convencional. Afinal, por que os saberes precisariam nascer apenas nos livros, nas universidades ou nos espaços considerados solenes? Também pensamos quando contamos um caso, lembramos o passado, discordamos de um amigo ou tentamos compreender o que fizemos na noite anterior. O boteco não é apenas cenário dos contos: é também um espaço possível de elaboração da vida.
Isso não significa que toda conversa de bar seja filosofia, nem que a bebida tenha alguma virtude especial. Significa apenas que a experiência humana não se limita aos ambientes que tradicionalmente reconhecemos como lugares de produção do conhecimento. Às vezes, uma história contada entre amigos abre uma pergunta que merece ser levada muito a sério.
Neemias Prudente:
Qual é a relação entre Os contos que te conto e o livro bíblico de Eclesiastes?
Charles Santiago:
A relação está numa pergunta que atravessa o livro: qual é o valor da vida diante de sua transitoriedade? Eclesiastes — ou Qohelet —, não oferece respostas fáceis. Ele observa o trabalho, o conhecimento, o prazer, a riqueza, a passagem do tempo e a morte. Em muitos momentos, parece colocar em dúvida aquilo que tomamos como garantido. Mas também insiste na possibilidade de desfrutar a vida, reconhecer seus dons e acolher os limites da nossa condição.
Essa tensão me interessa muito. A vida é breve, muita coisa escapa ao nosso controle e nem sempre conseguimos encontrar um sentido definitivo para o que fazemos. Ainda assim, existem encontros, experiências e mo Entrevista para a Factótum Cultural com Charles Santiago por Neemias Prudente
mentos de alegria que deixam marcas. Jitaúna, por exemplo, é uma cidade real, mas também é memória e imaginação. Os contos exploram essa passagem entre o que aconteceu, o que lembramos e aquilo que inventamos para tentar compreender a experiência.
Eclesiastes funciona, nesse processo, como um interlocutor. Não quero apenas ilustrar o texto bíblico com histórias contemporâneas. Quero colocar as histórias diante das perguntas que o livro formula e perceber o que acontece quando essas perguntas chegam ao cotidiano, às relações, ao trabalho, ao prazer e às nossas tentativas de dar sentido à existência.
Neemias Prudente:
Você utiliza a expressão “hermenêutica ficcional”. O que quer dizer com isso?
Charles Santiago:
Uso a expressão para nomear um exercício em que a criação literária entra em diálogo com a interpretação de um texto. A ficção hermenêutica não é simplesmente inventar livremente a partir de qualquer assunto, nem reescrever Eclesiastes como se eu pudesse colocar no texto bíblico tudo o que desejo. Trata-se de criar histórias que conversem com suas perguntas, respeitando a singularidade do texto e permitindo que ele também coloque em questão as nossas certezas.
No estudo de Eclesiastes, algumas palavras hebraicas são especialmente importantes para mim. Hevel, por exemplo, costuma ser traduzida por “vaidade”, mas seu campo de sentidos evoca também vapor, sopro, aquilo que passa e escapa. Yitrôn remete à ideia de ganho, vantagem ou excedente; amal, ao esforço, ao trabalho penoso. Essas palavras participam da construção poética e intelectual do livro e ajudam a formular questões sobre transitoriedade, esforço e aquilo que permanece — ou não permanece — depois de nossas ações.
A ficção permite que essas questões sejam deslocadas para situações cotidianas, para conversas de bar, encontros e desencontros. O boteco se torna, assim, uma espécie de laboratório da existência. Entre uma cerveja, uma história exagerada, uma lembrança que talvez não tenha acontecido exatamente como foi contada e uma ressaca que devolve o sujeito aos limites do próprio corpo, surgem questões sobre o tempo, o prazer, o trabalho, a finitude e o sentido da vida.
Não vejo contradição entre pensar filosoficamente e habitar esses ambientes. A filosofia não precisa estar sempre acompanhada de solenidade. Às vezes, uma conversa despretensiosa numa mesa de bar permite formular uma pergunta que nos acompanha por muito tempo. E a literatura tem essa liberdade: pode criar situações nas quais as questões de Eclesiastes apareçam de maneira inesperada, sem que os personagens precisem se transformar em professores ou filósofos profissionais.
