Por Charles Santiago

Conversas com Qohelet: Um capítulo por vez, uma conversa sobre a vida

Sobre esta série

Conversas com Qohelet integra um projeto de leitura e interpretação do livro de Eclesiastes, capítulo por capítulo, que em breve dará origem ao livro Eclesiastes: Poética da existência, finitude e sentido da vida. Os textos publicados nesta série apresentam sínteses das interpretações desenvolvidas para a obra, aproximando literatura, filosofia e reflexão teológica.

O livro também contará com uma aproximação ao texto hebraico, sua transliteração e uma reflexão sobre as escolhas de tradução e seus efeitos na interpretação. O propósito é compartilhar as perguntas de Qohelet, mostrando como a língua, a tradução e a leitura participam da construção dos sentidos, e permitir que essas perguntas continuem provocando nossas maneiras de compreender e viver a existência.

Aprender a viver diante da finitude

O livro de Eclesiastes começa com uma afirmação desconcertante: “Vaidade de vaidades, diz o Pregador, vaidade de vaidades! Tudo é vaidade” (Eclesiastes 1:2, Almeida Revista e Atualizada). No texto hebraico, a palavra que se repete é hevel, tradicionalmente traduzida como “vaidade” e associada àquilo que é passageiro, fugaz ou desprovido de consistência. Mas será que podemos compreender o alcance dessa afirmação logo na primeira vez que a encontramos? Ou será que precisamos acompanhar o percurso de Qohelet para perceber o que ela nos leva a pensar?

A leitura do primeiro capítulo sugere que estamos diante de um texto que não se limita a apresentar uma conclusão sobre a existência humana. Qohelet parece construir uma investigação. Ele começa com uma afirmação abrangente e, em seguida, convida seu leitor a acompanhá-lo por imagens, perguntas e experiências que ampliam progressivamente o horizonte dessa afirmação. O pessimismo que atravessa suas primeiras palavras não precisa ser entendido como o ponto de chegada de sua reflexão. Pode ser, antes, o modo pelo qual ele começa a desestabilizar nossas certezas.

Uma das primeiras imagens apresentadas é a dos movimentos da natureza. As gerações vêm e vão, enquanto a terra permanece. O sol nasce, põe-se e volta a nascer. Os ventos circulam, os rios correm para o mar, e o movimento continua (Eclesiastes 1:4–7). Qohelet observa essa dinâmica e afirma que “nada há de novo debaixo do sol” (Eclesiastes 1:9, ARA).

É possível interpretar essa passagem como uma imagem da falta de sentido da existência. Entretanto, há outra possibilidade: compreender que o texto coloca em questão os limites dentro dos quais a vida acontece. O sol não é novo, mas cada manhã é uma nova manhã. A estrutura do mundo se repete, mas a experiência de viver não se reduz à repetição. Cada existência é singular, ainda que aconteça dentro de condições que não escolhemos e que não podemos abolir.

Nesse sentido, a afirmação de que não há nada novo debaixo do sol não precisa significar que inexistam experiências singulares. Talvez signifique que nenhuma experiência, por mais extraordinária que seja, nos permite escapar inteiramente da condição humana. Nascemos, vivemos e morremos. Participamos de um movimento que nos antecede e que continuará depois de nós. A novidade acontece dentro dessa estrutura, não necessariamente como ruptura dela.

Essa percepção nos conduz a outra questão. Se as gerações passam e as experiências deixam de existir com aqueles que as viveram, seria necessário que nossas ações permanecessem na memória dos outros para que nossa vida tivesse sentido? Qohelet observa que não há memória duradoura das gerações passadas e que as futuras também não serão lembradas indefinidamente (Eclesiastes 1:11). A memória humana, que tantas vezes tratamos como garantia de permanência, revela seus próprios limites.

Mas a ausência de permanência não precisa significar a ausência de valor. A vida não precisa sobreviver àquele que a viveu para ter sido significativa. O reconhecimento das gerações futuras não pode ser a medida definitiva da existência, sobretudo porque talvez jamais estejamos presentes para conhecer esse reconhecimento. A singularidade de uma vida não depende inteiramente de sua inscrição na memória coletiva. Não é preciso deixar um registro permanente para que uma experiência tenha sido real, valiosa ou prazerosa.

Talvez uma das dificuldades humanas esteja justamente em aceitar que aquilo que é bom também termina. Amamos a vida, desfrutamos de experiências agradáveis, realizamos coisas que consideramos importantes, mas não podemos conservá-las indefinidamente. A finitude nos desconcerta não apenas porque a existência termina, mas porque aquilo que termina pode ter sido profundamente bom.

O problema, portanto, não precisa estar na vida, como se ela fosse necessariamente absurda ou desprovida de sentido. Pode estar também na nossa dificuldade de aceitar sua transitoriedade. Por amor à vida, desejamos prolongá-la, preservar nossas experiências e garantir a permanência daquilo que valorizamos. Às vezes, procuramos essa garantia no reconhecimento futuro, nas realizações ou na expectativa de que alguma coisa possa nos proteger da passagem do tempo.

