Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Sobre criatividade, conformismo e os desafios de formar pessoas livres para pensar.

Quando crianças, fazemos perguntas sobre tudo. Queremos saber por que o céu é azul, se os animais pensam, o que existe depois da morte e se há vida em outros planetas. Nossa curiosidade não conhece fronteiras, e nossa imaginação não pede autorização para existir.

Então, começamos a estudar.

Aprendemos a levantar a mão, copiar a matéria, memorizar respostas e acertar as questões da prova. Descobrimos que algumas perguntas são bem-vindas, outras atrapalham a aula e certas ideias são melhores quando permanecem guardadas. Aos poucos, aprendemos o conteúdo e, sem perceber, também aprendemos a nos comportar.

Como professor, vejo essa contradição de perto. No ensino do Direito, disciplinas como Filosofia, Sociologia, Antropologia e Criminologia, fundamentais para compreender criticamente o ser humano e a sociedade, nem sempre recebem a valorização que merecem. Quem insiste em provocar reflexões, questionar certezas e ir além da técnica jurídica pode acabar visto como o professor esquisitão. Parece que queremos formar profissionais críticos, mas nem sempre estamos dispostos a lidar com as consequências disso.

Na pós-graduação, a situação não é necessariamente diferente. Como aluno do doutorado, tenho interesses que atravessam fronteiras disciplinares, da antropologia aos estados alterados de consciência e às experiências psicodélicas. Quando levo algumas dessas inquietações para o ambiente acadêmico, nem sempre encontro disposição para discuti-las seriamente. Já me deparei com ironias, piadas e questionamentos sobre o que estou fazendo ali. Até a possibilidade de investigar uma antropologia extraterrestre, por exemplo, pode virar motivo de riso antes mesmo de se discutir o que a proposta significa, quais são seus limites ou se há um caminho intelectualmente defensável para desenvolvê-la.

Não espero que a universidade aceite qualquer ideia. Uma hipótese precisa de rigor, fundamentação e crítica. Mas existe uma diferença entre demonstrar que uma proposta não se sustenta e ridicularizar quem ousa formulá-la. Se toda ideia incomum for recebida com deboche, logo aprenderemos que é mais seguro repetir o conhecido do que investigar o desconhecido.

Essa preocupação não é nova. Pesquisadores como George Devereux, cuja pensamento aproxima antropologia e compreensão da experiência psíquica, mostram a importância de considerar diferentes contextos culturais na investigação do ser humano. É uma lembrança oportuna de que ampliar o conhecimento exige, muitas vezes, atravessar fronteiras disciplinares e questionar nossos próprios pressupostos. Nem toda travessia levará a uma descoberta, mas nenhuma investigação séria deveria ser substituída pelo preconceito.

Há ainda outro problema: acumulamos teorias, discutimos autores e disputamos interpretações, mas nem sempre perguntamos o que o conhecimento pode fazer pela vida. Isso não significa desprezar os grandes pensadores ou abandonar a teoria. Significa perguntar como podemos transformar o conhecimento em instrumentos para compreender o sofrimento, aprimorar nossas relações, melhorar a sociedade e ampliar nossa compreensão de nós mesmos.

A teoria é indispensável, mas não deveria se tornar um esconderijo confortável contra a realidade. O conhecimento não existe apenas para ser reproduzido, citado ou defendido em debates. Também deve nos ajudar a enfrentar problemas e construir novas possibilidades de existência.

Quando o medo do julgamento se torna maior do que a vontade de investigar, algo essencial se perde. O estudante esconde suas perguntas, o pesquisador suaviza suas ideias e o professor abandona suas provocações. Todos aprendem a reconhecer aquilo que é aceitável e a desconfiar daquilo que os torna diferentes.

A educação, então, deixa de ampliar horizontes e passa a ensinar a caber dentro deles.

Felizmente, nem todos se acomodam. Existem estudantes que continuam perguntando, professores que se recusam a transformar aulas em depósitos de informações e pesquisadores que se aventuram por caminhos pouco explorados. Pessoas que incomodam, erram, reformulam e insistem, não porque tenham sempre razão, mas porque compreendem que o conhecimento está em permanente construção.

O mundo não é transformado apenas por quem domina o conhecimento existente, mas também por quem ousa questioná-lo, reinventá-lo e colocá-lo a serviço da vida.

Talvez a verdadeira missão da educação não seja ensinar a todos a pensar da mesma maneira, mas oferecer condições para que cada pessoa desenvolva a capacidade de pensar melhor, inclusive quando isso significa pensar diferente de nós.

Afinal, algumas das perguntas capazes de transformar o futuro serão justamente aquelas que, no presente, alguém considerará estranhas demais para serem feitas.

E, às vésperas de mais uma eleição, parece que nem mesmo a universidade escapa da velha mania de dividir o mundo entre mocinhos e vilões, escolhendo entre Lula e Bolsonaro como se pensar fosse declarar fidelidade a uma religião. Já falei sobre essa nossa inclinação à torcida organizada na crônica A granja abre amanhã: Às vésperas da eleição, os bichos de Orwell continuam entre nós. O curioso é que até nos espaços dedicados ao pensamento crítico ainda precisamos aprender a discordar sem excluir, questionar sem ridicularizar e pensar sem pedir licença. Talvez a educação só cumpra verdadeiramente sua missão quando deixar de exigir que todos caibam na mesma caixa e começar a compreender que são justamente aqueles alunos e professores que ousam sair dela que podem abrir caminhos para transformar o mundo.

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⚡ Neemias Moretti Prudente, Escritor.

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