Naturalmente, a liberdade ficcional não elimina a responsabilidade da interpretação. O texto bíblico tem sua história, sua linguagem e suas formas próprias de dizer. A ficção não substitui o trabalho de leitura; ela experimenta, em outro registro, as possibilidades abertas por essa leitura. É uma maneira de pensar com o texto, e não de fazê-lo dizer qualquer coisa.
Neemias Prudente:
Como o projeto deve continuar? Os contos e a leitura de Eclesiastes caminharão juntos?
Charles Santiago:
Sim, embora sejam trabalhos diferentes. Os contos continuarão seu percurso literário, com personagens, situações, humor e reflexão. Ao mesmo tempo, comecei a organizar uma leitura de Eclesiastes capítulo por capítulo, num diálogo com estudantes e amigos que se interessam pelo texto. A proposta é fazer uma leitura filosófica e situada, levando em conta a composição do livro, suas questões e o modo como elas nos alcançam hoje.
A ideia é publicar essa leitura às sextas-feiras, no mesmo espaço em que os contos aparecem, de modo que os leitores possam acompanhar os dois movimentos. De um lado, a ficção experimenta possibilidades narrativas; de outro, a leitura de Eclesiastes se dedica mais diretamente ao texto, procurando compreender o que ele diz, como constrói suas questões e quais tensões permanecem abertas.
Quando chegarmos ao último capítulo do livro, pretendo encerrar também o ciclo dos contos. Não porque a literatura tenha esgotado suas possibilidades, mas porque esse conjunto nasceu de uma conversa particular com Eclesiastes. Quero respeitar o percurso e reconhecer o momento em que ele encontra seu término.
Neemias Prudente:
Você fala em “leitura situada”. Isso significa que cada leitor pode interpretar o texto como quiser?
Charles Santiago:
Não. Uma leitura situada reconhece que ninguém lê a partir de lugar nenhum. Temos uma história, uma linguagem, experiências, perguntas e preocupações que participam do encontro com um texto. Mas reconhecer isso não significa que qualquer interpretação seja igualmente válida. É preciso fazer justiça ao texto, compreender o que ele diz, como diz e quais perguntas efetivamente coloca.
É nesse ponto que quero dialogar com autores como Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur. A interpretação envolve a historicidade do leitor, a linguagem e a relação com uma obra que não se reduz às intenções de quem a lê. O texto vem de outro tempo e de outro horizonte cultural; por isso, precisamos reconhecer essa distância, em vez de apagá-la. Ao mesmo tempo, é justamente o encontro entre essa alteridade e as perguntas do presente que torna a leitura significativa.
Gosto de pensar esse trabalho como uma tensão produtiva: aproximar o texto de nossas questões sem domesticá-lo, sem retirar aquilo que nele resiste às nossas expectativas. Em outras palavras, precisamos garantir ao texto o que é do texto. Uma leitura situada não procura apenas confirmar aquilo em que já acreditamos; ela também deve permitir que o texto nos surpreenda, nos contrarie e transforme nossas perguntas.
Neemias Prudente:
Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores da Factótum? E como esse trabalho se relaciona com sua pesquisa acadêmica?
Charles Santiago:
Estou muito contente com o caminho que o projeto vem tomando. Os contos me permitiram aproximar experiências pessoais, literatura e filosofia de uma maneira que não estava inteiramente prevista no início. O trabalho também dialoga com minha pesquisa acadêmica, especialmente com as atividades do grupo Poética do Sagrado, que coordeno. O grupo investiga a Bíblia como literatura e suas relações com a hermenêutica, a estética, a filosofia e outras formas de expressão. É um trabalho acadêmico, não confessional, que procura ler os textos com rigor e abertura intelectual.
Talvez por isso os contos tenham encontrado no boteco um lugar tão próprio. Ali, a vida aparece sem muita cerimônia: nas conversas, nas cervejas, nas promessas feitas de madrugada e nas ressacas que nos lembram que somos seres limitados. Não se trata de romantizar a bebida ou o excesso, mas de reconhecer que a experiência humana também se revela nesses ambientes. Há histórias que começam numa mesa de bar e terminam numa pergunta filosófica. E há perguntas de Eclesiastes que parecem feitas justamente para quem, depois de uma noite longa, precisa pensar novamente no que vale a pena viver.
