Escrever Para Não Enlouquecer – Por Neemias

Terminei de assistir ontem à nova animação de A Revolução dos Bichos e fiquei alguns instantes olhando para a televisão. Não era exatamente tristeza, tampouco indignação. Era aquela sensação incômoda de reconhecer alguma coisa que preferíamos não reconhecer. A granja estava ali, os porcos estavam ali e, por algum motivo, comecei a pensar no Brasil. Talvez Orwell não imaginasse que sua história continuaria tão pertinente, nem que alguns de seus personagens pareceriam tão familiares em terras tropicais.
Na granja, os animais se revoltam contra a exploração, sonhando com liberdade e igualdade. A proposta é nobre, mas, como acontece tantas vezes na história humana, as boas intenções começam a sofrer algumas adaptações quando seus idealizadores chegam ao poder. Os antigos explorados passam a administrar a própria revolução e, pouco a pouco, descobrem as vantagens de ocupar o lugar daqueles que combatiam. As regras mudam, os privilégios aparecem e as justificativas se multiplicam. No fim, os novos governantes já não se parecem tão diferentes dos antigos.
Assistindo àquilo, pensei em nossa velha mania de enxergar os defeitos políticos apenas no lado oposto. Temos uma facilidade extraordinária para identificar autoritarismo, corrupção, manipulação e abuso de poder quando são praticados por nossos adversários. Quando os mesmos comportamentos aparecem entre aqueles que admiramos, entretanto, desenvolvemos uma impressionante capacidade de contextualização. A mentira vira estratégia, o privilégio se transforma em necessidade e a contradição passa a ser uma questão de interpretação. Parece que a consciência também escolhe partido, dependendo da conveniência.
Nas redes sociais, a granja ganhou proporções gigantescas. As ovelhas agora têm celulares, acesso à internet e uma infinidade de frases prontas para compartilhar. Repetem slogans, reproduzem discursos e defendem ideias que, muitas vezes, sequer se dão ao trabalho de questionar. O curioso é que, em meio a tanta informação disponível, parece cada vez mais difícil encontrar disposição para o pensamento crítico. Não precisamos necessariamente compreender os problemas, basta identificar quem devemos odiar. A política, que deveria ser um espaço de debate sobre a vida coletiva, transforma-se, não raro, em uma disputa de torcidas, na qual qualquer crítica ao próprio grupo é tratada como traição.
Talvez o mais interessante na obra de Orwell seja perceber que os porcos não são os únicos responsáveis pelo destino da granja. Há também os animais que se calam, aqueles que acreditam nas promessas, os que preferem não questionar e os que, mesmo desconfiados, continuam obedecendo. Sansão, o cavalo trabalhador, representa de maneira dolorosa a dedicação de quem acredita que o próprio esforço será suficiente para transformar a realidade, mesmo quando aqueles que deveriam cuidar do bem coletivo se beneficiam de sua lealdade. É difícil não pensar em quantas pessoas vivem nessa condição, trabalhando, pagando impostos e esperando que, algum dia, as promessas finalmente saiam do papel.
O problema é que, por aqui, parece que cada grupo possui seus próprios porcos, suas próprias ovelhas e uma versão particular da verdade. Há quem defenda Lula como se qualquer crítica ao presidente fosse uma afronta pessoal. Há quem trate Bolsonaro como um salvador da pátria e já enxergue em Flávio Bolsonaro a continuidade de um projeto quase dinástico. Entre os extremos, a capacidade de questionamento frequentemente desaparece, substituída por uma devoção que pouco combina com a democracia. Políticos são pessoas, não divindades, e deveriam ser cobrados justamente por aqueles que os elegeram ou apoiam. Afinal, transformar representantes em ídolos é uma maneira bastante eficiente de abrir mão da própria autonomia.
E enquanto as torcidas discutem qual porco merece ocupar o comando da granja, as instituições também se tornam parte desse cenário. O Supremo Tribunal Federal, frequentemente no centro das controvérsias e dos debates nacionais, não escapa à mesma lógica de idolatria e rejeição. Para alguns, suas decisões são sempre a garantia da democracia; para outros, representam invariavelmente uma ameaça. Entre aplausos e acusações, fica uma questão fundamental: como preservar a independência das instituições, assegurar os limites do poder e garantir que ninguém esteja acima da lei? A democracia exige vigilância, inclusive sobre aqueles que têm a responsabilidade de protegê-la.
Talvez a grande lição de A Revolução dos Bichos não seja simplesmente tomar cuidado com os porcos, mas compreender que o poder precisa ser permanentemente questionado, independentemente de quem o exerça. É muito confortável apontar o autoritarismo alheio, mas muito mais difícil reconhecer as contradições do próprio grupo. A liberdade de pensamento começa justamente quando somos capazes de discordar daqueles com quem concordamos e de reconhecer méritos até mesmo naqueles de quem discordamos. Caso contrário, corremos o risco de trocar apenas os personagens, preservando intacto o roteiro.
No fim, talvez a nossa maior tragédia não seja a existência de políticos que buscam o poder, mas a quantidade de pessoas dispostas a defender qualquer coisa em nome deles. Lula, Flávio ou qualquer outro nome que venha a ocupar o imaginário político nacional não deveria receber um cheque em branco de seus apoiadores. Afinal, quem transforma político em ídolo acaba confundindo fidelidade com submissão e convicção com cegueira. E, enquanto os brasileiros brigam para decidir qual porco é o mais virtuoso, talvez os próprios porcos estejam se divertindo com o espetáculo.
E, diante de tamanha fauna eleitoral, até Caneta Azul, a Menina da Bota e o Papa-Capim parecem personagens perfeitamente integrados à nossa granja. Em meio a discursos ensaiados, disputas intermináveis e devoções políticas, a espontaneidade dos improváveis acaba chamando a atenção. Talvez o mais curioso não seja quem aparece no palco, mas a facilidade com que transformamos figuras públicas em salvadores, como se a política fosse uma questão de fé e não de responsabilidade.
Amanhã, os bichos irão às urnas. Depois, a granja continuará funcionando, com seus privilégios, suas disputas e suas promessas de revolução. E, enquanto houver quem confunda líderes com salvadores e discordância com traição, a história de Orwell continuará encontrando maneiras de se repetir.
Mas isso é para outra crônica.
Para ampliar a reflexão, ficam duas sugestões cinematográficas: Os Candidatos (2012), uma sátira sobre as disputas eleitorais, e Idiocracia (2006), uma comédia distópica sobre uma sociedade que parece ter perdido o senso crítico.

📖 E não deixe de ler nosso conteúdo anterior:

⚡ Neemias Moretti Prudente, Escritor.





Deixe um comentário