É nesse ponto que a investigação de Qohelet ganha força. No primeiro capítulo, ele se apresenta como alguém que se dedicou a examinar, pela sabedoria, aquilo que acontece debaixo do céu (Eclesiastes 1:13). Não temos apenas uma voz que comunica uma conclusão: encontramos a figura de um investigador que convida seus leitores a acompanhá-lo. O leitor é chamado a observar, refletir e avaliar. Mais do que aderir às conclusões de Qohelet, é convidado a aprender a perguntar.

Ler um texto antigo também significa permitir que suas perguntas alcancem o presente. Não se trata de abandonar o mundo no qual o texto surgiu, nem de atribuir ao seu autor todas as questões que hoje nos interessam. Trata-se de reconhecer que uma reflexão nascida em outro tempo pode continuar a interrogar nossas certezas. Ao encontrarmos Qohelet, não examinamos apenas suas afirmações: somos levados a examinar as nossas. O que esperamos da vida? Por que desejamos que nossas realizações permaneçam? De onde vem a expectativa de que a sabedoria possa nos oferecer respostas definitivas?

Mas a sabedoria não oferece uma saída definitiva. Ao final do capítulo, Qohelet afirma que o aumento da sabedoria aumenta o desgosto e que o aumento do conhecimento aumenta a dor (Eclesiastes 1:18). Conhecer pode ser doloroso porque a compreensão desfaz ilusões. A sabedoria permite reconhecer os limites da existência, mas não nos concede o poder de ultrapassá-los. Ela não explica todas as coisas, tampouco elimina o sofrimento de quem compreende que a vida tem começo e fim.

A sabedoria gera dor, mas não gera ilusão.

Essa é uma das tensões mais importantes do capítulo. Compreender a finitude não significa necessariamente deixar de sofrer com ela. Podemos saber que a vida termina e, ainda assim, desejar que não terminasse. Podemos reconhecer que não temos domínio absoluto sobre a existência e continuar procurando alguma segurança diante do desconhecido. A sabedoria não elimina essa tensão; ela nos impede, ao menos em parte, de ignorá-la.

Embora o primeiro capítulo não apresente uma resposta explícita sobre Deus, ele se insere numa obra que pensa a existência a partir de um horizonte teológico. Essa dimensão não deve ser apagada, assim como não precisamos antecipar respostas que o próprio texto ainda não oferece. Qohelet nos convida, antes de tudo, a acompanhar sua investigação e a considerar os limites da sabedoria humana. A questão teológica permanece no horizonte do livro, sem dispensar o trabalho da interpretação.

É justamente essa abertura que permite ao capítulo conversar com leitores diferentes. Quem lê a partir da fé poderá encontrar questões sobre a condição humana diante de Deus. Quem não compartilha dessa fé poderá refletir sobre a finitude, a memória e os limites do conhecimento. Não é necessário que todos cheguem às mesmas conclusões para que possam participar da investigação. O importante é que o texto não seja reduzido a uma resposta previamente estabelecida, mas acolhido em sua capacidade de provocar perguntas.

É a partir desse percurso que podemos começar a compreender hevel. A afirmação inicial permanece, mas seu horizonte se amplia à medida que Qohelet examina os movimentos do mundo, a passagem das gerações, a novidade, a memória e os limites do conhecimento. O sentido da palavra não se esgota em uma tradução isolada, nem precisa ser reduzido a uma definição que encerre a discussão.

Podemos pensar hevel como um operador poético: um elemento que não apenas nomeia uma condição da existência, mas põe em movimento a reflexão do texto e conduz o leitor por diferentes horizontes de compreensão. A palavra provoca uma pergunta; as imagens e experiências de Qohelet fazem essa pergunta ganhar amplitude; e o leitor participa desse movimento, revendo aquilo que julgava saber.

Eclesiastes 1 não precisa nos oferecer uma resposta definitiva para começar a transformar nossa maneira de pensar. Sua força pode estar justamente no convite à investigação. Talvez reconhecer que a vida é transitória não seja o mesmo que declará-la sem sentido. Talvez seja o começo de outra relação com ela: uma relação que não dependa da promessa de permanência, do reconhecimento futuro ou da ilusão de domínio.

A vida acontece dentro de limites que não escolhemos. Cada existência, porém, é singular. E o fato de que ela termina não apaga o que nela foi vivido.

Se tudo é hevel, a pergunta que permanece não é apenas o que essa palavra significa, mas o que ela nos leva a reconsiderar sobre a existência. Qohelet começa afirmando; em seguida, investiga. E nós somos convidados a acompanhá-lo, não para escapar da angústia por meio de respostas fáceis, mas para aprender a pensar e, quem sabe, a viver diante daquilo que não podemos conservar para sempre.

Charles Santiago, professor associado de Filosofia, do Mestrado Profissional em Filosofia da Universidade
Estadual do Paraná, líder do Grupo de Pesquisa Poética do Sagrado e colunista da Factótum Cultural.

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