Meu convite aos leitores é simples: leiam os contos, acompanhem a leitura de Eclesiastes e permitam-se conversar com essas histórias. O livro bíblico fala de tempo, trabalho, prazer, morte, conhecimento e dos limites de nossas pretensões. São questões antigas, mas continuam presentes em nossas vidas. A literatura e a filosofia talvez não ofereçam respostas definitivas; podem, no entanto, ajudar-nos a olhar de novo para aquilo que imaginávamos conhecer. E, quem sabe, descobrir que uma boa história — como uma conversa de boteco — pode começar falando de outra coisa e, quando percebemos, já está falando da vida.
Neemias Prudente:
Os contos começaram ligados às lembranças de Jitaúna, na Bahia, às amizades e a experiências políticas e religiosas que marcaram sua trajetória. Como nasceu o projeto?
Charles Santiago:
O projeto nasceu do desejo de voltar a algumas lembranças e conversar com pessoas, lugares e experiências que fizeram parte da minha vida. Jitaúna, cidade do interior da Bahia, guarda uma parte importante da minha história: amigos, encontros, lutas políticas, experiências religiosas e sonhos compartilhados. Inicialmente, pensei em desenvolver uma pesquisa que recuperasse a memória de um movimento do qual participei. Cheguei a considerar um projeto de pós-doutorado ligado à Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia e ao Museu Pedagógico, instituição na qual fiz uma pós-graduação em cultura e memória.
Aos poucos, porém, percebi que aquelas lembranças estavam encontrando outro caminho. Em vez de organizá-las apenas como objeto de pesquisa documental, comecei a transformá-las em histórias. A literatura abriu uma possibilidade diferente de relação com o passado: eu podia lembrar, imaginar, deslocar acontecimentos, criar personagens e reconhecer que a memória também é feita de silêncios, fantasias, afetos e contradições. Foi assim que surgiu Os contos que te conto.
Neemias Prudente:
Em determinado momento, você decidiu não levar adiante aquele projeto de pesquisa sobre a memória do movimento. O que aconteceu?
Charles Santiago:
Eu chamaria isso de desencantamento, não exatamente de desânimo. As coisas mudaram, eu mudei, e aquilo que antes parecia exigir uma investigação documental já não tinha a mesma força. Às vezes, insistimos em transformar uma experiência em objeto de pesquisa porque acreditamos que precisamos explicar tudo, registrar tudo, dar uma forma definitiva ao que vivemos. Mas nem toda lembrança precisa ser submetida a esse tipo de fixação.
Não quero apagar o que aconteceu nem negar a importância daquela trajetória. Ao contrário: há algo de bonito em preservar certas memórias como um horizonte, inclusive para os mais jovens. Nelas existem conquistas, erros, ilusões, conflitos e também aquilo que ainda não conseguimos compreender inteiramente. A literatura permite manter essa memória viva sem exigir que ela se transforme num documento fechado. Talvez algumas experiências continuem nos acompanhando justamente porque não conseguimos encerrá-las numa explicação definitiva.
Neemias Prudente:
Como essas lembranças se transformaram em contos? O que a ficção passou a permitir que a pesquisa não permitia?
Charles Santiago:
Os contos começaram a ultrapassar os limites da lembrança original. Jitaúna continua presente, mas já não é apenas uma cidade que tento recuperar. Ela também se tornou um lugar imaginado, um território literário no qual acontecimentos vividos podem se misturar à invenção. A ficção me deu liberdade para criar situações, exagerar histórias, deslocar personagens e, ao mesmo tempo, pensar filosoficamente sobre aquilo que nos acontece.
E há um cenário que me interessa particularmente: o boteco. A mesa de bar, a cerveja, as conversas que atravessam a noite e até a ressaca do dia seguinte são elementos que permitem construir histórias e pensar a existência a partir de um lugar pouco convencional. Afinal, por que os saberes precisariam nascer apenas nos livros, nas universidades ou nos espaços considerados solenes? Também pensamos quando contamos um caso, lembramos o passado, discordamos de um amigo ou tentamos compreender o que fizemos na noite anterior. O boteco não é apenas cenário dos contos: é também um espaço possível de elaboração da vida.
Isso não significa que toda conversa de bar seja filosofia, nem que a bebida tenha alguma virtude especial. Significa apenas que a experiência humana não se limita aos ambientes que tradicionalmente reconhecemos como lugares de produção do conhecimento. Às vezes, uma história contada entre amigos abre uma pergunta que merece ser levada muito a sério.
Neemias Prudente:
Qual é a relação entre Os contos que te conto e o livro bíblico de Eclesiastes?
Charles Santiago:
A relação está numa pergunta que atravessa o livro: qual é o valor da vida diante de sua transitoriedade? Eclesiastes — ou Qohelet —, não oferece respostas fáceis. Ele observa o trabalho, o conhecimento, o prazer, a riqueza, a passagem do tempo e a morte. Em muitos momentos, parece colocar em dúvida aquilo que tomamos como garantido. Mas também insiste na possibilidade de desfrutar a vida, reconhecer seus dons e acolher os limites da nossa condição.
Essa tensão me interessa muito. A vida é breve, muita coisa escapa ao nosso controle e nem sempre conseguimos encontrar um sentido definitivo para o que fazemos. Ainda assim, existem encontros, experiências e mo Entrevista para a Factótum Cultural com Charles Santiago por Neemias Prudente
mentos de alegria que deixam marcas. Jitaúna, por exemplo, é uma cidade real, mas também é memória e imaginação. Os contos exploram essa passagem entre o que aconteceu, o que lembramos e aquilo que inventamos para tentar compreender a experiência.
Eclesiastes funciona, nesse processo, como um interlocutor. Não quero apenas ilustrar o texto bíblico com histórias contemporâneas. Quero colocar as histórias diante das perguntas que o livro formula e perceber o que acontece quando essas perguntas chegam ao cotidiano, às relações, ao trabalho, ao prazer e às nossas tentativas de dar sentido à existência.
Neemias Prudente:
Você utiliza a expressão “hermenêutica ficcional”. O que quer dizer com isso?
Charles Santiago:
Uso a expressão para nomear um exercício em que a criação literária entra em diálogo com a interpretação de um texto. A ficção hermenêutica não é simplesmente inventar livremente a partir de qualquer assunto, nem reescrever Eclesiastes como se eu pudesse colocar no texto bíblico tudo o que desejo. Trata-se de criar histórias que conversem com suas perguntas, respeitando a singularidade do texto e permitindo que ele também coloque em questão as nossas certezas.
No estudo de Eclesiastes, algumas palavras hebraicas são especialmente importantes para mim. Hevel, por exemplo, costuma ser traduzida por “vaidade”, mas seu campo de sentidos evoca também vapor, sopro, aquilo que passa e escapa. Yitrôn remete à ideia de ganho, vantagem ou excedente; amal, ao esforço, ao trabalho penoso. Essas palavras participam da construção poética e intelectual do livro e ajudam a formular questões sobre transitoriedade, esforço e aquilo que permanece — ou não permanece — depois de nossas ações.
A ficção permite que essas questões sejam deslocadas para situações cotidianas, para conversas de bar, encontros e desencontros. O boteco se torna, assim, uma espécie de laboratório da existência. Entre uma cerveja, uma história exagerada, uma lembrança que talvez não tenha acontecido exatamente como foi contada e uma ressaca que devolve o sujeito aos limites do próprio corpo, surgem questões sobre o tempo, o prazer, o trabalho, a finitude e o sentido da vida.
Não vejo contradição entre pensar filosoficamente e habitar esses ambientes. A filosofia não precisa estar sempre acompanhada de solenidade. Às vezes, uma conversa despretensiosa numa mesa de bar permite formular uma pergunta que nos acompanha por muito tempo. E a literatura tem essa liberdade: pode criar situações nas quais as questões de Eclesiastes apareçam de maneira inesperada, sem que os personagens precisem se transformar em professores ou filósofos profissionais.
Naturalmente, a liberdade ficcional não elimina a responsabilidade da interpretação. O texto bíblico tem sua história, sua linguagem e suas formas próprias de dizer. A ficção não substitui o trabalho de leitura; ela experimenta, em outro registro, as possibilidades abertas por essa leitura. É uma maneira de pensar com o texto, e não de fazê-lo dizer qualquer coisa.
Neemias Prudente:
Como o projeto deve continuar? Os contos e a leitura de Eclesiastes caminharão juntos?
Charles Santiago:
Sim, embora sejam trabalhos diferentes. Os contos continuarão seu percurso literário, com personagens, situações, humor e reflexão. Ao mesmo tempo, comecei a organizar uma leitura de Eclesiastes capítulo por capítulo, num diálogo com estudantes e amigos que se interessam pelo texto. A proposta é fazer uma leitura filosófica e situada, levando em conta a composição do livro, suas questões e o modo como elas nos alcançam hoje.
A ideia é publicar essa leitura às sextas-feiras, no mesmo espaço em que os contos aparecem, de modo que os leitores possam acompanhar os dois movimentos. De um lado, a ficção experimenta possibilidades narrativas; de outro, a leitura de Eclesiastes se dedica mais diretamente ao texto, procurando compreender o que ele diz, como constrói suas questões e quais tensões permanecem abertas.
Quando chegarmos ao último capítulo do livro, pretendo encerrar também o ciclo dos contos. Não porque a literatura tenha esgotado suas possibilidades, mas porque esse conjunto nasceu de uma conversa particular com Eclesiastes. Quero respeitar o percurso e reconhecer o momento em que ele encontra seu término.
Neemias Prudente:
Você fala em “leitura situada”. Isso significa que cada leitor pode interpretar o texto como quiser?
Charles Santiago:
Não. Uma leitura situada reconhece que ninguém lê a partir de lugar nenhum. Temos uma história, uma linguagem, experiências, perguntas e preocupações que participam do encontro com um texto. Mas reconhecer isso não significa que qualquer interpretação seja igualmente válida. É preciso fazer justiça ao texto, compreender o que ele diz, como diz e quais perguntas efetivamente coloca.
É nesse ponto que quero dialogar com autores como Hans-Georg Gadamer e Paul Ricoeur. A interpretação envolve a historicidade do leitor, a linguagem e a relação com uma obra que não se reduz às intenções de quem a lê. O texto vem de outro tempo e de outro horizonte cultural; por isso, precisamos reconhecer essa distância, em vez de apagá-la. Ao mesmo tempo, é justamente o encontro entre essa alteridade e as perguntas do presente que torna a leitura significativa.
Gosto de pensar esse trabalho como uma tensão produtiva: aproximar o texto de nossas questões sem domesticá-lo, sem retirar aquilo que nele resiste às nossas expectativas. Em outras palavras, precisamos garantir ao texto o que é do texto. Uma leitura situada não procura apenas confirmar aquilo em que já acreditamos; ela também deve permitir que o texto nos surpreenda, nos contrarie e transforme nossas perguntas.
Neemias Prudente:
Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores da Factótum? E como esse trabalho se relaciona com sua pesquisa acadêmica?
Charles Santiago:
Estou muito contente com o caminho que o projeto vem tomando. Os contos me permitiram aproximar experiências pessoais, literatura e filosofia de uma maneira que não estava inteiramente prevista no início. O trabalho também dialoga com minha pesquisa acadêmica, especialmente com as atividades do grupo Poética do Sagrado, que coordeno. O grupo investiga a Bíblia como literatura e suas relações com a hermenêutica, a estética, a filosofia e outras formas de expressão. É um trabalho acadêmico, não confessional, que procura ler os textos com rigor e abertura intelectual.
Talvez por isso os contos tenham encontrado no boteco um lugar tão próprio. Ali, a vida aparece sem muita cerimônia: nas conversas, nas cervejas, nas promessas feitas de madrugada e nas ressacas que nos lembram que somos seres limitados. Não se trata de romantizar a bebida ou o excesso, mas de reconhecer que a experiência humana também se revela nesses ambientes. Há histórias que começam numa mesa de bar e terminam numa pergunta filosófica. E há perguntas de Eclesiastes que parecem feitas justamente para quem, depois de uma noite longa, precisa pensar novamente no que vale a pena viver.
Meu convite aos leitores é simples: leiam os contos, acompanhem a leitura de Eclesiastes e permitam-se conversar com essas histórias. O livro bíblico fala de tempo, trabalho, prazer, morte, conhecimento e dos limites de nossas pretensões. São questões antigas, mas continuam presentes em nossas vidas. A literatura e a filosofia talvez não ofereçam respostas definitivas; podem, no entanto, ajudar-nos a olhar de novo para aquilo que imaginávamos conhecer. E, quem sabe, descobrir que uma boa história — como uma conversa de boteco — pode começar falando de outra coisa e, quando percebemos, já está falando da vida.






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